Quando me expresso sem ressalvas,
em consonância com meu estado bruto em refino,
podem ver-me até o osso.
Quem vê até o osso
não vê forma nem ornamento.
Vê estrutura viva.
O osso sustenta,
delimita,
dá contorno.
Me permite ficar em pé.
O esqueleto representa
a estrutura essencial
que sustenta o corpo em eixo.
É duro,
mas não maciço.
É poroso,
atravessado por espaços,
canais,
medula.
É justamente essa porosidade
que o torna vivo.
Um osso totalmente rígido,
compacto,
morto,
quebra com facilidade.
Um osso vivo absorve o impacto.
O abalo passa por ele,
mas não o destrói.
Isso não significa
que seja infalível.
A porosidade é a alma do osso.
É corpo instintivo.
É verdade que circula.
É o que permite troca,
respiração,
regeneração.
É ali que o sangue se forma.
É ali que a vida nasce.
A forma externa
e a função vital
não estão separadas.
A forma também guarda,
organiza,
sustenta
o que está oculto.
Osso vivo.
Firme o bastante
para sustentar.
Poroso o suficiente
para não morrer.
A estrutura não endurece
nem fecha o contato.
Ela circula.
Assim o corpo confia.
O mundo não assusta.
E o abalo ensina
que a casa
pode ser habitada.
Quando me mostro até o osso,
não me exponho.
Me sustento.