segunda-feira, junho 30, 2025

Juízes do Apocalipse: o tribunal invisível do cotidiano

Imersos em um mundo guiado pela lógica cartesiana e pelo peso morto de martelos que julgam processos em escala, nos colocamos no topo de supostas verdades absolutas. Ali, envoltos pelo manto opaco da razão, somos inundados por discursos de ódio, frustração e desprezo. Tudo se resume ao preto ou branco, ao oito ou oitenta. Não há espaço para nuances, para os tons que a vida concreta apresenta, tão distante das teorias de certo e errado.

Essa visão limitada, incapaz de ultrapassar o próprio reino de ideias rígidas, nos transforma em juízes do apocalipse. O dedo em riste aponta para fora, enquanto o espelho permanece encoberto, refletindo apenas projeções sombrias de nós mesmos. Esse movimento automático de escanear o outro em busca de falhas revela menos sobre o mundo e mais sobre quem acusa.

Por trás desse julgamento, esconde-se uma frustração profunda. Um desencantamento com a vida e consigo mesmo. Atiramo-nos, sem perceber, contra o paredão duro da ignorância, do medo, do egoísmo. Reagimos com raiva e desprezo diante do outro, e, por extensão, diante de nós mesmos.

Caras cobertas por carapuças venenosas, olhos obscurecidos por lentes espessas de crenças tóxicas. Seguem assim, apáticas, repetindo discursos amargos para tentar expelir a sujeira interna que nunca conseguiram limpar. Transbordam suas toxinas num gesto desesperado por algum tipo de purificação mental e emocional.

É preciso coragem para olhar de frente para as próprias falhas. Não para se vitimizar ou punir, mas para crescer. Crescer dói. Como uma semente que rompe sua casca para germinar. Requer maturidade entender que a vida não cabe em fórmulas. Há motivos invisíveis, nuances, mistérios que movem os gestos humanos, e isso exige menos pressa para julgar, mais humildade para escutar.

A existência é complexa. Ínfima. Exige abertura. Para aprender. Para acolher. Para respirar. E talvez, mais do que tudo, para viver com menos certezas e mais presença diante da vida que compartilhamos.

Talvez a salvação esteja na leveza de não saber e, ainda assim, acolher.

domingo, junho 29, 2025

Arquitetura da ilusão

A imaginação é um castelo de cartas
por entre as pirâmides de sua estrutura
equilibram-se as ilusões

Cartas dispostas em formato de A
pontas voltadas para o céu
simetria arquitetada por projeções assimétricas da mente
prontas para atirar

A estabilidade depende sempre
da disposição
e da inclinação

Mira incerta, tendenciosa
à mercê do que escapa
como o vento a derrubar
os cálices da ilusão

O entendimento me chega como um raio
que irrompe no céu noturno
extraindo a verdade num estalo
estampido que faz o coração
palpitar em sobressalto

O clarão cega e confunde
temporariamente
os olhos ajustados às sombras
retraindo as pupilas
como se pudessem escapar
do desconforto da luz

Por um segundo
mergulho no branco alvo do brilho repentino
e vejo, em assombro
meu verdadeiro tamanho

Permaneci tempo demais
nas demoradas formalidades
as que precedem o casamento das partes
que me constituem num todo de mim

Assim tomo consciência do transitório
à luz da eternidade do fim

sexta-feira, junho 27, 2025

Vestidos de amor

Ainda há quem se disponha a despir-se das máscaras,
entregar-se por inteiro,
acolher o amor nos braços.

Deixar à mostra apenas a pele e a alma.
Tocar a carne.
Render-se ao coração.

Desfazer-se dos artifícios,
saciar-se em pura emoção.

Sem encenar o gesto,
mas apenas em cumplicidade,
em que nada se queira ser além do que se é:

nus do desejo de possuir ou provar,
vestidos apenas do ímpeto de ser —
essa coisa a que chamamos amor.

quarta-feira, junho 25, 2025

O artifício que nos revela: A inteligência artificial como espelho da condição humana

Dizem que o mundo se tornou artificial com a chegada das inteligências artificiais. Que ninguém mais fala por si, apenas por meio das máquinas, das quais nos tornamos dependentes. Mas será mesmo que foram as IAs que nos tornaram artificiais ou será que já éramos assim, e a tecnologia apenas refletiu o que havia em nós?

Talvez a artificialidade não tenha nascido das máquinas, mas da nossa própria desconexão com aquilo que é essencialmente humano. Já éramos dependentes de estímulos externos, performáticos, programáveis, superficiais. Agíamos no automático muito antes dos algoritmos. As máquinas apenas espelham esse vazio. Talvez seja hora de rever nossa conduta no mundo.

Desde que as inteligências artificiais passaram a ocupar o espaço da criação e da produção simbólica, comecei a refletir se a condição humana poderia ser replicada em modelos prontos, moldados à imagem da demanda de cada indivíduo. Pessoas que se conectam por dores semelhantes unem-se em torno de narrativas criadas para oferecer conforto e reconhecimento. Já os que buscam admiração por conquistas pessoais formam tribos que celebram vitórias e aplausos.

Assim, em escala industrial, passamos a produzir modelos humanos "ideais", simulacros da humanidade prontos para o consumo. A condição humana tornou-se produto, vitrificado e vendável, utilizado para suprimir artificialmente carências reais. E não é isso mesmo que temos feito?

No entanto, mesmo em meio à robotização do ser, não temo que roubem minha identidade. Reconheço em mim traços que nenhuma máquina é capaz de replicar: a consciência do sentir, a contradição, o desejo, o silêncio que fala.

É esse reconhecimento que me impede de ver as IAs como inimigas. Em vez de combatê-las, acredito que podemos direcioná-las, assim como precisamos aprender a direcionar a nós mesmos. A tecnologia, como qualquer força criadora, exige consciência para não se tornar destrutiva.

Guiar a inteligência artificial é, portanto, um exercício de humanidade. E talvez também uma oportunidade de reencontro com nossa essência perdida. Porque, às vezes, é justamente diante daquilo que soa mais artificial que se reacende, em nós, a vontade de ser real.

Talvez, no fim das contas, precisemos das máquinas para lembrar o que é ser humano.

Cultivo de si

Não sou apenas minha cabeça. Sou meu corpo inteiro.
Não sou só coração. Sou razão e alma inteira.
Sou algo como uma erva daninha que insiste em crescer entre as pedras.
Inspiro-me na humanidade. Sinto-me dentro e fora dela. Vivo como o vento, que empurra e puxa.

Todas as minhas falas partem de dentro, pois meus olhos só enxergam o lugar de onde falo. O que não veem, para eles, não existe.
Se expresso uma dor, é porque a sinto na carne. Crio a partir da minha própria experiência, e a mais profunda delas é a experiência de mim mesma.

Vivemos todos em busca de nos relacionarmos com o outro: no amor, na amizade, na família, na sociedade.
Mas e conosco?
Quem se relaciona consigo?
Quem busca se conhecer, se questionar, entender o que corre no âmago de si?

Quem se dá ao trabalho de lapidar-se, espelhar-se, cultivar suas sementes, nutrir-se de suas próprias águas, colher o fruto maduro de si?

De mim emana a realidade que me cerca. Que outro caminho poderia eu trilhar senão aquele que conduz de volta a mim?

Não há como escapar de mim. A cada fuga, afasto-me ainda mais da minha essência, quando a nego, quando me escondo no vazio da não existência, disfarçada em um ser que não sou.

As mil vozes que lá fora falam são apenas aquelas que me permito ouvir.

terça-feira, junho 24, 2025

Caíram-me os óculos rosa

Certa vez, eu caminhava pelos arredores de um vale rico, ensolarado e verdejante. Todos sorriam e viviam em pura harmonia. Por um instante, estanquei a caminhada despretensiosa que me levava a lugar nenhum — mas que se encaixava no roteiro da vida. Uma rajada de vento leste me atingiu por inteiro. Acendeu os pensamentos. Eriçou os pelos. Um arrepio frio subiu pela espinha. Dos olhos, caíram os óculos de lentes cor-de-rosa.

Naquele instante, a paisagem interna se alterou — e, com isso, a externa também. O que antes brilhava, perdeu o viço. Os olhos tornaram-se cegos para imagens que já não sustentavam sentido: como quadros que o tempo desbota. Tudo desapareceu do meu campo de visão.

A realidade passou a se moldar a partir de quem eu era — ou do que havia me tornado. Seria isso um presente? Ou seria o próprio presente? Figurada em novo papel, comecei a perceber figuras, sons e paisagens que antes me escapavam. Estavam ali, sempre estiveram, mas minha ignorância não me permitia vê-los.

A frequência mudou. Algo invisível me puxava. Não havia retorno possível à página virada, agora percebida como uma leitura mal feita, descompassada com meu tempo interior. Aperceber-se disso é como tropeçar, de repente, numa raiz invisível no meio do caminho — um choque contra a dureza que desperta.

Foi assim que, por acaso, deparei-me com uma paisagem árida e silenciosa. Um deserto. Impunha-se ali o ímpeto de seguir adiante, apesar da secura, apesar do vazio. A ausência de estímulos excessivos, no início, pareceu perigosa. Depois, tediosa. Por fim, assombrosa. Mas foi nesse cenário despido que a verdade começou a se insinuar, tênue, como uma estrela tímida surgindo no céu de um mundo novo.

Caíram-me os antigos óculos, calçaram-me novos sapatos.

Travessia

O questionamento tornou-se meu estado de espírito quando optei por ver e rever os conteúdos das minhas crenças e ideias, padrões e comportamentos. Coloquei-me na posição de observadora de mim mesma, com os olhos voltados para dentro, buscando, em meu próprio espaço e arquivo, os meus sentidos.

Revisitei inúmeras vezes o mesmo cenário. Olhei por todos os ângulos possíveis, até mover algo que se encontrava imóvel dentro de mim — revelando a transformação que expande o horizonte, dentro daquilo que antes me parecia um labirinto, um fim em si.

Passei pelos mesmos caminhos de sempre, acomodada ao olhar habitual. E foi desses caminhos que extraí a novidade do meu próprio olhar. Nada mais me pareceu familiar. Tudo oscilava entre o estranho e o conhecido. Foi então que me vi atravessando para o outro lado da margem.

Não me parece existir um “finalmente chegar”, “definitivamente alcançar”, “eternamente ser” — mas, sim, um fluir. Como as águas de um rio, seguimos num rumar natural pelos lugares por onde passamos, somos tocados e tocamos.

segunda-feira, junho 23, 2025

Ar da graça

À medida que o tempo passa
e experiencio nele a vida,
draga-me a força do coletivo,
que me imputa a ânsia pelo outro,
o desejo de pertencimento.
Me deixo conduzir pelo tecido social,
misturo-me às águas alheias, estrangeiras,
torno-me ela, e ela se torna em mim.
Somos um só, vozes em uníssono,
moldados e desencaixados,
calados e expressos no vazio.
Me perco em meio ao todo.
A mesma força que me empurra para fora
me puxa, agora, de volta para dentro:
de volta para casa, de volta para mim.
Como o movimento de inspiração e expiração da respiração,
do ar da vida, ar da graça, ar da dança...

Ode à Van Gogh

O Invisível que Transcende
Em vida, foi um fantasma,
ninguém o via.
Na morte, tornou-se gênio,
todos o viram,
o reconheceram.

Sua dor
desenhou-se em cores vibrantes.

E agora,
Van Gogh brilha
na noite escura
de sua própria alma,
pintada nas telas,
em uma beleza
que não se consome,
mas se contempla.

domingo, junho 22, 2025

Sopro invisível

O ar que respiro
não se vê,
não se toca.

Ele passa e sequer o notamos,
sem alarde —
presença que sustenta
tudo o que vive.

Instantes sem ele
e o corpo se curva,
em agonia de morte,
privado do sopro.

É cômico
e trágico
que o essencial
seja invisível aos olhos.

Mas ele não reclama.
Não exige gratidão,
nem plateia.

Paira.
Flui.
Entrega-se inteiro
a cada peito que o acolhe.

Está em tudo,
e em todo lugar.
Não conhece muros.
Não pertence a ninguém.

Sopro antigo,
sopro primeiro.
Por ele viaja o som
da melodia que nos compõe.

Sopro divino,
espírito do mundo.

sábado, junho 21, 2025

Fogo da inspiração

Meus pensamentos e sonhos foram tomados e povoados por figuras ilustres que transcenderam seu próprio tempo e pátria. Com elas, dancei a melodia do entendimento; chorei o pranto do desconhecido. Com eles, estendi a mão à procura do numinoso.

A todas as almas humanas que atravessaram a ponte para o meu universo psíquico, onírico — espaço regido pelo inconsciente, que me mergulha e mistura às águas de um coletivo maior— acendo uma chama à luz da consciência, que se alastra pelos campos do que sou.

Fogo criativo, cujas estacas — linhas fortes da madeira de minhas raízes — alimentam e mantêm a trepidar, bravo e brando. Chamas a valsar no compasso do meu caminhar. Por vezes, queima e me consome. Por vezes, aquece e me acolhe. Paixão que toca o terreno sagrado da alma.

Nos olhos que miram, enfeitiçados, se acendem estrelas nas quais orbitam as sombras de si — e tudo o mais que nos torna inteiros. Comunhão entre corpo e espírito nos faz aspirar o céu, o éter, o eterno.

Não procure as estrelas no céu se você não consegue honrar o solo em que pisa.

sexta-feira, junho 20, 2025

Refrigério d’alma

Para muitos, a escrita é refúgio, refrigério d’alma.
Não se escreve para o mundo,
escreve-se para escutar o que em si silencia.
Cada palavra é um sussurro
que escapa da multidão de vozes externas
e encontra abrigo no papel.

Essa escrita não grita —
ela recolhe e acolhe.
Deita-se
como corpo cansado
no leito da linguagem.

É território sagrado da alma que se expressa
sem máscaras,
sem metas.

Ali, somos livres para ser:
espírito suspenso,
pairando no espaço
entre memórias, orações, amores, sabores,
e feridas que ainda não cicatrizaram.

Escreve-se para sarar
e para lembrar:
a pausa também é verbo,
a pausa também é verso.

Descanso.
Cura de feridas emocionais e existenciais.
Escuta.
Repouso psíquico.

quinta-feira, junho 19, 2025

Fênix do mar

Afasto-me cada vez mais de mim em todas as travessias que me recuso a fazer e por trás de todas as máscaras em que insisto em me esconder.

À margem, permanece um eu fincado feito estaca, a medir o nível do mar, observando as marés, dando um adeus em tom de lamento e apatia ao herói ferido que parte mar adentro, em um navio vermelho e vibrante, que choca os olhos insossos.

Ele se vai, rasgando águas pesadas em dispersão; delas, deixa um rastro de espuma branca e pura, que se dissolve lentamente em meio ao azul-marinho do silêncio.

De longe, sopra o sinal sonoro do navio, sumindo no horizonte, deixando à deriva as pequenas embarcações de si — órfãs, quebradas, sem rumo, sem remo.

A mão, num adeus, permanece em riste, até perder de vista o titã do oceano que se vai, deixando os olhos marejados e salgados do pranto.

Aos poucos, esmorece a força do braço erguido, pendendo lentamente até pousar paralelo ao corpo cansado e imóvel. A cabeça lhe pesa sobre os ombros e inclina-se em direção ao chão — duro, seco e frio.

Nos ouvidos, sopra o vento marítimo do passar do tempo das coisas.

Cresce no peito um suspiro profundo, que se esvai vagarosamente pelas vias nasais, num ar quente e pesado, até tocar o frio do mundo — acolhido em observação calada.

Em meio ao meu zarpar e ficar, o que nasce da morte sou eu mesma.

quarta-feira, junho 18, 2025

Peça solta

Quando minha presença me parece inadequada e as vestes da alma não caem bem no corpo que habito, visto-me com a capa da invisibilidade, ocultando-me para me proteger, num gesto antigo de sobrevivência.
Isso me pesa. Gera uma sensação perene de não pertencimento.
Todo ser está fadado ao desejo de pertencer, a um grupo, um lar, uma espécie, como se disso dependesse sua identidade.
Eu me pergunto, em silêncio: será que posso passar? Tenho permissão?
Peço permissão para cruzar os limites, mas os limites de quem?
Vejo que o pedido era interno, era meu. Nesse pedido moravam motivos que me escapavam à consciência.
Agarrada ao desejo inconsciente de fazer parte de um todo, fiz-me em pedaços, fragmentos.
Quero sair da caixa dos quebra-cabeças, essas peças soltas à procura de encaixe, cansadas de se moldar ao espaço que lhes cabe.
Desejo me desvincular do eterno não encaixe, respirar fundo e ocupar o meu próprio espaço.
Ter em mim meu pertencimento. Carregar em mim a minha própria casa e vagar mundo afora, com raízes nas palavras que me expressam.
Mas como me desconectar para, enfim, me conectar?
Um dos maiores medos do ser humano não é somente a morte, mas a rejeição, pois ela lhe parece uma ferida que mata em vida.
Tamanha é sua força que leva as pessoas a cruzarem seus próprios limites inúmeras vezes em busca da aprovação alheia.
Esse movimento mata lentamente, como um veneno de efeito prolongado, corroendo o ser até o completo desaparecimento de sua essência, tornando-o uma massa disforme e moldável pela coletividade.
Nessa dor, encontra um pertencimento, um falso abrigo no vazio de todos.
O medo visceral do olhar alheio, do julgamento e do pensar do outro carrega em si o desejo de controlar a imagem que o indivíduo criou de si mesmo para o mundo, controlar a forma como é visto, a fim de ser aceito e aplaudido.

terça-feira, junho 17, 2025

O olhar que atravessa

Todos os papéis que projetamos sobre os outros provêm de personagens que existem em nós mesmos. Trazemos em nós todos os vilões que desmascaramos, todas as vítimas das quais nos diferenciamos, todos os omissos que julgamos, todos os heróis que admiramos e todos os mistérios que não desvendamos.

O palco da vida se constrói sobre nossa própria estrutura elevada, projetada para as apresentações dos personagens que criamos a partir da ideia que fazemos dos outros. Roteirista e audiência são um só ser, guiado pela luz da consciência que projeta sombras em seu entorno, materializadas no outro.

O observador é também o observado. O olho que tudo vê é o mesmo olho que vê a si mesmo. Todo conteúdo expresso em nossas falas é autoexpressão de nossas personas ocultas, reflexo do olhar romantizado que temos de nossa autoimagem, na qual vislumbramos uma perfeição idealizada.

Atuamos como personagens controlados, cumprindo papéis e roteiros impostos por uma mão oculta, superior à nossa própria vontade. Peças que somos neste jogo da vida, somos também os senhores de nossos passos dentro do tabuleiro forjado.

Que força misteriosa é essa que projeta sobre nós um sinal, transmitido e recebido, conectando-nos a esta imensa rede de dados coletivos da humanidade, que nos molda?

Resta-nos o árduo caminho da pergunta, da interrogação e da recusa à mera mansidão. Somos frutos de nossas próprias emanações mentais, espelhos, antenas transmissoras e receptoras de sinais que ressoam na frequência em que vibramos.

A manifestação não se dá pelo que é justo, mas pelo que é necessário. Em pura expressão de um sadismo existencial, materializamos o sofrimento e perpetuamos pesadelos.

O propósito se projeta em sinais longínquos, numa travessia calada, de baixa visibilidade, envolta por um nevoeiro impossível de se desenhar em matéria. Está distante do toque, tal qual um navio que não tomamos a tempo e que se afasta no horizonte de nossas vidas. É aquele que nunca alcançamos, fantasia de promessas que não se cumprem.

Não é um olhar que projeta, mas que atravessa.

segunda-feira, junho 16, 2025

Anatomia do pranto

Na ânsia de entender o choro,
procurei o formato exato das lágrimas:
sua origem fisiológica,
desencadeada por razões que a razão não alcança,
classificadas em funções, divididas em moldes.

Mas o pranto
pertence ao terreno da não-fisicalidade,
à invisibilidade que deságua em materialidade.

Para tudo, há de se ter um porquê —
uma tentativa de encaixar o éter das emoções
nas caixas do intelecto,
mensurar o indizível, torná-lo tangível.

Tentando entender,
perdi o tino para sentir.

domingo, junho 15, 2025

À Porta

Permaneço sempre à porta,
na soleira.
Pés fincados no chão —
estacas cravadas,
firmes, imóveis.

Dos olhos,
expectativa,
carregados de futuros que não chegam,
jorrando angústias
infinitas.

Na garganta,
a voz engasga,
choro engolido,
sufocado.

No peito,
o peso do laço —
novelo embolado,
com pontas soltas
e perdidas.

Na boca do estômago,
dor funda que perfura,
ferida aberta,
ácida,
corrosiva.

Na mente,
pensamento insistente,
permanente.

Mato-me silenciosamente,
pesando sobre mim o castigo
que evito sofrer
pela mão alheia.

Controlo eu mesma
minha dor e julgamento.

Finalizo a ilusão que comecei,
esticando-a ao infinito,
em meu papel
de vítima...
e algoz
de minha própria vida.

sábado, junho 14, 2025

Olhares que se encontram

Acostumados a olhar em volta, ao redor, com o olhar fragmentado em quantidade: de pessoas, coisas ou de pessoas coisificadas. Um olhar distante, perdido, esvaziado na multidão. Oculto por trás das telas, sem o desconforto de ser olhado, por medo de que se perceba o desejo de ser notado. Ambiguidade que nos fragmenta na ânsia de atrair o olhar do qual tanto nos esquivamos. Jogo de gato e rato.

Mas há o olhar que mira nos olhos de uma só pessoa, mergulha fundo e parece invadir os limites que erguemos contra o outro. Esse olhar incomoda, porque não apenas olha, ele enxerga. Vê o que tentamos esconder e maquiar. Ele desarma e atinge a alma.

Olhos que devoram um ser por inteiro e se mantêm no nível dos olhos que os sustentam, num ato misto de coragem e entrega. Estou olhando para a sua verdade, e é ela que o torna ainda mais bonito.

O meu sentir olha para o seu, e, ao ser compartilhado, atrai-nos mutuamente como ímãs que se arrastam para perto. Este é o movimento de aproximação de dois universos que se orbitam.

sexta-feira, junho 13, 2025

Você que em mim habita

A parceria mais honesta que podemos firmar é com nós mesmos. Não é a única, mas é a principal e nela reside a base da expansão da consciência.

Esse movimento não é uma fuga para fora, mas um retorno para dentro. Ao abrir espaços internos antes ignorados, deixamos de ser cegos de nós para, então, enxergar o outro sem projetar nossas carências.

Partimos de nós em direção ao mundo, moldados pela teia coletiva. Mas à medida que vivemos e refletimos, iniciamos o caminho de volta — árduo, mas inevitável para quem desperta como autor e ator no palco da vida.

Na busca, que é já o encontro, misturamos olhares, nos reconhecemos no outro e permitimos que ele habite os espaços que abrimos em nós. Atravessamos juntos as camadas que nos formam.

O outro entra como um eco da nossa consciência, trazendo à tona o que estava submerso. Meu olhar encontra o seu no espelho da humanidade e juntos, seguimos, lado a lado.

Podemos habitar, por instantes, as histórias uns dos outros, sem nos perder nelas, apenas fluindo no rio da vida, em comunhão entre consciências. Compreendemos, então, que toda realidade nasce do olhar que a observa e que nenhuma visão é definitiva.

A percepção se expande como eco interior, revelando o invisível. São lentes, espelhos, amplificadores da consciência.

Eu sou você que em mim habita. E me reconheço quando experimento você. Caminhamos juntos: você, ao se revelar; eu, ao responder.
Você é você, mesmo sendo eu.

quarta-feira, junho 11, 2025

Onde moro

Vestir-se de si é a indumentária certeira,
mas tornou-se a mais desconfortável,
pois nosso olhar se volta apenas para fora,
sempre além do que sou,
e se perde no querer ser.
Talvez o que eu verdadeiramente queira
seja ter-me como morada — e não o exílio de mim.

terça-feira, junho 10, 2025

Pilar invisível

Escrever é meu trabalho interno, silencioso e invisível ao mundo exterior.
O trabalho externo tem fala alta e parâmetro no outro,
sempre em busca do olhar alheio para autenticação.
A ele estamos habituados.

O labor interno tem natureza árdua,
porque nos acostumamos a buscar algo material,
além de nós mesmos,
para preencher um vazio que, de vazio, nada tem.
Nesse lugar de si mesmo, há escuridão, evitações e desprezos
presos ao padrão de repetição,
até que sejam vistos e alterados.

Ajustar o olhar para dentro é tarefa difícil,
demanda força — não bruta —
mas resistência e determinação.
Resistir ao desejo de fugir,
evitar e permanecer no giro até o cerne,
sem deixar escapar o movimento que puxa para fora,
que se verga à pressão externa
e cede vida a fora.

Procuro o silêncio,
e nele questiono insistentemente:
o que você quer?
A resposta procura respaldo no coletivo,
na narrativa imposta, no papel vendido e absorvido, aceitável.
Novamente, ela quer escapar pela tangente.
Então, mais uma vez, é preciso manter-se firme ao centro.

Quanto do que digo me pertence, me reflete, me diz respeito?
O que falo para outrem está imune ao desejo de pertencer e querer parecer?
Querer dizer, se afirmar, defender,
pedir para dar a cara a tapa,
serve como forma de demonstrar coragem de se expor,
ou meramente ter uma cara para bater ou oferecer?
Para toda cara calçada, uma alma desnuda.

É mais fácil derrubar e ferir algo de carne e osso
do que a uma ideia que não se pode tocar,
imune à materialidade de que sou feita,
me deixando vulnerável a ela.

Meu eu, mensurado pelas métricas estrangeiras a mim,
me imputa ânimo para agir diante do quê, afinal?
Esse olhar, enviesado,
partido em dois pelos limites da dualidade,
define o cenário que posso enxergar.

Me permito adentrar a porta estreita do desconhecido de si mesmo,
universo do desconforto,
solitário,
desprovido de garantias,
fluido ao nível do insuportável,
sem mapas e manuais de orientação.
Me pergunto: como confiar?

Aqui estamos completamente perdidos,
sem esteio que nos apoie.
Afinal, o pilar interno é invisível.

segunda-feira, junho 09, 2025

Espírito da língua

Toda e qualquer fala que eu traga em meu peito,
gestada no calor da minha alma,
virá à superfície carregada de minha própria história,
permeada pela herança linguística
que comungo através da língua portuguesa.

Minha língua é um rio fecundo,
que verte palavras e expressões
repletas de narrativas ancestrais,
navegando pelo tempo,
desenhando o contorno da minha realidade
e do meu olhar.

Minhas palavras brotam no solo fértil da língua portuguesa,
rica em nuances que se mesclam de um continente a outro,
traduzindo em som e ritmo
as dores e as alegrias de povos
que partilham de uma mesma melodia
e musicalidade ao se expressar.

São ondas sonoras
que unem almas distintas
e, ao mesmo tempo, similares,
cúmplices do inefável espírito que comunica.

Como o pescador que lança sua rede ao mar
na captura de peixes para nutrição e sustento,
envolve-nos a todos uma mesma música:
o português.

E, caso minha canção chegue aos teus ouvidos,
saiba que nela está o meu sentir,
condensado em palavras
pela língua que carrego como mãe.

Minha língua é a carruagem que transporta o espírito,
em estado de suspensão,
à ação traduzida em símbolo de identidade.

domingo, junho 08, 2025

Irrompe o inesperado

Acima, o céu: o éter.
Abaixo, o movimento: o trovão que irrompe em lampejo.
Quem segue o fluxo natural torna-se autêntico, sincero.
A sinceridade mora no agir, não apenas na ideia.

Ele surge — súbito —, vestido do inesperado,
carregando a inocência que nos devolve ao estado original.
A batida primordial do coração anuncia: boa fortuna.

O movimento criativo tem valor em si,
não no olhar que calcula resultados.
A realidade imposta, viciada em métricas,
corre contrária ao fluxo natural.

O plantio, a rega, o cuidado paciente
são soterrados pelo ímpeto e pelos artifícios apressados.
Tudo se mede em relação ao que está fora:
pura ilusão de controle.

A via se estreita, perdendo-se em becos de possibilidades vazias,
falsas promessas.

Dos bueiros sobem gases tóxicos;
vê-se gente zonza, inebriada — recipientes vazios.

As sementes tornaram-se estéreis.
O trabalho, infértil.
O peso dos corpos rachou ao meio
o espírito que anima.

sábado, junho 07, 2025

Jazz da alma

A noite é o cenário onde vagam meus olhos.

Meus passos sós ecoam pensamentos compassados.

Caminho sob o ritmo da batida seca do sapato sobre o asfalto, de onde emana o brilho artificial das luzes dos postes e faróis dos carros, contraste com o negro noturno: cor sobre a pálida solidão.

De longe, sopra uma brisa suave em meu rosto, trazendo consigo uma melodia distante, introdução à partitura, do trompete chorando no vazio da noite.

O toque intimista me chama a encontrá-lo na próxima esquina.

O homem e seu instrumento — um só ser.

Do objeto içado ao toque dos lábios brota a harmonia do fôlego humano: sopro criativo, improviso sobre essa realidade forjada que sufoca.

Sigo o som harmônico e rítmico da liberdade inventiva, desligando-me dos grilhões coletivos, conectando-me à melodia íntima da improvisação: espontânea, única e irrepetível — própria de um homem humano.

Deixo ir e tocar o jazz da alma que performa na noite, na solitude.

Conduzo e me deixo conduzir pelo fluxo musical deste ato da vida.

sexta-feira, junho 06, 2025

Revolução Silenciosa

O movimento mais revolucionário que uma pessoa pode empreender é a transformação do seu cenário interno. Mais do que levantar bandeiras e defender grandes causas externas, é o ato de olhar-se no espelho à procura de sua própria verdade, mover-se rumo a si mesmo, em busca de solo fértil, de seu espelho d'água, isento da contaminação externa que borbulha em caminhos equivocados e herdados, ávidos por nada.
Esse avanço desbravador pelas próprias terras demanda a coragem de confrontar narrativas impostas, sempre firmadas sobre os mesmos papéis: oprimido e opressor, vítima e algoz, num eterno dualismo em que forças opostas se anulam mutuamente. Esse olhar, que se projeta para fora, mergulha na ilusão de uma solução que está sempre além, distante, afastada da realidade última: nós mesmos.

O Vício da Possibilidade

O inconsciente não desperta fantasmas inúteis. As figuras que aparecem em sonhos e devaneios trazem mensagens do nosso interior, que precisa ser explorado repetidamente.
Padrões repetitivos não devem ser subestimados: são as paredes do labirinto, onde está codificada a chave que ativa nosso Self, libertando-nos das amarras da mente. A individuação acontece quando paramos de lutar contra os fantasmas e começamos a dialogar com os símbolos que eles representam.
No centro do labirinto está o Self — o núcleo da totalidade psíquica — e o caminho, embora pareça nos fazer perder, na verdade nos ensina a nos encontrar.
O labirinto não é só um espaço, mas um processo. Cada volta aparentemente inútil é um avanço na espiral da individuação. A chave está na parede, que é interna. A mente, com suas crenças, medos e narrativas fixas, se transforma ao ser decifrada.
Aqui, o observador é também o observado. Ao perceber seus próprios ciclos, a realidade muda. A estagnação dá lugar à observação ativa de si, alterando a consciência.
Esse movimento gera desconforto pelo tempo “perdido” na estagnação, provocando culpa, medo e autopunição. Mas o atraso só existe na realidade que criamos, onde corremos atrás de possibilidades que nos paralisam, com medo de falhar.
O medo de escolher errado nos mantém suspensos, viciados no desejo idealizado que nunca se realiza, pois, ao concretizá-lo, o ideal se desfaz.
Nos sonhos, a presença de outras pessoas serve apenas para materializar a mensagem do inconsciente. Nossa mente, ancorada na materialidade, precisa de imagens e arquétipos para acessar conteúdos inconscientes. Sem imagem, não há ponte entre inconsciente e consciência.
O nó que bloqueia o movimento está entre o desejo de integrar e o medo de falhar. O impasse paralisa.
O medo quer me manter esperando, buscando a ação “correta”, e evita que eu me arrisque, como se a possibilidade fosse mais valiosa que a realidade. Dentro da ação, o resultado é irreversível; se for um erro, não haverá mais chance de acerto. O medo protege da falta de garantia.
É preciso romper com o vício da possibilidade e aceitar que não existe ação perfeita ou garantida — apenas aquela que se escolhe conscientemente, assumindo o risco inerente à vida.
O que eu quero não é a perfeição do possível, mas a imperfeição do real.
Tudo que se repete — erro, medo, demora, autossabotagem — é um código simbólico que, ao ser decifrado, aponta a saída. O padrão é prisão e mapa ao mesmo tempo. Não se trata de evitá-lo, mas de compreendê-lo: cada repetição é um chamado para expandir a consciência e sair do automático.

quinta-feira, junho 05, 2025

Pessoa

Fernando Pessoa: suas palavras desnudam-lhe a alma diante de nossos olhos e nos encantam e deslumbram com a beleza de sua forma, ao mesmo tempo profunda e intangível, mas acessível ao nosso coração. Não me canso de admirá-lo.

Red Flags: O Perigo que nos habita

Vivemos tempos em que a atenção aos sinais de perigo se tornou quase uma exigência cotidiana. "Red flags" se tornaram parte do nosso vocabulário emocional, como se a vigilância constante fosse a única maneira de evitar a dor. Mas será que, ao focarmos tanto no que pode nos ferir, não esquecemos de olhar para aquilo que, silenciosamente, também nos habita?

Atualmente, fala-se tanto na importância de estar atento às ameaças externas, aos perigos que o outro representa em relação a nós mesmos, buscando nos proteger. Mas, afinal, de que queremos proteção?
De abuso, invasão do espaço íntimo, decepção, desilusão?

Aprendemos a erguer barreiras, mas será que também aprendemos a nos aproximar? Me parece que não...

É preciso prestar atenção às “red flags” de si mesmo. Nosso olhar está sempre voltado para os sinais que enxergamos no outro, mas raramente olhamos para os nossos próprios sinais de alerta. O problema está sempre lá fora, mas será que ele também não habita dentro de nós, justamente porque vivemos focados nele?

Realizamos a tarefa de conservar nossa essência e verdade interior a todo custo — mas… a que custo?

Essa reflexão parte de uma série de fracassos que vivi ao me impor meias verdades. Tentativas de me proteger ou de me adequar, que, no fim, apenas me afastaram de mim mesma e das relações que poderiam ter sido mais autênticas.

Talvez o maior risco não esteja apenas no outro, mas na nossa dificuldade de reconhecer os sinais que emanam de nós mesmos. O perigo que nos habita é, muitas vezes, aquele que mais negligenciamos e, é ele quem mais nos afasta da possibilidade de encontros genuínos.

quarta-feira, junho 04, 2025

Eterna Estrangeira

Os trechos da vida que me tocam
são os que mais falam de mim —
uma beleza desconhecida,
oculta nos bastidores do que posso ver.

O desejo revela
mais sobre mim
do que sobre o objeto,
alvo longínquo.

Um amor que só se permite à distância,
não se deixa aproximar ou tocar,
por medo de macular o que é puro,
como se, para salvá-lo,
eu precisasse conservá-lo
sem uso —
amor platônico, inútil.

Essa minha parte desencaixada,
imune às exigências do mundo,
é meu cerne, meu núcleo.
E eu a odiei —
desprezei minha própria essência
para me moldar onde nunca coube.

No esforço de seguir
sem engolir de todo a narrativa
imposta pelo coletivo,
fracassei duplamente:
entre me moldar
e me aceitar.

Estou presa nesse cabo de guerra,
nessa disputa sem fim
entre opostos
que não concordam.

Sigo estrangeira —
em meu próprio mundo,
em que minha alma não se molda
e meu corpo não se encaixa.

Nessa eterna não-pertença
mora a semente
que, sem rega, jamais brota:
o singular que sou,
que clama por viver segundo minha própria medida.

O que me desconcerta e me tira o fôlego
pertence ao espaço não integrado de mim —
a identidade que escapa,
beleza estrangeira
que sinto não me pertencer.

Não mora lá fora,
pulsa dentro,
no aguardo de conexão.

É minha, mas parece outra —
de outro lugar,
outra vida —
em um estranhamento de si,
idioma incompreensível,
imbuída de símbolos e mistérios
indecifráveis.

Cá estou,
presa entre dois mundos.

terça-feira, junho 03, 2025

Transfiguração

Visto-me daquilo que me assombra,
acreditando que, assim, estarei a salvo do predador que afirmo ser.


Estou acuado,
à procura de salvação,


sem em nada encontrar amparo
além de mim, tão fraco.


Visto-me de algoz,
me apresento invencível.


Torno-me o veneno que me dão de beber,
para evitar a morte,


para evitar a queda.
Afirmo ser tudo aquilo que me ameaça,


me torno as sombras que me seguem
e me asseguram.


Sou eu mesmo:
meu objeto de medo e repulsa.


Estou como um cão que persegue o próprio rabo,
sem nunca alcançá-lo.


Na ilusão de controle,
abandono, por completo, quem sou —


e me entrego, rendido,
ao que fiz de mim.