quarta-feira, dezembro 31, 2025

Usuários

Bem-vindos ao mundo dos usuários.
Nele, vamos nos divertir e nos utilizar.
O foco está no uso, não na identidade.
Não nos interessa quem você é;
interessa-nos sua função de utilizar.

Sua existência mora na função.
Então, vamos fazer funcionar.

Usuários nervosos, ávidos de consumo e novidades.
A atenção pertence às superfícies brilhantes dos smartphones.
Nelas, vamos deslizar.

Sinto a angústia dos olhos correndo de cá para lá,
perdidos na tela desse mar azul
em hipnose coletiva.

Dedos inquietos a rolar
um novelo sem fim.

Vida em cena.
Projeções em telas
que nos enquadram em proporções matemáticas,
em cenas que se querem mostrar.

Tenho um perfil, logo existo.
Mas como fica o que não consigo editar?

Dessa terra de ninguém
ou dessa terra de ninguéns?

terça-feira, dezembro 30, 2025

Barqueiro

A vida trouxe à margem um barqueiro ambivalente, que oscila sobre a superfície do mistério das águas. Ele atravessa, em seu pequeno barco de madeira, um conteúdo oculto gestado no fundo de águas profundas.

Não saberia dizer quantas vezes sua embarcação naufragou, pela má distribuição de pesos que não eram seus sobre o assoalho já desgastado, cansado de acompanhar outros barcos tão perdidos quanto ele.

Por anos à deriva, preso a um vai e vem infinito de fantasias, delírios coletivos de remar sem direção, sua força esvaiu-se a serviço de passageiros desorientados.

Seus olhos tornaram-se opacos, cobertos por uma fina membrana leitosa que lhe velava a visão e distorcia as paisagens. O cenário permanecia sempre enevoado e, enjoado, ele cessou de remar e parou no cruzamento:

Olhos que se fecham para não ver
e olhos que se fecham para ampliar os sentidos.

À distância, o cheiro de lenha no fogo, o som cadenciado do trepidar, os estalos suaves da madeira que se expande no calor, enegrecida, incandescente, chamaram-lhe a atenção.
O fogo que ilumina não consome.

Dançam as chamas que se aderem à madeira, a mesma matéria que sustenta o assoalho de seu barco e as árvores que dão vida às margens fluviais. Dos olhos, uma nascente. Deles, o brilho amarelo do fogo: verdade que se revela.

A mente sopra ao coração:
Não posso mais te proteger daquilo que você já sabe.

Ao despertar deste sonho, seu corpo precisará se acostumar à materialidade das coisas.
Ele não abandona o barco, mas redistribui o peso, equilibrado a partir do centro.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Nuvens passageiras

Sento-me ao lado da tristeza, do medo e da mágoa e faço um minuto de silêncio pelo que jaz eterno na existência. Tudo isso são apenas nuvens que passam no meu céu; eu as vejo, há muito as interpretei e agora só as deixo passar pelo meu campo de visão. Caso um dia precise chorar, deixo-as chorar.

Estou aqui, mas isso não me define.

domingo, dezembro 28, 2025

Chão da Vida

Quando criança, eu gostava de me deitar no chão para olhar para o céu e ver as nuvens passarem. No começo, elas simplesmente passavam e nada se passava em minha cabeça. Eu e as nuvens éramos como éramos. Nada havia entre nós: nenhuma questão, reflexão, busca ou significado.

Tudo se resumia ao meu corpo e aos sentidos que o localizavam no tempo e no espaço do meu mundo. Ele era meus olhos, minhas mãos, meu nariz, meus ouvidos e minha língua, envolvidos em pura presença.

Certo dia, eu e meu primo decidimos dar nome às formas que víamos refletidas nas nuvens. Apontávamos cavalos, elefantes, macacos, martelos, rostos, carros, dando sentido e resposta ao que não pedia resposta. Mais tarde, passamos a nos questionar sobre as nuvens no céu: como se formavam, como se precipitavam em chuva, o porquê de suas cores variadas.

Nossas mentes voaram longe com as nuvens que almejávamos decifrar. Os pensamentos eram pipas dançando no vento, pedindo linha e mais linha, subindo cada vez mais alto.

Alcei voos tão altos que quase não conseguia mais descer das alturas de onde falam os símbolos e as buscas. Meu corpo permanecia deitado no chão, enquanto minha mente subia ao céu em direção ao espaço sideral.

Estrelas, astros e corpos celestes me convocaram acima do solo onde jaziam meus semelhantes, tripulantes desta nave Terra. Minha nave orbitou espaços distantes, mundos estrangeiros, mistérios insondáveis, enquanto meu corpo permanecia em terra, esperando o pouso.

Esperei até que se esgotassem os limites do explorável. Deixei minha mente voar até encontrar os sentidos que a fizessem retornar para casa. Quando voltei, senti-me deslocada, como alguém que, após longa ausência, experimenta o desnorteio do pouso: os pés inseguros, como se tivessem esquecido a sensação do corpo no chão.

Assim se desenhou a trajetória de uma nave, de um navio que navegou o coletivo de todas as coisas alienígenas e nativas que nos situam na humanidade e para além dela. Voltar ao estado de origem revelou-se também uma jornada distante para dentro de mim.

A mente escapou, mas agora quer voltar. E o corpo, tudo o que ele pede é presença. Depois de ver o céu, a vida pede chão.

O mundo está para mim assim como eu estou para o mundo.

sábado, dezembro 27, 2025

Gato Limiar

Toca baixinho o som do amanhecer,
calando os ruídos que pedem resposta.
A aura do que me chama
estanca o movimento frenético da mente.

Essa presença,
ancorada no tempo de agora,
está sentada diante do portão.

Não entra.
Não parte.

Um grande gato preto,
cuja postura recolhe em si
toda a minha atenção.

Eu o olho, surpresa — reconheço.
Ele olha.

Mantém calmos
os olhos que atravessam meu horizonte.
Permanece.

Aguarda na borda do que sou:
inteira, silenciosa, atenta.
Faro encarnado.

É-me familiar
seu olhar noturno, instintivo.
Há algo em mim
que sabe olhar

sem se perder. 

sexta-feira, dezembro 26, 2025

Compasso interior

Carrego em mim tudo aquilo que prezo:
o equilíbrio da caneta nas mãos
que compõem o canto
e o arranjo de suave vibração
expresso em palavras e orações.

Minhas orações não são mantras entoados,
mas sutra na pele.

Não rezo para algo que mora lá fora;
rezo sendo tocada por Ele.

Me ofereço como instrumento no qual vibram
as notas de um acorde maior,
sou corpo afinado
para que o som aconteça.

Desafino, saio do tom,
escorrego nas notas;
respiro nas pausas,
realizo intervalos.

Confio na música que toca por dentro.

Mas há momentos em que o mundo
está desafinado demais
para entrar no compasso.

Respeite o tom.

Quando a luz mergulha na terra,
a música não para.
Ela pede lugar.

Sigo a tocar
sou melodia.

Minhas sensações
são canções de diversos estilos.
Minha vida é partitura
de um fluxo sonoro
que reverbera.

quinta-feira, dezembro 25, 2025

O Cristo que me habita

Cristo foi equivocadamente tomado como o arquétipo do cordeiro sacrificado pela salvação da humanidade, mas ele não nos ensinou a nos sacrificar. Ele nos desperta para o nosso poder, para a responsabilidade sobre nós mesmos, sobre o amor que brota do nosso centro e, através dele, pode irradiar e contagiar o mundo. Cristo nos ensinou a autonomia e essa foi sua maior prova de amor.

Se for preciso que eu carregue o peso de uma cruz, que seja o peso das minhas escolhas, o peso que me forma e me define, não o de sacrifícios impostos.

Meus pés estão feridos, cravados em espinhos e pregos de um caminho em que me apressei, saltando adiante sem perceber o que realmente importa. Ainda assim, eles me sustentam, me ancoram, me lembram que posso caminhar.

Minhas mãos guardam as cicatrizes das reações impulsivas, mas ainda conservam a força da criação, daquilo que constrói e transforma.

Esse é o Cristo que me habita, não aquele que salva, mas aquele que ilumina o caminho, mostrando a trilha que conduz à verdadeira salvação, aquela que nasce de dentro, da escolha consciente e do amor que cultivamos.

quarta-feira, dezembro 24, 2025

Palitos Gina

Palitos são o que há de mais essencial em celebrações.

Num único eixo,
tomates, queijos, azeitonas, presuntos
se encontram.

Diferenças atravessadas
por um gesto simples.

O que era disperso se alinha.
O excesso se organiza.
O caos ganha forma
e se oferece ao paladar.

Pequenos, quase invisíveis,
sustentam encontros.
Unem sabores que jamais se tocariam
sem esse fio mínimo.

Vieram do banal.
Da higiene bucal.
Do gesto rápido,
da correção do incômodo.

E sem alarde,
se transformaram.

Hoje habitam mesas,
marcam presenças,
ocupam o tempo da descontração
em que ninguém tem pressa.

Nada permanece fixo.
Tudo se desloca.
Do uso ao símbolo,
do descartável ao essencial.

terça-feira, dezembro 23, 2025

Manifesto íntimo do olhar

Antes, o gesto acontecia
dissociado do sentido.

Agora, ele se sabe
como um olho que desperta e se vê.

O involuntário se compreende
e se reconhece, sem precisar se explicar.

Embarco novamente em minha nave,
máquina do tempo.
Viajo para o passado,
não para reparar,
consertar
ou salvar,
mas para não mentir sobre o que existiu.

Todas as coisas têm história.

Gosto de ver o que silencia,
vislumbrar o que jazia oculto.
O comum me é peculiar
pelas nuances que não notamos.

Quando a invisibilidade se revela,
sinto a mágica diante dos meus olhos:
ver aquilo que quase ninguém viu,
transmutar o ordinário,
o desprezado,
em algo único e especial
soa-me como um poder alquímico que poucos têm —
revelar a beleza do invisível.

É de delicadeza rara
o encanto por tais coisas a me embalar,
a me deixar abraçar pelo anonimato
que exala presença
genuína e rara de se encontrar.

A sutileza autêntica me detém.
Quem não disputa o olhar
é quem me convoca.

Me atrai o despercebido.

Gosto de olhar para aquilo
que não espera ser visto,
imaginando-me uma descobridora
de terras inexploradas,
garimpeira de tesouros
sob o chão que todos pisam.

Vestir-me do olhar absoluto,
registrar a realidade das coisas,
me empolga:
atravessar o imperceptível,
erguer o véu
do que sempre esteve lá.

Notar a gradação discreta do entorno,
surpreender-me com o de sempre:
o perfume suave
que se insinua no ar,
constante e fugidio.

Tudo isso me banha em calma e sossego,
num suspiro de alívio
frente ao peso das urgências e imposições.

Agrada-me a fala mansa
do que tem presença:
essa cor transparente
que se deixa atravessar.

segunda-feira, dezembro 22, 2025

Inanimado

Faz-me rir, gargalhar
e mesmo estranhar
essa minha mania
de animar o inanimado.

Dar vida ao que não tem vida,
como sujeito a dar voz ao objeto.

Afinal,
aquilo que é
também existe.

O caráter impessoal me é pessoal,
porque ofereço destino
à matéria das coisas.

Coisas à margem do olhar,
objetos multiplicados
que desaparecem no excesso.

Não é curioso
tropeçar na invisibilidade
que está à vista,
mas fora do pensamento?

Costuro partes
numa paisagem das coisas
só para dizê-las vivas
no esquecimento.

domingo, dezembro 21, 2025

Cronos

Vejo um bando torpe em movimento constante
que não sai do lugar,
girando feito peões sobre si,
eternamente, sem cessar.

Meus olhos se cansam de olhar
e ver como agonizam em órbita errada;
eu, que os vejo, me vejo
como num espelho a me assustar,
presa ao mesmo campo gravitacional.

O efeito implacável do tempo,
a repetir-se,
nos enfraquece e nos desgasta
feito metal corroído,
a ranger, estalar,
no tom cinza da vida.

Cronos, entidade incorpórea:
sem que percebesse, deixei-o
me abraçar pelas costas;
hoje sou eu quem vai a ele de encontro
e o abraça de frente.

Seu zunido, correndo pelos trilhos,
num grito agudo estampido nos ouvidos,
parecia querer me esmagar.
Deixo-o se achegar.

Dentro do cenário,
ver não é o bastante:
é preciso deixá-lo atravessar-me,
feito espada a me cravar no peito
sua lâmina afiada.

Isso é se expressar.

Corra — pode correr —
o sangue da vida,
até que se esgote o último fio,
restando o eco
que reverbera a imensidão
da finitude deitada sobre mim.

Irei testemunhar tudo isso
sem nada esperar ou pedir.
Ofereço apenas minha voz,
encarnada nestas duras palavras
que constatam
e registram
seu existir.

sábado, dezembro 20, 2025

Caminhe até Ele

A maior conexão com Deus, ou com a ideia do transcendente, não se dá confiando em uma ajuda externa superior, mas contando consigo mesmo. Sustentar-se é aproximar-se. Quando se espera, se distancia.

Para isso é preciso crescer, deixar a infância, soltar o papel da criança que aguarda pelo pai, chorando por salvação. Não espere que Ele venha; caminhe até Ele.

O transcendente não é alcançado pela dependência, mas pela autonomia. Isso não nos enfraquece; nos fortalece.

Experimente não implorar que Ele realize seus desejos, mas adquirir força para atingir o que for possível e desenvolver discernimento para enxergar o melhor caminho. O maior presente não é aquele que se ganha, mas a presença que se mantém no presente. 

sexta-feira, dezembro 19, 2025

Suspensão

Ao fim da tarde, uma sensação de cansaço repentino pousou sobre mim. Não era desânimo, tristeza ou desesperança, nada que pudesse ser nomeado ou diagnosticado.

O rosto miúdo, pousado sobre as mãos em concha em busca de sossego, reflete uma exaustão interna de tudo o que se foi e agora retorna lentamente para dentro.

O efeito anestésico cessou. Restou um reconhecimento ainda confuso entre vislumbre e desorientação, como um braço que acorda formigando, incapaz de se mover. Fico à soleira, pés ainda descalços, reconhecendo o chão antes de atravessar.

Nem tudo o que vejo precisa ser dito; às vezes, só preciso repousar. Sustentar a percepção num corpo sem chão, avançando sobre um novo espaço.

Suspensão: após espalhar fragmentos meus porta afora, como um espirro do espírito a expulsar algo que irrita as vias do respiro, partes minhas que considerei ameaça agora batem à porta, querendo retornar à casa.

Muitos deles calei, tapei-lhes a boca num impulso de medo do que poderiam dizer. Outros feri ao fingir que não existiam. Quebrei-os, caminhei sobre seus cacos, feri os pés. Juntos sangramos, como se a indiferença não deixasse cicatrizes.

Eu, que também existo, desejo ouvir, dialogar, receber, reconhecê-los como parentes distantes que retornam após longa ausência, trazendo histórias e aventuras remotas, incendiando-me o coração com curiosidades diversas.

quinta-feira, dezembro 18, 2025

Mapa Invisível

Minha mão infante moldava o barro
das formas desconhecidas e de seres estrangeiros,
num desconhecer e reconhecer
que se juntam em uma só coisa.

Pôs-me em contato com o inominável,
o numinoso.

Desenrolou-se lentamente,
sem que eu pudesse notar,
um novelo imbricado de destinos cruzados.

As peças soltas
de um imenso quebra-cabeça
se organizaram e acordaram,
desenhando o mapa
de uma paisagem maior,
em movimento irresistível,
como se eu escrevesse
para trás e para frente no tempo,
revelando uma natureza atemporal.

Uma sensação entre escrever e descrever
o crescer das árvores ainda dormentes em sementes,
cujas frutas amadurecem de repente
após longo período de gestação invisível.



quarta-feira, dezembro 17, 2025

Sol nascente

Cavo do peito um suspiro pedindo 
sossego para a fúria de arremessar-me contra o cercado das ideias.
Os passos inquietos do espírito
que se remexe no túmulo,
em desalento,
rezam baixinho sua íntima oração:

Quando a paz reinar em meu reino
meu impulso por sangue irá se esvair.
Soltarei o arco dos braços defensivos
diante das coisas
e os pousarei, relaxados,
ao longo das pernas,
em alinhamento.

A cadência dos passos será evidente,
coração e mente, coerentes,
a caminho do sol nascente.

terça-feira, dezembro 16, 2025

Orbe interior

Eu, que me considerei forasteira,
vejo agora que sou o próprio cerne,
a personagem principal
da minha própria história.

Eu, que com a venda nos olhos
orbitava um planeta estrangeiro,
vi-me enfim
em meu mundo nativo.

Sou sol
e mundo —
e eu.

segunda-feira, dezembro 15, 2025

Lei da conservação da vida

Nada se perde. Nada se cria. Tudo se transforma.

Lavoisier formulou como lei da matéria aquilo que, ao longo da minha jornada, reconheci como lei da vida. Aprendi isso no corpo da minha história.

Nem toda escolha é eterna. Muitas são parte do caminho — e, como caminho, não permanecem. Cada qual tem seu tempo. Quando cumprem sua função, podem ser deixadas ir.

Das cidades e das pessoas que amei escrevi-as em mim, não porque fossem destino, mas porque foram capítulo.

Territórios de partida. Pontes. Mas não a morada final.

Ali vivi lealdades invisíveis, acordos silenciosos, histórias que se gastaram até caírem por si. Decidi partir para não me abandonar.

Houve amores sinceros, transformados em gratidão e costume, adaptação e validação. Restando a obrigação. Despedi-me dela. Sem barulho.

Partir foi virar a página com dignidade. Sem perder. Sem ganhar. Cumprir.

Aprendi que não são as coisas, nem os lugares, nem as pessoas em si — mas os significados que lhes dou.

O que não cabe mais, libero. O excesso, doação. O essencial, necessaire.

Carrego pouco. Mas carrego o vivo.

Nem toda escolha é raiz. Muitas são travessia. E pontes não se habitam: atravessam-se.

Decisões têm tempo. Vínculos têm função. Lugares são capítulos.

Não preciso transformar o passado em prisão, nem o futuro em dívida.

Posso ir sem me perder, ficar sem me aprisionar, amar sem me abandonar, partir sem me rasgar.

O mundo deixa de ser ameaça ou promessa. Torna-se passagem.

Nada do que foi vivido se perde. Tudo muda de forma. Quando aceito essa lei, o apego cede lugar à confiança.

Já não preciso segurar lugares, histórias, pessoas, identidades.

O essencial não se perde na transformação.

E como na química, o processo é irreversível: depois de visto, não se desvê.

O que permanece em mim não é o passado, mas a capacidade de atravessar sem me deixar para trás.

O espaço ao qual sempre retorno sou eu mesma. O único ao qual pertenço. E do qual não me ausento por nada nem ninguém.

domingo, dezembro 14, 2025

Dramaturgia narcísica

Na dramaturgia narcísica da vida comum,
o ego projeta valor em objetos externos,
geralmente artificiais,
como se fossem capazes de preencher lacunas internas.

Dá-se mais à réplica do que ao original que a inspirou:
esta é a beleza morta das flores de papel,
a ausência de frescor das frutas de cristal,
a imitação dos sabores artificiais.

Deseja-se mais aquilo que não alimenta, mas enfeita,
do que aquilo que nutre e dá vida.

Projeta-se valor sobre imagens de desejo vazias,
forjadas para seduzir e dispersar.

Tornamo-nos caricatos, borrados,
sujeitos insípidos, encenados,
arrastados pelo coletivo em buscas infinitas,
presos a simulacros, performances rasas,
que nos conduzem a lugar nenhum.

sábado, dezembro 13, 2025

Alma marítima

Por vezes, pergunto-me se o inconsciente navega pelo tempo de forma não linear
e, diante disso, traz do futuro mensagens,
fragmentos de memórias ao passado,
tornando o eu antigo capaz de dizer algo impossível naquele tempo,
mas possível em um momento futuro.

Quem sabe se nomes atraem destinos ou destinos atraem nomes,
de modo que o nome das coisas conduza o andar da carruagem
ou que as próprias coisas determinem seus nomes, numa pré-existência.

Se o nome que me deram tatuou na alma meu fascínio pelo mar,
ou se esse encanto já era a paisagem do meu próprio ser, em essência,
e atraiu para mim o olhar desse título que me acolheu tal como sou.

Quem sabe Deus trouxe, na música soprada aos ouvidos dos meus ancestrais,
uma sina que me uniria de corpo e alma inteiros.

Por definição ou acaso, moro no espaço íntimo das embarcações
que vão e vêm mar afora, mar adentro,
pairando sobre a natureza das velas hasteadas,
guiadas pelos ventos de um oceano profundo e permanente,
de irrevogável destino,
essência marítima que me move
e me conduz adiante pelas águas salgadas, calmas e revoltas.

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Coboio fantasma

Pelas manhãs
quando o silêncio recua diante do canto dos pássaros que despertam
ouço ao longe o ruído indistinto de um comboio pesado
atravessando o tempo do alvorecer.

É um barulho fantasma
um não-existir das linhas férreas ausentes do chão da vida.
Ele carrega o revolver condensado da mediocridade cotidiana
e vem de um espaço liminar
entre o fim da noite
e a promessa do amanhecer.

Desaparece quase imperceptível no ar
assim que os pensamentos se firmam na terra
e os afazeres tomam conta do dia e das horas
e já nos encontramos todos tomados
pelo ordinário da matéria que nos cerca.

O misterioso som me acompanha
nos bastidores da vida
mas dele me esqueço
até reencontrá-lo no eterno retorno rotineiro dos dias.

Sempre me deixo levar ao longe
rumo ao seu sumiço costumeiro
e ficamos assim em valsa
indo e vindo
dançando entre inícios e fins.

quinta-feira, dezembro 11, 2025

Primavera das vivências

O perfume nostálgico exalado pelos corredores do que fui
me convoca a um tom mais quente de compreensão
do tempo das coisas, após os tropeços do destino.
Embriões prematuros prometem, mas não cumprem.
É preciso acolher o processo da vida em etapas:
o descer das escadas,
o vagar pelos corredores,
o abrir das portas,
a primavera das vivências.

Migrando do ruído para o som,
é preciso atravessar o silêncio,
tomar fôlego e seguir paciente,
subir novamente, erguer a vista,
aceitar mais uma vez o simples viver,
regar a terra, dar sustento aos pés,
acender a seiva pela minha espinha
até o topo das árvores que me florescem.

Minha narrativa foi amarrada a um cercado para conter o gado,
e escrever foi a forma que encontrei para me transformar.

quarta-feira, dezembro 10, 2025

Sublimação

Sinto, por vezes, uma sensação que me invade, como o despertar de um vulcão adormecido, prestes a entrar em erupção. O calor aumenta de dentro para fora, em ondas, como um magma precipitando-se do centro da Terra. Sobe uma inquietação, uma aflição que me tira o sossego, situada entre a dor e o prazer ansiado de algo que deseja arrastar o que está fora para dentro, um ímã a puxar o movimento que quer nascer.

Lava quente, líquido incandescente, libido em estado bruto, desprovida de sentido, agita-se buscando escape, liberando a tensão do conteúdo denso.

O movimento ascendente da energia que se evoca e se espalha de baixo forma uma pressão que irrompe em um estampido no ouvido, sensação similar à pressurização sentida em grandes altitudes, seguido de um zumbido insistente que se dilui aos poucos à medida que libero o fluxo de pensamentos em palavras e ideias textuais.

Quando o conteúdo toma forma e sentido à medida que se solta, vejo sublimados e canalizados os impulsos crus, vindos do caos não integrado do meu poço fundo. Direciono e miro o alvo de uma energia disforme que poderia muito bem me destruir ou dispersar, com algum esforço apreendido ao longo do tempo.

terça-feira, dezembro 09, 2025

Arcano número zero

O desconforto e o descompasso entre mim e o mundo tornaram-me íntima da melancolia, esse território pessoal escolhido para deslizar sobre a superfície das coisas e evitar que o atrito interno me impedisse de avançar para longe. Um estado de espírito que me guarda em seu invólucro silencioso, uma membrana entre eu e o outro, entre o ser e o adaptar-se, entre o viver e o sobreviver — uma cortina entre mim, a plateia e os bastidores.

Por trás das estruturas arcaicas que me moldam, nem mesmo eu fui capaz de olhar e ver que fiz dela meu escudo, para me manter suspensa acima do abismo de tudo aquilo que considero separado de mim. Corda bamba de ilusões.

Agora, com o desanuviar do pensar, vem o mal-estar após a longa embriaguez da mente dissociada. Surge a hesitação inicial própria da sobriedade que se segue — um estado ainda desconhecido, perdido, sem direção. Sento-me perplexa diante de sensações inéditas; o chão, de repente, me escapa, e lá estou na iminência de, mais uma vez, recriá-lo aos meus pés, simplesmente respondendo àquilo que os olhos já não podem ignorar.

É preciso alquimia: transmutar o reino etéreo dos pensamentos em ouro líquido, para irrigar as cavidades esquecidas do coração e materializar o estado do ser na realidade objetiva do mundo, alinhando-me à minha verdade e trazendo-me de volta ao calor da vida.

Afinal, mudei-me de casa. Arcano número zero.

segunda-feira, dezembro 08, 2025

O som do Tao

O Tao não se define, mas, se tivesse som, nasceria como um tom liminal,
um acorde leve que não se impõe, apenas vibra no ar,
uma nota suspensa sem começo e sem desfecho.
Desliza entre frequências, audível e inaudível,
como um sopro que atravessa frestas
e redesenha a paisagem em um tempo indefinido.

É a música que surge quando ninguém toca,
o silêncio que compõe o infinito,
a respiração do todo que nos atravessa.

Cria uma ambiência, um pulso entre-lugares,
um campo de transição onde tudo paira.
É sensação pura, névoa sonora que conduz
ao limiar entre vigília e sonho, matéria e ideia, presença e eco.
É neblina que envolve e apaga contornos.

Timbre etéreo que não se ancora, apenas ressoa,
como ondulações na água que se expandem.
Batida sutil, chamado longínquo,
calma que afrouxa margens e dissolve limites.

O tempo dilata, respira, atravessa,
e o clima se abre em sinergia, ascensão e mergulho.
O som se espalha na multidão em dança harmônica,
mesclando o diverso e o íntimo em ritmos alternados.

É uma frequência que pulsa dentro e fora,
matriz sonora primordial, sutra vibratório do Tao.
Um som que não finaliza, apenas se dissipa no ar,
como a última nota de um instrumento que continua tocando por dentro.

domingo, dezembro 07, 2025

Batismo da Alma

Distante, vejo uma nuvem chorar,
parindo dores condensadas.
As cores densas se precipitam
sobre os clarões elétricos
que rasgam o firmamento.

O céu, que ardeu o dia todo, enfim se despede
em meio às luzes esparsas
que beijam a terra em estrondos
e me abalam por dentro.

A sensação que me esbarra na pele
sopra suave,
para depois revelar sua outra face:
o açoite dos ventos nas janelas.

O mundo cotidiano aperta o passo,
temeroso do choro celeste.

Enquanto eu, quero me encharcar,
sentir o arrepio na espinha,
a revoada dos cabelos.

Deixo-me ao relento
e recebo do alto
um afago.

A natureza do tempo me comove;
paro de correr com os outros
que buscam abrigo
na pressa que se esconde da chuva.

Eu, não.
Prefiro dançar sob ela
e batizar minha alma.

sábado, dezembro 06, 2025

Poética subterrânea

Nessa vida, bebi ávida das artes e das sinfonias que me embalaram,
encontrando nos livros companheiros ébrios de sarau
das minhas noites e matinês.
Mergulhei no universo dos símbolos e oráculos
numa escavação profunda do meu subterrâneo.
Desci com eles ao ventre da minha própria natureza,
oculta nas formas e fatos mundanos,
para encontrar o mistério do que sou.

Meus professores foram os erros e acertos da vida,
o que me permiti fazer e o que me autorizei sentir acima do intelecto,
a coragem do que deixei escapar pelos portões de casa para se revelar.

A verdade que tanto mereço é a minha própria.
Por que minha voz não alcança o tom do que sinto?
Um humor íngreme como o meu deixou-me girando na ciranda da vida,
sofrendo perseguições internas, até que meu corpo exausto se cansou de correr.

Com os olhos quase fechando, quase desistindo,
mirei a ameaça de frente: a ignorância.
Silenciosa, ergui um gesto rebelde de revolução pessoal.
O carrasco que vinha ao meu encalço se aquietou, calou-se.
Dei-lhe as costas e parti rumo a outra realidade.

sexta-feira, dezembro 05, 2025

Pescador de almas

Ele fala por mim,
expressa o que sinto e não revelo,
como se o mistério se desvendasse em suas palavras.
É o espelho no qual me vejo: assusta-me e atrai-me,
água sagrada derramada em meu vaso vazio.

Um grito que me chama,
lente convexa que amplia minha visão sobre mim.
Ele é Sol no zênite, fogo que se consome,
e eu sou o éter que se dissolve, sentido sem forma,
propósito não vivido.

Ele se apropria de seus infinitos eus;
eu busco a mim e não encontro —
ou encontro e não reconheço.
Meus eus não conversam: ilhas que se desconhecem.

Ele me revela,
empresta-me voz, traduz-me na língua-mãe da minha alma.
Expõe minhas personas escondidas, silenciadas, dispersas.
Toca em mim o que nem eu toquei.

Arranca de mim o indefinível,
materializado num homem estrangeiro,
brilhante como estrela de inverno.
O impossível que não alcanço me alcança tão facilmente.

Como pode a morte me encontrar na esquina?
Vi-me nua diante dessa chama:
como pode alguém que não eu despir-me para meus próprios olhos?

Não é o homem — o homem morreu.
É o símbolo vivo, Sol no meu céu,
farol da minha busca interior,
do diálogo dos meus habitantes dispersos.

Ele é o que está fora e quer vir para dentro,
a palavra que meu silêncio esperava,
a flecha certeira que diz do que sinto mais do que penso.

Escreveu para mim e para tantos que, no futuro,
aguardávamos por suas palavras viajantes
que nos despertariam para nós mesmos.

É mar que me invade e me inunda, pescador de almas,
trazendo do fundo o alimento que nos nutre por inteiro.
Pessoa é o portal pelo qual atravesso.

 

quinta-feira, dezembro 04, 2025

Campo Sem Caça

A mulher segura uma cesta sem frutos.
Observa, não age,
forma sem conteúdo,
terra estéril.

A ela o nobre oferece um sacrifício,
mas não corre sangue.
Nada acontece.
Tudo permanece suspenso
em eterna iminência.
O encontro não tem vida,
não floresce.

Um cavalo robusto se aproxima.
Ele não é humano,
é do reino instintivo,
puro e verdadeiro,
amor em estado bruto, vigoroso.

Trota decidido em direção ao nobre,
que ergue o arco, desconfiado, ameaçado.
Mas o calor do animal o envolve
e o desarma.

Monta-o e segue a galope
rumo a um campo sem caça,
um homem que, por onde pisa,
não deixa pegadas,
não leva a lugar nenhum,
um ruído que ocupa espaço
com palavras vazias.

Cavalo e cavaleiro retornam,
o nobre de mãos vazias,
o cavalo com corpo e presença.
Ele é tudo o que o homem hesitante não é.

Os frutos estão na vida,
não na imaginação.
Uma união vazia,
uma cesta sem frutos.

Nenhum lugar é conveniente
para aqueles que, acordados,
ainda sonham.

quarta-feira, dezembro 03, 2025

O cortejo do homem inferior à alma

De baixo para cima.
De dentro para fora.
Do ideal ao concreto.
Da morte à vida.
Segue o cortejo do homem inferior à alma:

O que é isso, entre mim e você?
Espaço.

E o que mais?
Distância.

O homem se aproxima.

E agora, o que existe?
Silêncio.

Fixa o olhar na direção do desconhecido à frente:
Tensão.
Confronto.

Desejo.
Você diante de mim sou eu diante de você.

Uma mente afiada poderia me ferir?
A superfície não toca a profundidade; estão em oposição.

Tocado, mas não ferido:
Nos seus olhos vejo refletidas as minhas máscaras.

Receptivo, porém inteiro:
Nos seus, vejo submersa a minha essência.