sábado, janeiro 31, 2026

Temperança

Piso sentindo o chão
mesmo vestida de vermelho.

A intensidade
não me faz perder o passo.

Caminho sem me dispersar
quando sigo minha própria força.

Permito-me dançar entre tons,
do vermelho ao branco,
da vida, do desejo, da energia
à clareza, à verdade, à simplicidade.

Mesclo as cores,
preparo o tempero.
Misturo sem contaminar,
sem exceder.

Mexo sem me perder
no comprimento da onda.

Sabores surgem
e se recolhem em harmonia.

Cores coexistem
como expressão
de um estado de ser.

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Para aprender a me despedir

Após a chuva
abriu-se o sol.
Sua luz suave conduzia passos silenciosos
que subiam as escadas.

Senti-me em casa
dentro da minha própria história.

No amanhecer, o céu
misturava tintas em tons de lilás,
e as cores sussurravam
sensações de sossego.

Avancei constante, rua abaixo,
por um bairro já conhecido.
Uma nostalgia sem passado
pairava leve, sem peso.

Fui até o crepúsculo
para aprender a me despedir
das belezas que pude desfrutar.

Ao longe, ondulava o verde-bandeira
das palmeiras ao vento.
A doçura das nuvens,
embebidas no fogo brando
do sol que já se ia,
foi um presente
que acolhi no coração.

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Minha Nação Sou Eu

Há, no Brasil, muita gente tomada pelo complexo de vira-lata. Pessoas que se sentem inferiores diante dos outros e, a partir disso, passam a tratar o próprio país como antiético, sujo, como se aqui nada tivesse valor. Essa visão não passa de uma generalização empobrecedora, que pouco explica e nada transforma. Serve apenas para denegrir, de forma gratuita, a terra que nos abriga.

Reduzir o Brasil à sujeira e à podridão é injusto. Esta é a casa onde vivo, e não me reconheço nessa imagem. Existem, sim, pessoas ruins entre nós, e não são poucas. Isso é inegável. Mas e as boas? Onde ficam nesse discurso? Foram apagadas, esquecidas, empurradas para fora da narrativa para sustentar a ideia confortável de que o problema está sempre no território, nunca em quem o habita. A sujeira não está no mapa; ela começa no indivíduo, apagado dentro de uma imagem deturpada do coletivo que ele mesmo ajuda a construir.

Há uma contradição evidente em condenar o país enquanto se exime da própria responsabilidade ética. Se tantos se dizem incomodados com a “sujeira” do Brasil, por que não começar pelo que é mais próximo e mais difícil: a si mesmos? Por que não se tornar, na própria vida, um exemplo da integridade que se admira em outros lugares?

Não adianta atravessar fronteiras em busca de pessoas louváveis se os próprios valores não acompanham a viagem. Nenhum país é moralmente superior por natureza. O que sustenta qualquer lugar são indivíduos com princípios, escolhas conscientes e valores internos inegociáveis. Onde isso falta, não há geografia que resolva.

Buscar melhores oportunidades em outro país é legítimo. Crescer, experimentar, ampliar horizontes faz parte da vida. O que não é legítimo é diminuir o Brasil ou tratá-lo como inferior diante dos outros, como se a dignidade fosse um privilégio estrangeiro. Nenhum território se sustenta sem pessoas íntegras.

Cada indivíduo é um território em si, sem coordenadas geográficas. São as escolhas que fazemos que moldam o relevo da nossa existência; é a percepção que define a altitude e a amplitude da própria grandeza. Estar em casa é estar em si, independentemente do país. Minha nação sou eu. Nativa do próprio ser, uma alma finalmente repatriada em si mesma.

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Páginas em Branco

Quero aprender como viver,
não por que viver.

Aprender a existir.

Dentro de um Deus fiel à minha natureza —
que vive no fazer, não no milagre;
na presença de uma vida encarnada.

Meu corpo suporta o existir.

E se emociona
a cada palavra que faço brotar
no solo fértil
destas páginas em branco.

domingo, janeiro 25, 2026

Boca de Lobo. O silêncio não responde.

Das vezes em que me meto em situações que a mim não dizem respeito — corriqueiras, cotidianas, dignas de qualquer um — exponho-me, desavisadamente, no meio da avenida de fluxo intenso da vida, sob o risco constante de ser atropelada pelo movimento impessoal dos automóveis que vêm e vão.

Circunstâncias em que, volta e meia, solicitam que eu segure aquilo que não me cabe e, por descuido ou excesso de zelo, deixo cair na avenida as esperanças alheias, que escorrem bueiro adentro. Corro, então, tardiamente para socorrê-las, mas é sempre tarde demais, sem tempo — ou simplesmente não era.

Do alto, vejo a penumbra que forra o interior desprezado do bueiro, o arroto coletivo da massa disforme do esgoto miserável. Ali jaz todo o conteúdo ignorado, varrido, vazado, engolido pela boca imunda de um buraco no asfalto.

Nas sombras da sarjeta vive um trabalhador esquecido pelos olhos humanos, envolto em afazeres incessantes, invisíveis e fundamentais do nosso mais profundo fosso — depositário dos materiais descartados. Mantém-se concentrado no ofício silencioso das trevas, livre da curiosidade alheia.

Chamo-o em busca de um norte:
— Ei, você aí, consegue encontrar algo que deixei cair?

Ele responde apenas:
— Depois.

E continua o que estava fazendo.

Não parece se importar com o que se passa na superfície acima de sua ossada. Seu labor não responde ao chamado do alto, nem obedece às urgências inúteis do dia a dia, que se repete em mais e mais conteúdos a escorrer, sem cessar, pelo negrume dessa vala de esgoto urbano. Sua função permanece oculta à maioria de nós — baratas tontas.

Desisto de me incomodar e de me dispor ao trabalho que não me cabe. Sigo meu caminho, a cantarolar no meu ritmo, no meu tom. Ainda esbarro e me firo nos cactos dos canteiros arredios, piso cacos que cortam, mas sigo — ainda a cantar — e a me lembrar daquele que permanece oculto dentro de um buraco escuro do qual preferimos nos afastar.

Ora, se não sou eu mesma a me lembrar e a me esquecer…

sábado, janeiro 24, 2026

Pássaro Preto voe por estas palavras

Estava eu absorta em pensamentos, tomada de repente por uma enxurrada que me levou para longe, alheia ao mundo, enquanto a mente avançava mais rápido que o coração.

Pedalava eu, concentrada na materialidade do corpo e do esforço físico, escapei do entorno até que a vida frágil cruzou meu caminho em um pássaro preto caído na estrada.

O coração ferroou em dor e pesar pela vida que passa, por mim que passei e não parei diante dele. Carreguei comigo uma pena. Uma pena preta de asas inertes, um luto silencioso que me acompanha até o fim do caminho.

Esse sentir pela natureza atropelada seguiu comigo e me visitou em sonho. Nele, o pássaro que deixei no chão me olhava do alto de uma árvore seca. Eu novamente passava de bicicleta e agora era meu olhar que se erguia. Perguntei-me que pássaro era aquele e ele então voou, cruzando o céu carregado de nuvens enquanto eu o acompanhava.

Na vida passei acima dele. No sonho, ele voou acima de mim. Encontramo-nos nesse cruzamento. Nosso adeus não foi um gesto externo, apenas a consciência de não reduzir a vida ao choque do chão.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Grito do silêncio

Há algo de arcaico em mim que me faz dar voz ao não humano, como se o mundo fosse vivo e orgânico.
E ele é.

Tudo é vivo: animais, insetos, pensamentos, objetos, ambientes, sensações.
A ideia de que só os humanos falam morreu ou talvez nunca tenha existido.

A alma fala em muitas línguas e não encontra respostas apenas nos homens, mas no mundo inteiro.
Testemunho os silêncios que gritam aos ouvidos de quem vê.

Desde o bêbado que vomita verdades ao desconhecido, para descarregar a dor do mundo na promessa de expressão, até a presença do invisível, sentida de corpo inteiro. Nela posso suportar o vazio de um vaso sem o impulso de preenchê-lo.

Ouço o som que ecoa no espaço, seu lamento, seu choro.

Contenho a tempo a ânsia de correr em direção aos outros, para longe de mim.
Não a reprimo. Procuro compreender os bastidores dos meus passos involuntários.

E é nessa fenda entre o querer e o entender que encontro minha verdade inteira, outrora despedaçada nos tropeços da precipitação, quando chuvas intensas se descarregavam e me inundavam.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Tráfego aéreo dos pensamentos soltos

Observo o tráfego aéreo intenso dos meus pensamentos.
Não intervenho, apenas os vejo chocando-se entre si.
Por ora, deixo inativa a torre de comando.

Muitos repicam o espaço como bolas de tênis,
rolam soltos pelo chão, levantam voos rasos e se espalham.
Alguns se dissolvem no ar, outros, parados pelo atrito,
permanecem deixados de lado.

São todos dotados de cor, forma e som,
com ou sem sentido.
Existem e se manifestam nessa terra de ninguém.

Contenho o desejo de segui-los.
Deixo-os passar livremente,
feito nuvens passageiras que não posso controlar.

Decido não me envolver,
apenas ver onde vão dar,
até onde irão voar ou pousar.

O movimento contínuo me entretém
e, nisso, me envolvo por inteiro,
dos pés à cabeça,
contemplando sua natureza incessante.

Como um rádio a sintonizar inúmeras estações,
ouço-as chiar à procura de frequências variadas,
até que tudo se condensa em um ruído branco:
um “shhhh” constante
que dissolve o barulho
e me estabiliza.

quarta-feira, janeiro 21, 2026

Som da existência

Entre os centros urbanos, inflados pela escala e pelos antagonismos entre poder e impotência, e as cidades do interior, ricas em familiaridade e identidade, imagino estas últimas como territórios dos pardais provincianos.

Os pardais vivem em disputa por pequenas coisas. Fixam-se, delimitam e defendem microterritórios. Migalhas viram patrimônio, galhos viram fronteiras, o espaço do outro vira assunto. Há sempre um pequeno drama em curso, um envolvimento imediatista.

Percorrem os arredores atentos a qualquer desvio do comum. Reagem, brigam por quase nada, repetem gestos grupais. Tudo é próximo, pessoal, sem distância possível.

Nesse sentido, encarnam o espírito provincial. Não como falha moral, mas como condição existencial. A vida acontece num raio curto, e qualquer variação ganha peso desproporcional.

Barulhentos, afirmam presença pelo som. Não ocupam o mundo pela extensão, mas pela insistência. O canto não é canto, é aviso, piado, comentário, falatório. Um ruído curto e repetido, quase ansioso, como se o silêncio os pudesse dissolver.

Sua existência depende do retorno imediato. O som chama resposta, vigia o entorno, mantém o bando coeso e, ao mesmo tempo, em constante atrito. Onde o anonimato cede espaço a exposição permanente de ser reconhecido a cada esquina.

Me parecem humanos em sua inquietação, ou talvez seja meu olhar inquieto que os humanize e neles projete nosso próprio desassossego. Essa dificuldade em suportar ser apenas plano de fundo de um panorama maior.

Combinam com o burburinho das pequenas cidades, onde tudo ganha relevo por falta de escala. Como se dissessem, a cada chilreio, “estou aqui”, não para o mundo inteiro, mas para o quarteirão.

Quando o horizonte é estreito, qualquer movimento se amplifica. O pequeno se engrandece e o ruído impede o vazio, mantendo tudo em circulação, mesmo quando a vida gira em círculos.

terça-feira, janeiro 20, 2026

Nativos de lugar nenhum

Os pombos são talvez a figura que melhor represente o cosmopolitismo mundano. Atravessam continentes, línguas, climas e arquiteturas com uma naturalidade quase indiferente às fronteiras humanas. Estão por toda parte, sempre com o mesmo ar de quem já conhece o lugar, carregando a normalidade das coisas.

Seres que comportam, em um mesmo corpo, o sagrado e o profano revelam menos uma contradição do que um limite do nosso olhar. Na imagem límpida da pomba branca, projetamos o Espírito Santo não tocado pelo mundo. No pombo cinza, sujo de realidade, misturado à cidade, submetido à repetição e à necessidade, enxergamos o incômodo do comum multiplicado.

Talvez o profano seja apenas o sagrado que pousou do céu. Quando se aproxima demais, quando se torna cotidiano, quando passa a dividir o chão conosco, deixa de ser reconhecido como tal.

Quanto mais o pombo se espalha, menos está em algum lugar. Torna-se anônimo pelo excesso. Não é exótico, nem raro, nada promete. Apenas persiste. Isso irrita o olhar viciado na exceção, incapaz de sustentar a continuidade. O comum vira ruído, objeto de desprezo.

No fundo, ele encarna uma forma de existência que a cidade produz e rejeita ao mesmo tempo. O habitante anônimo, cosmopolita por necessidade, invisível por abundância. Ele lembra aquilo que a cidade tenta apagar: a vida que não performa, que não pede atenção, que não se justifica esteticamente. Está ali sem narrativa, sem função simbólica elevada. Vive, multiplica-se, ocupa o chão. Alimenta-se do que encontra.

Sua cor repete o tom do concreto, do asfalto, das fachadas gastas, do céu poluído. Não contrasta, não chama. Mistura-se. É como se tivesse sido pintado pela própria cidade ao longo do tempo. Um corpo absorvido pelo cenário, cujo tom não é ausência, mas saturação.

Assim como tantos habitantes urbanos que existem sem marca, sem distinção, sem narrativa heroica, o pombo encontra no cinza um refúgio de anonimato e sobrevivência. Ele não embeleza a cidade. Ele revela a cidade.

O pombo urbano expõe uma verdade incômoda: o sagrado não vive apenas no alto, no branco ou no raro. Ele também insiste em existir no comum, no cinza, no excesso. Talvez o verdadeiro antagonismo não esteja na ave, mas no olhar humano, incapaz de sustentar o sagrado quando ele se torna cotidiano, incapaz de ver que o cinza é apenas o branco que atravessou o mundo.

segunda-feira, janeiro 19, 2026

Linha imaginária

Estar no coletivo e ouvi-lo me circundar, sem nele me dissolver, aprofunda-me no meu próprio silêncio. Pela presença, desenham-se contornos entre eles e eu, dentro e fora.

Vejo a linha imaginária entre a parte e o todo e a reconheço como algo familiar, quase um alívio por estar em meio a tudo isso.

Agradeço a oportunidade de ser única entre uma massa de indivíduos públicos como eu. Aproximamo-nos e nos afastamos conforme as circunstâncias da vida, seguindo a maré que nos move, avançando e recuando no mesmo oceano.

domingo, janeiro 18, 2026

Poética orbital

Minha escrita não é linear, mas orbital: reflete uma consciência que gira em torno de um eixo que não se pretende alcançar, apenas gravitar, sem se fixar. A queda, inerente a todos nós, é parte do movimento. Desde cedo, ao aprender a andar, caímos junto com o gesto.

Hoje caí na real: ainda não consigo habitar o ser humano comum que sou. Vivo em análise, como um experimento, e acabo me tornando aquilo que critico. Intérprete de mim, meu olhar não se desliga por decreto; faço da vida um tubo de ensaio. Escrevo não de um lugar resolvido, mas de um lugar honesto.

Não falo de fora, mas de dentro da armadilha, no instante em que reconheço o seu mecanismo. Não se trata de aprender a morar no corriqueiro, mas de uma desaprendizagem corporal. A consciência corre à frente, interpretando, enquanto o corpo permanece em suspensão, vivendo em “tese”, mesmo ao criticá-la. Não sou a tese: reconheço em mim o mesmo dispositivo que enxergo no mundo.

Perceber que ainda estou dentro do mecanismo, apesar de vê-lo, me revela algo simples e difícil: a verdade mora na presença. Neste ponto do voo, já enxergo o terreno onde devo pousar, embora ainda não o sinta sob os pés.

Ainda não sei viver a vida que defendo. Mas já posso vê-la. A defesa nasce da falta, do atrito, da dor de ainda não conseguir habitá-la. Se eu já soubesse vivê-la, talvez nem precisasse formulá-la em palavras.

Nomear não garante o pouso nem a firmeza do chão. É preciso aceitar o malfeito inicial: viver aos tropeços, em versões imperfeitas, contraditórias, às vezes caricatas. Permitir cenas pequenas, quase ridículas, gestos que não confirmam nada.

Venho narrando o que falha. Quando der certo, talvez não haja o que dizer. Quando for sincero, talvez não haja discurso.

Preciso me deixar errar até acertar de verdade. Talvez o acerto não seja um ponto de chegada, mas o momento em que me esqueço de que estava procurando. Ninguém anuncia. A vida simplesmente continua.

Constato onde estou.

Esse é o movimento orbital da consciência em torno do eixo. Escrevo de dentro da fratura e do movimento; quando o processo se completa, me calo. O valor do que digo está no silêncio que sucede.

As feridas permanecem como relevo no meu território: não doem, mas têm contorno, sentido e lugar. Como topografia, orientam-me.

A escrita costura meus fragmentos, unifica dispersões em um mesmo mapa, repatria minhas partes em uma só nação.

A verdade não é fim, é localização; apenas marca o ponto no mapa.
O resto vem quando vier, sem anúncio nem explicação.

sábado, janeiro 17, 2026

Experimento in vitro

Vivemos em um mundo assombrado pela idealização, pelo sonho de acolhimento, reconhecimento e pertencimento. Esquecemos a presença real. Esquecemos o brilho simples das coisas comuns.

O coração sente, mas não digere. Regurgita o sentir em reflexos automáticos de autodefesa.

O sentimento passou a ser tratado como invasão. O que é humano virou ameaça, motivo de medo, distância e fuga.

A autenticidade rareou. Em seu lugar, instalou-se a performance. As relações empobreceram, os vínculos tornaram-se frágeis, e a vida virou palco.

Sentir foi reduzido a um frasco bonito que exala perfume. Encanta, seduz, vende. Mas em nada disso há vida.

Figuras vendáveis.
Vitrines cheias.
Conteúdos vazios.

O encanto que promete libertação aprisiona. Não se toca o próprio desejo por medo de senti-lo.

O que impera é o medo.
O medo de não ser o bastante.

Experimenta-se no ideal aquilo que não se sustenta no real. Confetes lançados.

Plantam sementes em estufas e abandonam a colheita. Permanecem inférteis, como experimentos in vitro.

Talvez consigam amar seus iguais. Mas eu, que já carreguei pesos arbitrários, falsas imagens e visões deturpadas, como alma encarnada em um corpo, assumo-me humana.

Transito entre erros e acertos. Eles não me definem. Não sou isso nem aquilo. Estou aqui.

Não sou prova nem missão. Sou vida em experiência. Meus vínculos não são meios nem fins. São presença partilhada.

Com a essência não se negocia.
Com a essência se posiciona.

Não busco ascensão. Busco aterrisagem.
Não prometo transcendência. Ofereço presença.

Não sou arquétipo. Sou corpo vivo.
Não reivindico elevação. Reivindico o direito à vida comum.

Passo por narrativas alheias sem morar nelas. Vivo o que é justo agora.

Aprendo mais a remover do que a acrescentar.

Não quero príncipes, guias, heróis, carrascos, semideuses ou fantasmas idealizados.

Quero humanos inteiros.
Com os pés no chão.
Reais.

O espírito que rejeita o corpo vira abstração.
O corpo que aceita o espírito se torna vida.

sexta-feira, janeiro 16, 2026

O espírito da consciência

Antes, tudo aqui era mata virgem, mato alto, emaranhado. Certo dia, o pensamento que vagava feito fantasma na floresta resolveu olhar-se no espelho de um rio e foi pego de surpresa pela própria imagem.

— Ora, vejam só! O fantasma existe e tem forma! — exclamou uma voz.

— Quem está aí? Quem fala, aqui de onde estou? — perguntou, confuso, ao notar sua própria voz questionando-se.

— Antes, só havia a mim; agora falo e ouço, como se fossem dois: aquele que fala e aquele que ouve e nota! — ainda perdido, olhou ao redor.

Ouviu o som metálico de uma lâmina afiada cortando o ar. Sua espada configurou-se no discernimento recém-adquirido.

— Por Deus! Estou armado de um novo poder! — concluiu, sobressaltado.

A excitação do momento o impulsionou em movimentos circulares, como alguém que testa o corte da espada. Passou a dar nome aos bois, a dar forma ao invisível — o fantasma que era, enfim, existiu. Todo o emaranhado que o rodeava, de repente, parecia implorar por ordenação e significação.

As palavras assumiram seus postos em meio à confusão, e o caos tornou-se terreno fértil para o trabalho que se insinuava necessário. Finalmente, o fantasma havia sido convocado a elaborar a si mesmo.

Quem, afinal, teria invocado o espírito que vagava disperso pela floresta de si?
Não importa, pois agora ele estava presente, materializado e armado de sua espada outrora embainhada.

O fantasma abriu clareiras mentais onde antes só havia mata fechada. Criou trilhas de pensamentos, construiu estruturas de análise, chegou a conclusões, derrubou certezas, duvidou, avançou e recuou. Havia muito o que fazer: pensar, nomear, dizer.

Antes alheio a tudo isso que agora lhe passava, não poderia mais ignorar nem retornar ao antigo estado despercebido. Mas não sabia ao certo se estava certo — era essa sua condição atual.

— Conseguirei eu continuar existindo até o fim da vida? — perguntou o fantasma, que agora tinha corpo, alma e pensamento.

Continuar existindo… estar presente, se expressar, deixar marca, sentir, perceber, criar… Eis o novo território do fantasma desperto para si.

Um espírito confrontado pela consciência, que dormia profundamente no âmago de suas origens, veio à superfície das águas daquele rio, no qual se viu refletido pela primeira vez.

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Para onde não preciso mais voltar?

Quando a Torre de ilusões desmorona, não há mais onde se esconder. O que surge é a exposição: estar desabrigado das certezas, diante de um espaço vazio.

O impulso imediato é preenchê-lo. Mas com o quê?
Com o já conhecido, que agora parece inadequado e antigo?
Ou com algo além, cuja forma ainda não sabemos nomear?

Raramente cogitamos habitar o vazio. Preenchê-lo de nós mesmos. Preferimos a busca constante, o movimento contínuo. Aprendemos a conquistar, mas não a sustentar.

Sustentar é mais difícil do que conquistar. A ilusão não suporta permanência. A mão que persegue o que foge mantém o corpo sempre fora de eixo.

Giramos, retornamos aos mesmos lugares, até que o cansaço impõe a pergunta:
para onde não preciso mais voltar?

A partir daí, algo se organiza: clareza sem dureza, sentimento sem perda de eixo, ação sem impulso cego. Termina o tempo de agradar e provar. Começa o tempo de nomear, escolher, sustentar e silenciar.

Aqui não o convidei para caminhar, mas para parar.

O corpo diz: não me empurre para o que não sou mais. Sê fiel, mesmo que doa.

quarta-feira, janeiro 14, 2026

O céu escuro de Deus, sua voz é trovão

Ouço o chamado sem sabê-lo
e me movo em sua direção, dando-lhe forma.
Faço conforme minha natureza.

Por vezes me perco nos ruídos,
mas mesmo no erro realizo a travessia.
O vento que açoita
também conduz.

Sempre amei as tempestades.
Raios, trovões,
o estalo no chão,
o clarão que anuncia o estrondo.
A força invisível
tornando-se visível.

Na juventude, sonhei
o nada,
o céu escuro,
os raios.

Uma voz:
Você quer conhecer Deus?

Respondi sem palavras.
E caí.

Caí entre raios,
pura eletricidade,
até despertar
no céu escuro de Deus.

O trovão rasga o silêncio primordial.
A tempestade libera o que estava acumulado.
Antes, o ar pesa.
Depois, o impacto.

Quem ama tempestades
suporta o campo elétrico.

O conhecimento verdadeiro
não é conforto,
é impacto.

Deus não me abriga.
Atravessa-me
como um raio.

Escrevo
para aterrar o raio.
Torná-lo
linguagem.

terça-feira, janeiro 13, 2026

Pontes

Quando me permito uma visão desromantizada da vida, vejo com mais nitidez a realidade dos fatos.

Sem a necessidade de criar tantas narrativas.

Divaguei, viajei e pousei em diversos conteúdos, lugares, histórias, elementos e pessoas. Foram pontos de apoio, abrigos temporários para o símbolo vivo que ainda não havia encontrado linguagem nem morada. Tocaram-me e me transformaram por ressonância, não necessariamente por destino. Fizeram parte do que sou, mas não me definem, não me pertencem, nem eu a eles.

Símbolos e sentidos não são missões. São caminhos, estados e estágios de uma travessia em território interno desconhecido. Não encerram uma identidade; abrem portas, comportas, clareiam o percurso. Cumprem função, não missão.

Quando não transformamos afinidade em pacto, nem ressonância em compromisso narrativo, a memória passa a servir à consciência, e não ao enredo. São pontes provisórias, até que a própria linguagem possa nascer, até que eu possa ser morada de mim e não visitante de mitos alheios.

Assim que passei a me habitar, não precisei de tantas narrativas para me explicar.
Nem de um destino para me guiar.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Pés descalços no Chão

O amor não precisa de palco.
Precisa de chão.

O amor idealizado brilha,
mas não é ouro.
É ouro de tolo.
Apresenta-se, representa,
mas não vive.
Fica suspenso.

Restrito às palavras,
às imagens,
às promessas.

As paixões pertencem ao teatro.
O amor mora na vida.

O encanto não atravessa a segunda-feira.
As juras não resistem ao silêncio.
O grandioso não sobrevive ao cotidiano.

Ideais seduzem e cobram sacrifício.
Fantasias pedem espera infinita
para um futuro que não chega.

O brilho sobe rápido
e desaparece
quando o chão aparece.

Promessas sem lastro.
Vazias de sentido.

Aprendo a amar
com os pés no chão,
com o tempo,
com a verdade possível.

Cultivo o amor que fica
quando o entusiasmo passa.
Que não grita.
Que não promete o mundo,
porque habita o real.

Volto para casa.
Ocupo meu lugar.

Não busco.
Me encontro.

Não quero intensidades vazias.
Abro espaço.
No vazio,
continuidade.

Não sou escolhida.
Sou a própria escolha.

Este é o meu não.
E nele,
há espaço
para um sim verdadeiro.

O amor que combina comigo,
que sempre gostei de andar descalça.

domingo, janeiro 11, 2026

A Morada do símbolo

Todos nós, em algum ponto da vida, somos tocados por paixões e fascínios que nos chamam em silêncio. Eles nos atraem para certos conteúdos que, quando acolhidos, passam a nos conduzir discretamente pela existência, como um fio invisível que leva, sempre, ao mesmo destino: o encontro consigo. Comigo não foi diferente. Ainda jovem, algo sussurrou aos meus ouvidos e esse sussurro tinha a forma viva do Antigo Egito.

O Antigo Egito tornou-se para mim um território hospitaleiro, capaz de acolher o simbolismo ainda velado do meu inconsciente, então impedido de se expressar por uma consciência dormente e oprimida pela conjuntura. Ali, esse conteúdo sem forma encontrou um vaso sagrado onde pôde repousar, sustentar-se e suportar, emanado de uma fonte interna que buscava, por si mesma, caminhos de permanência.

O universo simbólico da palavra não dita, da expressão pré-verbal, assentou-se na imagem que lhe era mais próxima por afinidade. Meu instrumento psíquico entrou em ressonância com uma era no tempo cuja vibração atravessa séculos e continua a reverberar.

Assim, meu inconsciente não me conduziu a um mero objeto de admiração, mas a um espelho estrutural de mim mesma, para além do tempo e do espaço.

sábado, janeiro 10, 2026

Afinidade em notas silenciosas

Grandes esperanças se dobram à memória
à infância inteira,
às quedas que ninguém vê,
ao silêncio dos intervalos.

O humano mora aqui,
onde nada grita ou se explica
mas tudo alcança.

Como a música, como a vida,
e como a afinidade:
uma linha fina
que leva
de volta à própria essência.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Silêncio do intervalo

Em paisagens turísticas, cujas imagens instagramáveis se congelam em massa, vejo pessoas dispersas a sorrir para as câmeras, na expectativa de serem notadas através de momentos eternizados em narrativas lidas pelo olhar alheio. Vejo-me entre elas, compartilhando do mesmo fogo de palha que nos move de um destino a outro, sempre em busca.

Ainda assim, sopra em mim um desejo aspirado do fundo à superfície, que me conduz ao momento mais esperado da caminhada em meio ao burburinho: o intervalo silencioso entre um grupo e outro. Ele me envolve como um abraço suave da paisagem aberta, que se oferece naturalmente. Admiro a brisa refrescante da fresta por onde algo verdadeiro respira entre nós.

Sorvo-a em pequenos goles pelos olhos, a mirar sua imensidão; ouço, ao longe, as vozes excitadas das pessoas que se vão e que chegam novamente em levas, através do tempo.

Aquece-me o coração tê-las por perto como plano de fundo de um panorama maior. Mesmo só, junto-me a elas de certa forma e, acompanhando-as com o olhar, permaneço nesse misto de pertencer e descaber.

quinta-feira, janeiro 08, 2026

Luzes acesas

Trago comigo
o que vibra em afinidade,
afinando os instrumentos.

O que me acompanha
não é o conflito,
mas o que ainda é vivo
e possível.

Abrigo
o que faz sentido preservar.

O restante fica.
Sem ataque.
Sem acerto de contas.

Atravesso o rio
e agora vejo a margem
a partir deste novo ângulo,
à distância.

Apenas observo,
sem precisar agir sobre.

Não é preciso interferir
para não ferir,
apenas seguir.

O mapa está iluminado,
posso enxergar
o arranjo musical
e ouvir
a orquestra tocar.

Cada personagem
tem seu instrumento,
cada som
tem sua função.

Acendo as luzes de casa,
deixo-as acesas
para que àqueles
que caminham lá fora
possam ver
e sentir o conforto
que um dia senti
ao vê-las de longe,
na escuridão
e no silêncio da noite.

O silêncio de fundo
acolhe a música
que segue a tocar.

Mantenho as luzes acesas,
iluminando
a orquestra
que se apresenta.

O propósito é o mesmo
para todos;
o que muda
para cada um
é a forma
de chegar a ele.

quarta-feira, janeiro 07, 2026

A caminho de casa

Lembro-me de cada casa que guardei no olhar
pelas caminhadas noturnas que fiz a sós, em silêncio.
Eu as contemplava à distância, como quem reconhece algo
sem saber o nome.

Eu não as via.
Eu as sentia.

De mim não emanava curiosidade pelo que as habitava.
Eu tinha certeza de que ali havia vida,
como um organismo que respira calmamente.

Não me sentia só quando as observava de longe,
nem desejava entrar para conhecer.
Eu as reconhecia.

Era um alívio silencioso saber que a vida
podia ser calma em algum lugar,
simplesmente existindo.

Caminhei na escuridão guiada por luzes
que não ofuscavam nem chamavam.
Elas apenas luziam, permaneciam.
Eu as chamava de paz e sossego,
sem ainda sabê-las.

Isso me mantinha naquele instante
da eternidade finita da vida.

Eu não queria alcançar, tocar ou ter.
Eu queria retornar para casa,
para minha casa,
aquela sem localização específica.

A casa que me aquietava
sempre esteve em construção aqui dentro,
com os materiais que eu tinha em mãos:
estrutura óssea, tinta sanguínea, argamassa cinzenta,
gerando forma, contendo espaços, margens, limites, cobertura.

O corpo sangrava quando não havia paredes.
A luz do mundo invadia o interior
vazio de janelas.

Escrevi erguendo contornos
para conteúdos ainda sem forma.

Eu caminhava à noite admirando as luzes
que escapavam das janelas no silêncio das ruas.
Eu estava a caminho de casa.

Agora me encontro a morar
onde sempre contemplei.
Onde o fogo não se apaga,
a mesa é posta sem pressa,
o silêncio não é vazio
e a vida não precisa se justificar.

A sensação de continuidade tranquila
e permanência que me tocava
numa casa vizinha, numa rua escura,
num país estrangeiro, numa janela iluminada,
era presença.

Há vida que não sangra para existir
e presença que não invade.

Em minha casa a luz está acesa,
não para chamar, nem para ser vista,
mas para existir.

Aqui sopra de leve uma brisa suave
que levanta a saia das cortinas
num movimento tranquilo,
como o vento que pincela as encostas
e desenha relevos.

Hoje, quando escrevo, acendo a luz de casa.
E quem sabe alguém, em outra noite, passe
e sinta a mesma paz que um dia senti.

Ou talvez seja eu mesma a passar,
reconhecendo o que sempre me buscou.

terça-feira, janeiro 06, 2026

Afinidade

O que em mim reconhece
o poeta anônimo,
o homem ajoelhado em silêncio,
o Cristo que cai,
a criança que ri,
o marujo que se despede,
os sonhos calados,
os corpos a sós que dançam,
a música interior,
o valor invisível,
a criação sem plateia,
a existência silente.

Afinidade.

segunda-feira, janeiro 05, 2026

A Criação de Deus

Quando criança, vi um homem idoso
ajoelhado na igreja.

Orava em silêncio,
sustentando-se apenas
pelo gesto de juntar as mãos.

Vertia fé
e sofrimento.

Quem sabe pedisse um milagre.

Ele emanava
entrega,
tristeza,
vulnerabilidade.

Aquilo me tocou.

Comecei a chorar
sem saber por quê.

Chorei o meu choro
e o choro dele.

Minha mãe não entendeu.

Eu também não soube explicar.

Apenas senti.

Levantei
e saí da igreja
para esconder a dor
que sentia
por ele.

Sempre fui tomada
pela condição humana.

Pelo estado de espírito
que não se delega.

Deus me alcança
pela criação.

Venho Dele
e dela sou parte.

Realizo-me
na existência,
na experiência
de ser
aquilo que sou.

Humana.

domingo, janeiro 04, 2026

O poder que emana do amor e não da dor

Não é o Cristo divino
que me atravessa.

É o homem
que cai
sob o olhar da mãe.

Ela acompanha.
Ama.
Mesmo na dor.

O homem que tropeça,
assistido pelo amor.

Vulnerável,
acolhido
pela dignidade
que permanece de pé.

O Cristo que me abraça
e me acolhe
não está crucificado.

Está humano,
livre do sacrifício.

Vive no gesto comum:
no carpinteiro,
no menino que ri,
na verdade dita em voz alta,
no choro,
na festa,
no olhar que reconhece
a injustiça.

Ele mora
no humano.

E o ama.

Jesus sofreu
porque viveu.
Amou.
Esteve entre nós.

O calvário
foi apenas o recorte
de um homem
que atravessou
uma existência inteira.

Desço sua dor do pedestal.
Guardo no coração o amor.

sábado, janeiro 03, 2026

Tríade Silenciosa

Certo dia assisti a uma declamação
e fui tocada por uma sensibilidade rara.
Há algo de quase mágico
quando a voz encontra o poema,
ou seria o poema encontrando a voz?

A distância entre quem escreve
e quem diz
desaparece.

A palavra, atravessada por compreensão e entrega,
ganha pausas, inflexões e silêncios.

A voz não explica.
Explicita.

Fundem-se os limites entre
quem declama
e quem escuta.

Forma-se uma tríade silenciosa:
aquele que escreveu,
aquele que diz,
aquele que ouve.

Três estrelas orbitando o mesmo eixo.

No rosto, cada significado é vivido.
O sabor de cada verso é sorvido,
não recitado.

A emoção salta entre estrofes
e nos conduz para dentro da mensagem.

Não assistimos.
Participamos.

Por um instante,
o poema pertence a nós todos.

Ele acontece.
E, ao acontecer,
nos toma.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

Fermentação

Eu, que bebi dos destilados fortes,
analgésicos do fundo de um fosso,
à sombra estreita,
escorri pela borda da taça,
copos e garrafas,
em vazamento contínuo
que me abria fendas
e me vestia de vendas.

Sempre mareada,
embotada,
isso era estar embarcada
em delírio coletivo,
encarnada em devaneios.

O febril disparate
conduziu-me às margens espumantes
do vinho da vida em fermentação,
energia que sobe, viva e criativa,
onde revelações borbulham
do fundo à superfície.