sábado, setembro 25, 2010

Eu ouço

Eu ouço as pessoas falarem comigo
Me aconselhando, me guiando, me alertando, me confortando
Me sinto por vezes perdida em meio a tantas palavras
Deus me perdoe ser ingrata em relação àqueles que ofertam ajuda
Não é isso o que acontece
Agradeço a cada segundo, pela sorte que tenho
Pela maravilha de trilhar um caminho rodeado pelas pessoas que me cercam
Poderiam acreditar em qualquer coisa, existem milhares de escolhas
E em meio a tantas escolhas, optaram por acreditar nesse eu a que me propus representar
E eu a medida que ouvia, acenava positivamente com a cabeça sem nada dizer
Todos me pareciam estar certos, mas aos poucos fui começando a perceber um pequeno buraco dentro de mim
A sensação de que alguma coisa faltava ali, faltava uma voz
Uma voz que quase não ouvia
É como uma fratura
As vezes temo que me perguntem minha opinião
O que você acha disso? O que você quer? O que você tem em mente? Quais são seus objetivos? Onde pretende chegar?
E eu então não saber responder
Ha que se ter uma resposta
Eu percebi que não tenho voz
Não me sinto presente
Estou na água, boiando, boiando...
As águas foram passando, foram me levando e eu fui deixando, deixando...
Todos parecem nadar em alguma direção
As vezes nado para um lado, as vezes para outro
Em alguns vejo algo maravilhoso, vejo uma luz intensa, vejo obstinação
Vejo um objetivo certeiro, um dom quase inato, uma saciedade
Paro para olhar, admirar e então eles se vão no horizonte a nadar
Eu só consigo escrever
Meras palavras
Não consigo falar
Minha voz não tem som
Eu queria saber falar
Por Deus! Não consigo externar
Não consigo ser, nem refletir
Eu só me afogo em meio a esse mar de coisas e mais coisas
Uma alma que se assusta diante de si mesma
Que não consegue se agarrar a nada, são apenas naufrágios
Vou absorvendo um pouco de cada um, um pouquinho daqui, um pouquinho dali
Vou engolindo a água que me dão para beber, para preencher o buraco plantado aqui dentro
Todos têm algo a dizer, a afirmar, então paro para ouvir e muito me admira não poder nada dizer
Estava eu certo dia a caminhar em meio às luzes dos postes, dos faróis dos carros, das vozes das pessoas na rua, dos passos dos apressados, dos atrasados, então olhei para o céu em busca de algo acima de nossas cabeças ocupadas, atarefadas
E vi que a lua estava cheia, brilhava um amarelo alaranjado e então meu coração acalmou e dentro dele surgiu um chamado, uma voz que a muito não se manifestava, soterrada em meio a tantas estruturas
Essa voz era a minha própria, por Deus! Ela dizia para seguir no horizonte rumo a lua que brilhava, eternamente rumo a luz tão distante no céu, incessantemente rumo a ela
Ela seguia dizendo: Não há cansaço que impeça você de um dia chegar, de um dia alcançar, de um dia encontrar essa luz que lhe parece tão distante, tão impossível...
A luz mais distante do céu me alcançou, e então quem sabe um dia possa você alcançá-la e ao seu lado caminhar na eternidade livre de tempo, livre de espaço, livre de mim
Possa caminhar no infinito desta luz, rumo ao desconhecido, rumo ao impossível, sem nada esperar, nem saber, nem conhecer, sem nada dizer, apenas se abrir, receber, se entregar, se expandir, apenas ser nada que se possa definir, apenas existir silenciosamente nesta imensidão.

domingo, setembro 19, 2010

Os donos da verdade

Não sei que dia foi aquele
Aquele em que decidiram o que era certo e o que era errado.
Foi assim que começou
Cada um carrega dentro de si uma infinidade de valores que somados constituem uma “bagagem” pesada
Alguns se dispõem a arrastá-la consigo pela estrada da vida, acrescendo a ela cada vez mais verdades, teorias, assertivas universais
Aos poucos a alma se curva
Se curva diante das regras, das grades, das crenças, das imposições
Deixa de ser, torna-se dever
A verdade é ouro, mais absoluta certeza
Uma verdade se multiplica por dez e assim por diante, na medida em que vamos nos munindo dela para viver e conviver
As verdades se expandem para além das barreiras as quais nos impusemos e aos poucos começam por contornar as pessoas com as quais convivemos se espalham e invadem as vidas daqueles que ao nosso lado caminham e então se intensificam, se solidificam e falam por você, determinam para o outro como as coisas devem ser, se exteriorizam de modo que o mundo lá fora passa a ter de refletir o que você é ou tudo o que acredita ser.
A mente fica a tagarelar, a determinar, a reger o que não lhe cabe reger. As liberdades se estreitam cada vez mais, os horizontes diminuem e aos poucos beira o insuportável. Eis que nos surgem os desagradáveis donos da verdade.
Aqueles que se julgam aptos a definir o que é certo fazer e a partir disto, determinar para outrem as verdades que para si são supremas
Aqueles que insistem em nos dizer o que devemos fazer em meio a uma inutilidade de idéias pré-formuladas, baseadas em infalíveis verdades
Aqueles que pretendem impor o que são para aqueles que já sabem o que são
Seres fixos, estáticos que se aprisionam em suas próprias verdades e procuram aprisionar todos ao redor, formando uma longa cadeia de prisioneiros iguais, meros reflexos, sombras, apagados num caminho certeiro, verdadeiro, inevitável de repetições obsessivas.
Caminho viciado, circular, amarrado, dos arautos das verdades a seguir, das correções, da palavra ordeira, do conselho certeiro, do que deve ser.
A alma que se eleva ao pedestal infinito das verdades compreende o mais luminoso conhecimento das coisas. Torna-se o juiz que sentencia todos aqueles que se encontram desprotegidos das grades do saber que lhe pertence.
Seu mundo é o verbo da sentença, uma estrada bifurcada entre erros e acertos, uma verdade imposta, suposta realidade, tola ilusão.
Hão de conhecer a liberdade de escolha, a imprevisibilidade das coisas, as diferentes nuances das almas, a diversidade, a transitoriedade das coisas, as metamorfoses que se dão a cada segundo de nossas vidas. Tudo difere. A beleza não é perfeição é o aprendizado, que modifica as coisas, é algo que não molda, mas que pulsa e vive em uma eterna transformação.