Certo dia assisti a uma declamação
e fui tocada por uma sensibilidade rara.
Há algo de quase mágico
quando a voz encontra o poema,
ou seria o poema encontrando a voz?
A distância entre quem escreve
e quem diz
desaparece.
A palavra, atravessada por compreensão e entrega,
ganha pausas, inflexões e silêncios.
A voz não explica.
Explicita.
Fundem-se os limites entre
quem declama
e quem escuta.
Forma-se uma tríade silenciosa:
aquele que escreveu,
aquele que diz,
aquele que ouve.
Três estrelas orbitando o mesmo eixo.
No rosto, cada significado é vivido.
O sabor de cada verso é sorvido,
não recitado.
A emoção salta entre estrofes
e nos conduz para dentro da mensagem.
Não assistimos.
Participamos.
Por um instante,
o poema pertence a nós todos.
Ele acontece.
E, ao acontecer,
nos toma.