terça-feira, dezembro 30, 2025

Barqueiro

A vida trouxe à margem um barqueiro ambivalente, que oscila sobre a superfície do mistério das águas. Ele atravessa, em seu pequeno barco de madeira, um conteúdo oculto gestado no fundo de águas profundas.

Não saberia dizer quantas vezes sua embarcação naufragou, pela má distribuição de pesos que não eram seus sobre o assoalho já desgastado, cansado de acompanhar outros barcos tão perdidos quanto ele.

Por anos à deriva, preso a um vai e vem infinito de fantasias, delírios coletivos de remar sem direção, sua força esvaiu-se a serviço de passageiros desorientados.

Seus olhos tornaram-se opacos, cobertos por uma fina membrana leitosa que lhe velava a visão e distorcia as paisagens. O cenário permanecia sempre enevoado e, enjoado, ele cessou de remar e parou no cruzamento:

Olhos que se fecham para não ver
e olhos que se fecham para ampliar os sentidos.

À distância, o cheiro de lenha no fogo, o som cadenciado do trepidar, os estalos suaves da madeira que se expande no calor, enegrecida, incandescente, chamaram-lhe a atenção.
O fogo que ilumina não consome.

Dançam as chamas que se aderem à madeira, a mesma matéria que sustenta o assoalho de seu barco e as árvores que dão vida às margens fluviais. Dos olhos, uma nascente. Deles, o brilho amarelo do fogo: verdade que se revela.

A mente sopra ao coração:
Não posso mais te proteger daquilo que você já sabe.

Ao despertar deste sonho, seu corpo precisará se acostumar à materialidade das coisas.
Ele não abandona o barco, mas redistribui o peso, equilibrado a partir do centro.