segunda-feira, janeiro 19, 2026

Linha imaginária

Estar no coletivo e ouvi-lo me circundar, sem nele me dissolver, aprofunda-me no meu próprio silêncio. Pela presença, desenham-se contornos entre eles e eu, dentro e fora.

Vejo a linha imaginária entre a parte e o todo e a reconheço como algo familiar, quase um alívio por estar em meio a tudo isso.

Agradeço a oportunidade de ser única entre uma massa de indivíduos públicos como eu. Aproximamo-nos e nos afastamos conforme as circunstâncias da vida, seguindo a maré que nos move, avançando e recuando no mesmo oceano.

domingo, janeiro 18, 2026

Poética orbital

Minha escrita não é linear, mas orbital: reflete uma consciência que gira em torno de um eixo que não se pretende alcançar, apenas gravitar, sem se fixar. A queda, inerente a todos nós, é parte do movimento. Desde cedo, ao aprender a andar, caímos junto com o gesto.

Hoje caí na real: ainda não consigo habitar o ser humano comum que sou. Vivo em análise, como um experimento, e acabo me tornando aquilo que critico. Intérprete de mim, meu olhar não se desliga por decreto; faço da vida um tubo de ensaio. Escrevo não de um lugar resolvido, mas de um lugar honesto.

Não falo de fora, mas de dentro da armadilha, no instante em que reconheço o seu mecanismo. Não se trata de aprender a morar no corriqueiro, mas de uma desaprendizagem corporal. A consciência corre à frente, interpretando, enquanto o corpo permanece em suspensão, vivendo em “tese”, mesmo ao criticá-la. Não sou a tese: reconheço em mim o mesmo dispositivo que enxergo no mundo.

Perceber que ainda estou dentro do mecanismo, apesar de vê-lo, me revela algo simples e difícil: a verdade mora na presença. Neste ponto do voo, já enxergo o terreno onde devo pousar, embora ainda não o sinta sob os pés.

Ainda não sei viver a vida que defendo. Mas já posso vê-la. A defesa nasce da falta, do atrito, da dor de ainda não conseguir habitá-la. Se eu já soubesse vivê-la, talvez nem precisasse formulá-la em palavras.

Nomear não garante o pouso nem a firmeza do chão. É preciso aceitar o malfeito inicial: viver aos tropeços, em versões imperfeitas, contraditórias, às vezes caricatas. Permitir cenas pequenas, quase ridículas, gestos que não confirmam nada.

Venho narrando o que falha. Quando der certo, talvez não haja o que dizer. Quando for sincero, talvez não haja discurso.

Preciso me deixar errar até acertar de verdade. Talvez o acerto não seja um ponto de chegada, mas o momento em que me esqueço de que estava procurando. Ninguém anuncia. A vida simplesmente continua.

Constato onde estou.

Esse é o movimento orbital da consciência em torno do eixo. Escrevo de dentro da fratura e do movimento; quando o processo se completa, me calo. O valor do que digo está no silêncio que sucede.

As feridas permanecem como relevo no meu território: não doem, mas têm contorno, sentido e lugar. Como topografia, orientam-me.

A escrita costura meus fragmentos, unifica dispersões em um mesmo mapa, repatria minhas partes em uma só nação.

A verdade não é fim, é localização; apenas marca o ponto no mapa.
O resto vem quando vier, sem anúncio nem explicação.

sábado, janeiro 17, 2026

Experimento in vitro

Vivemos em um mundo assombrado pela idealização, pelo sonho de acolhimento, reconhecimento e pertencimento. Esquecemos a presença real. Esquecemos o brilho simples das coisas comuns.

O coração sente, mas não digere. Regurgita o sentir em reflexos automáticos de autodefesa.

O sentimento passou a ser tratado como invasão. O que é humano virou ameaça, motivo de medo, distância e fuga.

A autenticidade rareou. Em seu lugar, instalou-se a performance. As relações empobreceram, os vínculos tornaram-se frágeis, e a vida virou palco.

Sentir foi reduzido a um frasco bonito que exala perfume. Encanta, seduz, vende. Mas em nada disso há vida.

Figuras vendáveis.
Vitrines cheias.
Conteúdos vazios.

O encanto que promete libertação aprisiona. Não se toca o próprio desejo por medo de senti-lo.

O que impera é o medo.
O medo de não ser o bastante.

Experimenta-se no ideal aquilo que não se sustenta no real. Confetes lançados.

Plantam sementes em estufas e abandonam a colheita. Permanecem inférteis, como experimentos in vitro.

Talvez consigam amar seus iguais. Mas eu, que já carreguei pesos arbitrários, falsas imagens e visões deturpadas, como alma encarnada em um corpo, assumo-me humana.

Transito entre erros e acertos. Eles não me definem. Não sou isso nem aquilo. Estou aqui.

Não sou prova nem missão. Sou vida em experiência. Meus vínculos não são meios nem fins. São presença partilhada.

Com a essência não se negocia.
Com a essência se posiciona.

Não busco ascensão. Busco aterrisagem.
Não prometo transcendência. Ofereço presença.

Não sou arquétipo. Sou corpo vivo.
Não reivindico elevação. Reivindico o direito à vida comum.

Passo por narrativas alheias sem morar nelas. Vivo o que é justo agora.

Aprendo mais a remover do que a acrescentar.

Não quero príncipes, guias, heróis, carrascos, semideuses ou fantasmas idealizados.

Quero humanos inteiros.
Com os pés no chão.
Reais.

O espírito que rejeita o corpo vira abstração.
O corpo que aceita o espírito se torna vida.

sexta-feira, janeiro 16, 2026

O espírito da consciência

Antes, tudo aqui era mata virgem, mato alto, emaranhado. Certo dia, o pensamento que vagava feito fantasma na floresta resolveu olhar-se no espelho de um rio e foi pego de surpresa pela própria imagem.

— Ora, vejam só! O fantasma existe e tem forma! — exclamou uma voz.

— Quem está aí? Quem fala, aqui de onde estou? — perguntou, confuso, ao notar sua própria voz questionando-se.

— Antes, só havia a mim; agora falo e ouço, como se fossem dois: aquele que fala e aquele que ouve e nota! — ainda perdido, olhou ao redor.

Ouviu o som metálico de uma lâmina afiada cortando o ar. Sua espada configurou-se no discernimento recém-adquirido.

— Por Deus! Estou armado de um novo poder! — concluiu, sobressaltado.

A excitação do momento o impulsionou em movimentos circulares, como alguém que testa o corte da espada. Passou a dar nome aos bois, a dar forma ao invisível — o fantasma que era, enfim, existiu. Todo o emaranhado que o rodeava, de repente, parecia implorar por ordenação e significação.

As palavras assumiram seus postos em meio à confusão, e o caos tornou-se terreno fértil para o trabalho que se insinuava necessário. Finalmente, o fantasma havia sido convocado a elaborar a si mesmo.

Quem, afinal, teria invocado o espírito que vagava disperso pela floresta de si?
Não importa, pois agora ele estava presente, materializado e armado de sua espada outrora embainhada.

O fantasma abriu clareiras mentais onde antes só havia mata fechada. Criou trilhas de pensamentos, construiu estruturas de análise, chegou a conclusões, derrubou certezas, duvidou, avançou e recuou. Havia muito o que fazer: pensar, nomear, dizer.

Antes alheio a tudo isso que agora lhe passava, não poderia mais ignorar nem retornar ao antigo estado despercebido. Mas não sabia ao certo se estava certo — era essa sua condição atual.

— Conseguirei eu continuar existindo até o fim da vida? — perguntou o fantasma, que agora tinha corpo, alma e pensamento.

Continuar existindo… estar presente, se expressar, deixar marca, sentir, perceber, criar… Eis o novo território do fantasma desperto para si.

Um espírito confrontado pela consciência, que dormia profundamente no âmago de suas origens, veio à superfície das águas daquele rio, no qual se viu refletido pela primeira vez.

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Para onde não preciso mais voltar?

Quando a Torre de ilusões desmorona, não há mais onde se esconder. O que surge é a exposição: estar desabrigado das certezas, diante de um espaço vazio.

O impulso imediato é preenchê-lo. Mas com o quê?
Com o já conhecido, que agora parece inadequado e antigo?
Ou com algo além, cuja forma ainda não sabemos nomear?

Raramente cogitamos habitar o vazio. Preenchê-lo de nós mesmos. Preferimos a busca constante, o movimento contínuo. Aprendemos a conquistar, mas não a sustentar.

Sustentar é mais difícil do que conquistar. A ilusão não suporta permanência. A mão que persegue o que foge mantém o corpo sempre fora de eixo.

Giramos, retornamos aos mesmos lugares, até que o cansaço impõe a pergunta:
para onde não preciso mais voltar?

A partir daí, algo se organiza: clareza sem dureza, sentimento sem perda de eixo, ação sem impulso cego. Termina o tempo de agradar e provar. Começa o tempo de nomear, escolher, sustentar e silenciar.

Aqui não o convidei para caminhar, mas para parar.

O corpo diz: não me empurre para o que não sou mais. Sê fiel, mesmo que doa.

quarta-feira, janeiro 14, 2026

O céu escuro de Deus, sua voz é trovão

Ouço o chamado sem sabê-lo
e me movo em sua direção, dando-lhe forma.
Faço conforme minha natureza.

Por vezes me perco nos ruídos,
mas mesmo no erro realizo a travessia.
O vento que açoita
também conduz.

Sempre amei as tempestades.
Raios, trovões,
o estalo no chão,
o clarão que anuncia o estrondo.
A força invisível
tornando-se visível.

Na juventude, sonhei
o nada,
o céu escuro,
os raios.

Uma voz:
Você quer conhecer Deus?

Respondi sem palavras.
E caí.

Caí entre raios,
pura eletricidade,
até despertar
no céu escuro de Deus.

O trovão rasga o silêncio primordial.
A tempestade libera o que estava acumulado.
Antes, o ar pesa.
Depois, o impacto.

Quem ama tempestades
suporta o campo elétrico.

O conhecimento verdadeiro
não é conforto,
é impacto.

Deus não me abriga.
Atravessa-me
como um raio.

Escrevo
para aterrar o raio.
Torná-lo
linguagem.

terça-feira, janeiro 13, 2026

Pontes

Quando me permito uma visão desromantizada da vida, vejo com mais nitidez a realidade dos fatos.

Sem a necessidade de criar tantas narrativas.

Divaguei, viajei e pousei em diversos conteúdos, lugares, histórias, elementos e pessoas. Foram pontos de apoio, abrigos temporários para o símbolo vivo que ainda não havia encontrado linguagem nem morada. Tocaram-me e me transformaram por ressonância, não necessariamente por destino. Fizeram parte do que sou, mas não me definem, não me pertencem, nem eu a eles.

Símbolos e sentidos não são missões. São caminhos, estados e estágios de uma travessia em território interno desconhecido. Não encerram uma identidade; abrem portas, comportas, clareiam o percurso. Cumprem função, não missão.

Quando não transformamos afinidade em pacto, nem ressonância em compromisso narrativo, a memória passa a servir à consciência, e não ao enredo. São pontes provisórias, até que a própria linguagem possa nascer, até que eu possa ser morada de mim e não visitante de mitos alheios.

Assim que passei a me habitar, não precisei de tantas narrativas para me explicar.
Nem de um destino para me guiar.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Pés descalços no Chão

O amor não precisa de palco.
Precisa de chão.

O amor idealizado brilha,
mas não é ouro.
É ouro de tolo.
Apresenta-se, representa,
mas não vive.
Fica suspenso.

Restrito às palavras,
às imagens,
às promessas.

As paixões pertencem ao teatro.
O amor mora na vida.

O encanto não atravessa a segunda-feira.
As juras não resistem ao silêncio.
O grandioso não sobrevive ao cotidiano.

Ideais seduzem e cobram sacrifício.
Fantasias pedem espera infinita
para um futuro que não chega.

O brilho sobe rápido
e desaparece
quando o chão aparece.

Promessas sem lastro.
Vazias de sentido.

Aprendo a amar
com os pés no chão,
com o tempo,
com a verdade possível.

Cultivo o amor que fica
quando o entusiasmo passa.
Que não grita.
Que não promete o mundo,
porque habita o real.

Volto para casa.
Ocupo meu lugar.

Não busco.
Me encontro.

Não quero intensidades vazias.
Abro espaço.
No vazio,
continuidade.

Não sou escolhida.
Sou a própria escolha.

Este é o meu não.
E nele,
há espaço
para um sim verdadeiro.

O amor que combina comigo,
que sempre gostei de andar descalça.

domingo, janeiro 11, 2026

A Morada do símbolo

Todos nós, em algum ponto da vida, somos tocados por paixões e fascínios que nos chamam em silêncio. Eles nos atraem para certos conteúdos que, quando acolhidos, passam a nos conduzir discretamente pela existência, como um fio invisível que leva, sempre, ao mesmo destino: o encontro consigo. Comigo não foi diferente. Ainda jovem, algo sussurrou aos meus ouvidos e esse sussurro tinha a forma viva do Antigo Egito.

O Antigo Egito tornou-se para mim um território hospitaleiro, capaz de acolher o simbolismo ainda velado do meu inconsciente, então impedido de se expressar por uma consciência dormente e oprimida pela conjuntura. Ali, esse conteúdo sem forma encontrou um vaso sagrado onde pôde repousar, sustentar-se e suportar, emanado de uma fonte interna que buscava, por si mesma, caminhos de permanência.

O universo simbólico da palavra não dita, da expressão pré-verbal, assentou-se na imagem que lhe era mais próxima por afinidade. Meu instrumento psíquico entrou em ressonância com uma era no tempo cuja vibração atravessa séculos e continua a reverberar.

Assim, meu inconsciente não me conduziu a um mero objeto de admiração, mas a um espelho estrutural de mim mesma, para além do tempo e do espaço.

sábado, janeiro 10, 2026

Afinidade em notas silenciosas

Grandes esperanças se dobram à memória
à infância inteira,
às quedas que ninguém vê,
ao silêncio dos intervalos.

O humano mora aqui,
onde nada grita ou se explica
mas tudo alcança.

Como a música, como a vida,
e como a afinidade:
uma linha fina
que leva
de volta à própria essência.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Silêncio do intervalo

Em paisagens turísticas, cujas imagens instagramáveis se congelam em massa, vejo pessoas dispersas a sorrir para as câmeras, na expectativa de serem notadas através de momentos eternizados em narrativas lidas pelo olhar alheio. Vejo-me entre elas, compartilhando do mesmo fogo de palha que nos move de um destino a outro, sempre em busca.

Ainda assim, sopra em mim um desejo aspirado do fundo à superfície, que me conduz ao momento mais esperado da caminhada em meio ao burburinho: o intervalo silencioso entre um grupo e outro. Ele me envolve como um abraço suave da paisagem aberta, que se oferece naturalmente. Admiro a brisa refrescante da fresta por onde algo verdadeiro respira entre nós.

Sorvo-a em pequenos goles pelos olhos, a mirar sua imensidão; ouço, ao longe, as vozes excitadas das pessoas que se vão e que chegam novamente em levas, através do tempo.

Aquece-me o coração tê-las por perto como plano de fundo de um panorama maior. Mesmo só, junto-me a elas de certa forma e, acompanhando-as com o olhar, permaneço nesse misto de pertencer e descaber.

quinta-feira, janeiro 08, 2026

Luzes acesas

Trago comigo
o que vibra em afinidade,
afinando os instrumentos.

O que me acompanha
não é o conflito,
mas o que ainda é vivo
e possível.

Abrigo
o que faz sentido preservar.

O restante fica.
Sem ataque.
Sem acerto de contas.

Atravesso o rio
e agora vejo a margem
a partir deste novo ângulo,
à distância.

Apenas observo,
sem precisar agir sobre.

Não é preciso interferir
para não ferir,
apenas seguir.

O mapa está iluminado,
posso enxergar
o arranjo musical
e ouvir
a orquestra tocar.

Cada personagem
tem seu instrumento,
cada som
tem sua função.

Acendo as luzes de casa,
deixo-as acesas
para que àqueles
que caminham lá fora
possam ver
e sentir o conforto
que um dia senti
ao vê-las de longe,
na escuridão
e no silêncio da noite.

O silêncio de fundo
acolhe a música
que segue a tocar.

Mantenho as luzes acesas,
iluminando
a orquestra
que se apresenta.

O propósito é o mesmo
para todos;
o que muda
para cada um
é a forma
de chegar a ele.

quarta-feira, janeiro 07, 2026

A caminho de casa

Lembro-me de cada casa que guardei no olhar
pelas caminhadas noturnas que fiz a sós, em silêncio.
Eu as contemplava à distância, como quem reconhece algo
sem saber o nome.

Eu não as via.
Eu as sentia.

De mim não emanava curiosidade pelo que as habitava.
Eu tinha certeza de que ali havia vida,
como um organismo que respira calmamente.

Não me sentia só quando as observava de longe,
nem desejava entrar para conhecer.
Eu as reconhecia.

Era um alívio silencioso saber que a vida
podia ser calma em algum lugar,
simplesmente existindo.

Caminhei na escuridão guiada por luzes
que não ofuscavam nem chamavam.
Elas apenas luziam, permaneciam.
Eu as chamava de paz e sossego,
sem ainda sabê-las.

Isso me mantinha naquele instante
da eternidade finita da vida.

Eu não queria alcançar, tocar ou ter.
Eu queria retornar para casa,
para minha casa,
aquela sem localização específica.

A casa que me aquietava
sempre esteve em construção aqui dentro,
com os materiais que eu tinha em mãos:
estrutura óssea, tinta sanguínea, argamassa cinzenta,
gerando forma, contendo espaços, margens, limites, cobertura.

O corpo sangrava quando não havia paredes.
A luz do mundo invadia o interior
vazio de janelas.

Escrevi erguendo contornos
para conteúdos ainda sem forma.

Eu caminhava à noite admirando as luzes
que escapavam das janelas no silêncio das ruas.
Eu estava a caminho de casa.

Agora me encontro a morar
onde sempre contemplei.
Onde o fogo não se apaga,
a mesa é posta sem pressa,
o silêncio não é vazio
e a vida não precisa se justificar.

A sensação de continuidade tranquila
e permanência que me tocava
numa casa vizinha, numa rua escura,
num país estrangeiro, numa janela iluminada,
era presença.

Há vida que não sangra para existir
e presença que não invade.

Em minha casa a luz está acesa,
não para chamar, nem para ser vista,
mas para existir.

Aqui sopra de leve uma brisa suave
que levanta a saia das cortinas
num movimento tranquilo,
como o vento que pincela as encostas
e desenha relevos.

Hoje, quando escrevo, acendo a luz de casa.
E quem sabe alguém, em outra noite, passe
e sinta a mesma paz que um dia senti.

Ou talvez seja eu mesma a passar,
reconhecendo o que sempre me buscou.

terça-feira, janeiro 06, 2026

Afinidade

O que em mim reconhece
o poeta anônimo,
o homem ajoelhado em silêncio,
o Cristo que cai,
a criança que ri,
o marujo que se despede,
os sonhos calados,
os corpos a sós que dançam,
a música interior,
o valor invisível,
a criação sem plateia,
a existência silente.

Afinidade.

segunda-feira, janeiro 05, 2026

A Criação de Deus

Quando criança, vi um homem idoso
ajoelhado na igreja.

Orava em silêncio,
sustentando-se apenas
pelo gesto de juntar as mãos.

Vertia fé
e sofrimento.

Quem sabe pedisse um milagre.

Ele emanava
entrega,
tristeza,
vulnerabilidade.

Aquilo me tocou.

Comecei a chorar
sem saber por quê.

Chorei o meu choro
e o choro dele.

Minha mãe não entendeu.

Eu também não soube explicar.

Apenas senti.

Levantei
e saí da igreja
para esconder a dor
que sentia
por ele.

Sempre fui tomada
pela condição humana.

Pelo estado de espírito
que não se delega.

Deus me alcança
pela criação.

Venho Dele
e dela sou parte.

Realizo-me
na existência,
na experiência
de ser
aquilo que sou.

Humana.

domingo, janeiro 04, 2026

O poder que emana do amor e não da dor

Não é o Cristo divino
que me atravessa.

É o homem
que cai
sob o olhar da mãe.

Ela acompanha.
Ama.
Mesmo na dor.

O homem que tropeça,
assistido pelo amor.

Vulnerável,
acolhido
pela dignidade
que permanece de pé.

O Cristo que me abraça
e me acolhe
não está crucificado.

Está humano,
livre do sacrifício.

Vive no gesto comum:
no carpinteiro,
no menino que ri,
na verdade dita em voz alta,
no choro,
na festa,
no olhar que reconhece
a injustiça.

Ele mora
no humano.

E o ama.

Jesus sofreu
porque viveu.
Amou.
Esteve entre nós.

O calvário
foi apenas o recorte
de um homem
que atravessou
uma existência inteira.

Desço sua dor do pedestal.
Guardo no coração o amor.

sábado, janeiro 03, 2026

Tríade Silenciosa

Certo dia assisti a uma declamação
e fui tocada por uma sensibilidade rara.
Há algo de quase mágico
quando a voz encontra o poema,
ou seria o poema encontrando a voz?

A distância entre quem escreve
e quem diz
desaparece.

A palavra, atravessada por compreensão e entrega,
ganha pausas, inflexões e silêncios.

A voz não explica.
Explicita.

Fundem-se os limites entre
quem declama
e quem escuta.

Forma-se uma tríade silenciosa:
aquele que escreveu,
aquele que diz,
aquele que ouve.

Três estrelas orbitando o mesmo eixo.

No rosto, cada significado é vivido.
O sabor de cada verso é sorvido,
não recitado.

A emoção salta entre estrofes
e nos conduz para dentro da mensagem.

Não assistimos.
Participamos.

Por um instante,
o poema pertence a nós todos.

Ele acontece.
E, ao acontecer,
nos toma.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

Fermentação

Eu, que bebi dos destilados fortes,
analgésicos do fundo de um fosso,
à sombra estreita,
escorri pela borda da taça,
copos e garrafas,
em vazamento contínuo
que me abria fendas
e me vestia de vendas.

Sempre mareada,
embotada,
isso era estar embarcada
em delírio coletivo,
encarnada em devaneios.

O febril disparate
conduziu-me às margens espumantes
do vinho da vida em fermentação,
energia que sobe, viva e criativa,
onde revelações borbulham
do fundo à superfície.





quinta-feira, janeiro 01, 2026

Aforismo Ósseo

Quando me expresso sem ressalvas,
em consonância com meu estado bruto em refino,
podem ver-me até o osso.

Quem vê até o osso
não vê forma nem ornamento.
Vê estrutura viva.

O osso sustenta,
delimita,
dá contorno.

Me permite ficar em pé.

O esqueleto representa
a estrutura essencial
que sustenta o corpo em eixo.

É duro,
mas não maciço.

É poroso,
atravessado por espaços,
canais,
medula.

É justamente essa porosidade
que o torna vivo.

Um osso totalmente rígido,
compacto,
morto,
quebra com facilidade.

Um osso vivo absorve o impacto.
O abalo passa por ele,
mas não o destrói.

Isso não significa
que seja infalível.

A porosidade é a alma do osso.
É corpo instintivo.
É verdade que circula.

É o que permite troca,
respiração,
regeneração.

É ali que o sangue se forma.
É ali que a vida nasce.

A forma externa
e a função vital
não estão separadas.

A forma também guarda,
organiza,
sustenta
o que está oculto.

Osso vivo.

Firme o bastante
para sustentar.

Poroso o suficiente
para não morrer.

A estrutura não endurece
nem fecha o contato.

Ela circula.

Assim o corpo confia.
O mundo não assusta.
E o abalo ensina
que a casa
pode ser habitada.

Quando me mostro até o osso,
não me exponho.

Me sustento.

quarta-feira, dezembro 31, 2025

Usuários

Bem-vindos ao mundo dos usuários.
Nele, vamos nos divertir e nos utilizar.
O foco está no uso, não na identidade.
Não nos interessa quem você é;
interessa-nos sua função de utilizar.

Sua existência mora na função.
Então, vamos fazer funcionar.

Usuários nervosos, ávidos de consumo e novidades.
A atenção pertence às superfícies brilhantes dos smartphones.
Nelas, vamos deslizar.

Sinto a angústia dos olhos correndo de cá para lá,
perdidos na tela desse mar azul
em hipnose coletiva.

Dedos inquietos a rolar
um novelo sem fim.

Vida em cena.
Projeções em telas
que nos enquadram em proporções matemáticas,
em cenas que se querem mostrar.

Tenho um perfil, logo existo.
Mas como fica o que não consigo editar?

Dessa terra de ninguém
ou dessa terra de ninguéns?

terça-feira, dezembro 30, 2025

Barqueiro

A vida trouxe à margem um barqueiro ambivalente, que oscila sobre a superfície do mistério das águas. Ele atravessa, em seu pequeno barco de madeira, um conteúdo oculto gestado no fundo de águas profundas.

Não saberia dizer quantas vezes sua embarcação naufragou, pela má distribuição de pesos que não eram seus sobre o assoalho já desgastado, cansado de acompanhar outros barcos tão perdidos quanto ele.

Por anos à deriva, preso a um vai e vem infinito de fantasias, delírios coletivos de remar sem direção, sua força esvaiu-se a serviço de passageiros desorientados.

Seus olhos tornaram-se opacos, cobertos por uma fina membrana leitosa que lhe velava a visão e distorcia as paisagens. O cenário permanecia sempre enevoado e, enjoado, ele cessou de remar e parou no cruzamento:

Olhos que se fecham para não ver
e olhos que se fecham para ampliar os sentidos.

À distância, o cheiro de lenha no fogo, o som cadenciado do trepidar, os estalos suaves da madeira que se expande no calor, enegrecida, incandescente, chamaram-lhe a atenção.
O fogo que ilumina não consome.

Dançam as chamas que se aderem à madeira, a mesma matéria que sustenta o assoalho de seu barco e as árvores que dão vida às margens fluviais. Dos olhos, uma nascente. Deles, o brilho amarelo do fogo: verdade que se revela.

A mente sopra ao coração:
Não posso mais te proteger daquilo que você já sabe.

Ao despertar deste sonho, seu corpo precisará se acostumar à materialidade das coisas.
Ele não abandona o barco, mas redistribui o peso, equilibrado a partir do centro.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Nuvens passageiras

Sento-me ao lado da tristeza, do medo e da mágoa e faço um minuto de silêncio pelo que jaz eterno na existência. Tudo isso são apenas nuvens que passam no meu céu; eu as vejo, há muito as interpretei e agora só as deixo passar pelo meu campo de visão. Caso um dia precise chorar, deixo-as chorar.

Estou aqui, mas isso não me define.

domingo, dezembro 28, 2025

Chão da Vida

Quando criança, eu gostava de me deitar no chão para olhar para o céu e ver as nuvens passarem. No começo, elas simplesmente passavam e nada se passava em minha cabeça. Eu e as nuvens éramos como éramos. Nada havia entre nós: nenhuma questão, reflexão, busca ou significado.

Tudo se resumia ao meu corpo e aos sentidos que o localizavam no tempo e no espaço do meu mundo. Ele era meus olhos, minhas mãos, meu nariz, meus ouvidos e minha língua, envolvidos em pura presença.

Certo dia, eu e meu primo decidimos dar nome às formas que víamos refletidas nas nuvens. Apontávamos cavalos, elefantes, macacos, martelos, rostos, carros, dando sentido e resposta ao que não pedia resposta. Mais tarde, passamos a nos questionar sobre as nuvens no céu: como se formavam, como se precipitavam em chuva, o porquê de suas cores variadas.

Nossas mentes voaram longe com as nuvens que almejávamos decifrar. Os pensamentos eram pipas dançando no vento, pedindo linha e mais linha, subindo cada vez mais alto.

Alcei voos tão altos que quase não conseguia mais descer das alturas de onde falam os símbolos e as buscas. Meu corpo permanecia deitado no chão, enquanto minha mente subia ao céu em direção ao espaço sideral.

Estrelas, astros e corpos celestes me convocaram acima do solo onde jaziam meus semelhantes, tripulantes desta nave Terra. Minha nave orbitou espaços distantes, mundos estrangeiros, mistérios insondáveis, enquanto meu corpo permanecia em terra, esperando o pouso.

Esperei até que se esgotassem os limites do explorável. Deixei minha mente voar até encontrar os sentidos que a fizessem retornar para casa. Quando voltei, senti-me deslocada, como alguém que, após longa ausência, experimenta o desnorteio do pouso: os pés inseguros, como se tivessem esquecido a sensação do corpo no chão.

Assim se desenhou a trajetória de uma nave, de um navio que navegou o coletivo de todas as coisas alienígenas e nativas que nos situam na humanidade e para além dela. Voltar ao estado de origem revelou-se também uma jornada distante para dentro de mim.

A mente escapou, mas agora quer voltar. E o corpo, tudo o que ele pede é presença. Depois de ver o céu, a vida pede chão.

O mundo está para mim assim como eu estou para o mundo.