O amor não precisa de palco.
Precisa de chão.
O amor idealizado brilha,
mas não é ouro.
É ouro de tolo.
Apresenta-se, representa,
mas não vive.
Fica suspenso.
Restrito às palavras,
às imagens,
às promessas.
As paixões pertencem ao teatro.
O amor mora na vida.
O encanto não atravessa a segunda-feira.
As juras não resistem ao silêncio.
O grandioso não sobrevive ao cotidiano.
Ideais seduzem e cobram sacrifício.
Fantasias pedem espera infinita
para um futuro que não chega.
O brilho sobe rápido
e desaparece
quando o chão aparece.
Promessas sem lastro.
Vazias de sentido.
Aprendo a amar
com os pés no chão,
com o tempo,
com a verdade possível.
Cultivo o amor que fica
quando o entusiasmo passa.
Que não grita.
Que não promete o mundo,
porque habita o real.
Volto para casa.
Ocupo meu lugar.
Não busco.
Me encontro.
Não quero intensidades vazias.
Abro espaço.
No vazio,
continuidade.
Não sou escolhida.
Sou a própria escolha.
Este é o meu não.
E nele,
há espaço
para um sim verdadeiro.
O amor que combina comigo,
que sempre gostei de andar descalça.