domingo, agosto 30, 2009

Sorvendo-me

Muito bebi da racionalidade,
Mas não adianta — de todo, não sou racional.
Argumentos bem elaborados, pautados em exímias teorias,
Por certo, não me convencem; resvalam no orgulho cético.
Por pouco, ocupam espaço no vácuo onde sufocam e gritam em desespero.

Eu, por inteira, não sou racional.
Meus atos e convicções são, em grande parte, passionais, sazonais, impulsos irracionais.
Elevações, depressões, erosões em terreno arenoso, pedregoso.

Não sou equação, sou inequação,
Desigualdade insatisfeita,
Valores de parâmetros indeterminados,
Incógnitas irresolutas,
Inconcluso "objeto".

Expressão fiel da natureza,
A quem não se pode convencer,
A quem não se atribuem verdades.

Sorvendo-me,
Transbordando,
Tragada num único gole,
Expelida em uma só onda.

Coração a bombear,
Oração sempiterna,
Que não teve princípio nem há de ter fim.

sábado, agosto 22, 2009

Tear

Num tear estúpido das ideias
Imaginação que se desvanece
Feito fumaça, chuva de verão
Arrabalde de um povoado insano
Livres dos dispositivos frívolos da razão
Forjando utopias
Prometíamos, prometíamos...
Tudo no futuro
E agora que o futuro chegou?
Restou-nos o passado?
Planejávamos paixões
Desejos fluidos jorravam feito cataratas violentas, inclementes.
Planávamos leve entre as montanhas
Deslizávamos num caminho desenhado entre os espinhos
Num roseiral perfumado e dolorido, herdado dos antepassados
Queridos já passados
Antigas embarcações
Em coro a decantar
Agora, que sou eu
Símplice individual
Que pergunta ao espelho
E?
Ascende um suspiro do passado
Para lembrar-me de quem fui
Agora que já nem mais sabia dizer
Quem para o espelho mirava


quinta-feira, agosto 06, 2009

O Hidrante

O hidrante quebra na esquina a jorrar emoção alheia
Uma porção de fio d’água se atira do parafuso
Parece frio desviar-se a esquerda privando-se do “objeto”
Ninguém irá agachar-se a atarraxar o parafuso
Analisar a dureza já gasta o cansaço abatido
Plantado na calçada arrebentada
Um estorvo para os apressados
Sapatos inquietos de lá para cá
De cá para lá toc toc toc
Formigas maçarocas
Os olhos bolas de gude de lá para cá de cá para lá feito sapatos apressados
Ora, vamos lá
Para que serve um hidrante?
Como definir um hidrante?
Que função utilidade teria o hidrante na esquina desta vida?
São tantos hidrantes plantados na calçada
Os hidrantes não estão a vista dos pensamentos
São dois daqui à esquina seguinte, três de lá à rua seguinte
São tantos que nem vejo quantos
Hidrantes no nível da rua
Emergência ambulante
Como que brotando das calçadas
Sangram a se esgotar pelo o ralo
Deitado em esquecimento
Vou-me embora
Olho para trás
Lá está ele
Fica o hidrante na rua
Selado na eternidade
Vem comigo em meu caminho
Ainda me lembro

Se é que se pode esquecer...