Antes, tudo aqui era mata virgem, mato alto, emaranhado. Certo dia, o pensamento que vagava feito fantasma na floresta resolveu olhar-se no espelho de um rio e foi pego de surpresa pela própria imagem.
— Ora, vejam só! O fantasma existe e tem forma! — exclamou uma voz.
— Quem está aí? Quem fala, aqui de onde estou? — perguntou, confuso, ao notar sua própria voz questionando-se.
— Antes, só havia a mim; agora falo e ouço, como se fossem dois: aquele que fala e aquele que ouve e nota! — ainda perdido, olhou ao redor.
Ouviu o som metálico de uma lâmina afiada cortando o ar. Sua espada configurou-se no discernimento recém-adquirido.
— Por Deus! Estou armado de um novo poder! — concluiu, sobressaltado.
A excitação do momento o impulsionou em movimentos circulares, como alguém que testa o corte da espada. Passou a dar nome aos bois, a dar forma ao invisível — o fantasma que era, enfim, existiu. Todo o emaranhado que o rodeava, de repente, parecia implorar por ordenação e significação.
As palavras assumiram seus postos em meio à confusão, e o caos tornou-se terreno fértil para o trabalho que se insinuava necessário. Finalmente, o fantasma havia sido convocado a elaborar a si mesmo.
Quem, afinal, teria invocado o espírito que vagava disperso pela floresta de si?
Não importa, pois agora ele estava presente, materializado e armado de sua espada outrora embainhada.
O fantasma abriu clareiras mentais onde antes só havia mata fechada. Criou trilhas de pensamentos, construiu estruturas de análise, chegou a conclusões, derrubou certezas, duvidou, avançou e recuou. Havia muito o que fazer: pensar, nomear, dizer.
Antes alheio a tudo isso que agora lhe passava, não poderia mais ignorar nem retornar ao antigo estado despercebido. Mas não sabia ao certo se estava certo — era essa sua condição atual.
— Conseguirei eu continuar existindo até o fim da vida? — perguntou o fantasma, que agora tinha corpo, alma e pensamento.
Continuar existindo… estar presente, se expressar, deixar marca, sentir, perceber, criar… Eis o novo território do fantasma desperto para si.
Um espírito confrontado pela consciência, que dormia profundamente no âmago de suas origens, veio à superfície das águas daquele rio, no qual se viu refletido pela primeira vez.