quinta-feira, janeiro 01, 2026

Aforismo Ósseo

Quando me expresso sem ressalvas,
em consonância com meu estado bruto em refino,
podem ver-me até o osso.

Quem vê até o osso
não vê forma nem ornamento.
Vê estrutura viva.

O osso sustenta,
delimita,
dá contorno.

Me permite ficar em pé.

O esqueleto representa
a estrutura essencial
que sustenta o corpo em eixo.

É duro,
mas não maciço.

É poroso,
atravessado por espaços,
canais,
medula.

É justamente essa porosidade
que o torna vivo.

Um osso totalmente rígido,
compacto,
morto,
quebra com facilidade.

Um osso vivo absorve o impacto.
O abalo passa por ele,
mas não o destrói.

Isso não significa
que seja infalível.

A porosidade é a alma do osso.
É corpo instintivo.
É verdade que circula.

É o que permite troca,
respiração,
regeneração.

É ali que o sangue se forma.
É ali que a vida nasce.

A forma externa
e a função vital
não estão separadas.

A forma também guarda,
organiza,
sustenta
o que está oculto.

Osso vivo.

Firme o bastante
para sustentar.

Poroso o suficiente
para não morrer.

A estrutura não endurece
nem fecha o contato.

Ela circula.

Assim o corpo confia.
O mundo não assusta.
E o abalo ensina
que a casa
pode ser habitada.

Quando me mostro até o osso,
não me exponho.

Me sustento.