Vivemos em um mundo assombrado pela idealização, pelo sonho de acolhimento, reconhecimento e pertencimento. Esquecemos a presença real. Esquecemos o brilho simples das coisas comuns.
O coração sente, mas não digere. Regurgita o sentir em reflexos automáticos de autodefesa.
O sentimento passou a ser tratado como invasão. O que é humano virou ameaça, motivo de medo, distância e fuga.
A autenticidade rareou. Em seu lugar, instalou-se a performance. As relações empobreceram, os vínculos tornaram-se frágeis, e a vida virou palco.
Sentir foi reduzido a um frasco bonito que exala perfume. Encanta, seduz, vende. Mas em nada disso há vida.
Figuras vendáveis.
Vitrines cheias.
Conteúdos vazios.
O encanto que promete libertação aprisiona. Não se toca o próprio desejo por medo de senti-lo.
O que impera é o medo.
O medo de não ser o bastante.
Experimenta-se no ideal aquilo que não se sustenta no real. Confetes lançados.
Plantam sementes em estufas e abandonam a colheita. Permanecem inférteis, como experimentos in vitro.
Talvez consigam amar seus iguais. Mas eu, que já carreguei pesos arbitrários, falsas imagens e visões deturpadas, como alma encarnada em um corpo, assumo-me humana.
Transito entre erros e acertos. Eles não me definem. Não sou isso nem aquilo. Estou aqui.
Não sou prova nem missão. Sou vida em experiência. Meus vínculos não são meios nem fins. São presença partilhada.
Com a essência não se negocia.
Com a essência se posiciona.
Não busco ascensão. Busco aterrisagem.
Não prometo transcendência. Ofereço presença.
Não sou arquétipo. Sou corpo vivo.
Não reivindico elevação. Reivindico o direito à vida comum.
Passo por narrativas alheias sem morar nelas. Vivo o que é justo agora.
Aprendo mais a remover do que a acrescentar.
Não quero príncipes, guias, heróis, carrascos, semideuses ou fantasmas idealizados.
Quero humanos inteiros.
Com os pés no chão.
Reais.
O espírito que rejeita o corpo vira abstração.
O corpo que aceita o espírito se torna vida.