quinta-feira, maio 29, 2008
É preciso experimentar
terça-feira, maio 27, 2008
Réplicas Tétricas
Tome direção à esquerda e lá estão eles.
Vire à direita e mais uma vez se depare com os mesmos.
Corra e na boca do lobo estarão.
Pelos corredores, escadas, elevadores, banheiros, nos odores dos ares farejam seus passos.
Observam afastados e no olhar sustentam o brilho do mal.
Seguem exalando energia nociva, trucidando reses.
Promovem o acaso, e ao cabo do caso escapam ilesos.
Por pouco não falam, grunhem sons grotescos.
Vibram horror, causam repulsa.
De suas peles, expelem suores sebosos emplastrados de medo e desalento.
Emitem vapores sulforosos em atmosfera subumana.
Suas vitórias são perdas de si.
Suas perdas são relatos anônimos.
Suas almas são censuras e tarjas, escuras e cruas.
Sua fome é réu primário.
Sua sede é Rei deposto.
Suas vidas são o reflexo do mundo como se passou a acreditar.
Seus fantasmas transcrevem traços fechando-nos em círculos anelares.
Seus corpos inanimados se animam por sopro cético.
Suas imagens são réplicas tétricas.
segunda-feira, maio 26, 2008
Dementes
Morrem suas mentes,
Passos cadentes,
Vontades pendentes,
Dores dormentes,
Sorrisos sofridos,
No peito se estampa a culpa,
Culpa da qual não tem culpa,
Caminha a sombra de impressões de que algo está errado,
Áspero anseio! O que será?
Poderia ser a chuva na janela,
As árvores na calçada,
A beleza morta nas flores do floricultor,
As luzes de natal,
O carro apressado que avança o sinal,
O silêncio da noite,
O nó na garganta,
Os ponteiros do relógio,
Os jornais que voam na ventania,
As notícias de ontem que se apagam em uma poça qualquer de hoje,
As palavras cruzadas,
A previsão do tempo,
A previsão dos signos,
O alinhamento dos astros,
Tolas crendices astrais, donas de um destino previsto, por elas lhe é devorado o futuro.
Deixe-os crer, mas não decidir no que acreditar.
O destino destina-se destemido e revela-se à luz do tempo!
quinta-feira, maio 15, 2008
Ígneo dragão
Assim que emergi, cuspindo todo o
meu ser para fora, marcou-me o voo do dragão celeste.
Foi-se em meu primeiro suspiro de vida, desintegrando-me em átomos.
Dragão da alma, alma de dragão —
a cada bater de asas, expelia fagulhas que se juntavam e incendiavam toda a
minha vida.
Reza o tempo entre as contas do
rosário — uma a uma — até que reste apenas a oração que recomeça.
Das trevas abissais arrasta-se a
serpente.
Seu bote é infalível.
O veneno corre — e o combate se
instaura.
Fecha-se o ciclo de Ouroboros.
No horizonte do combate, queimo o
combustível da minha vida em incessantes golpes do destino; e, quanto mais ela se
esvai, mais forte é o perfume da origem do ser.
Criadora na origem quando me
manifesto, uno-me ao meu próprio corpo — celeste e físico — fazendo jorrar o
sêmen fundador.
Sou o sol no ápice, no instante
em que me preparo para governar o que criei.
Em meu corpo, ornado de escamas
indestrutíveis, as criações se afirmam sem julgamento, até que sejam colocadas
em xeque, conduzidas ao labirinto das escolhas.
Bem e mal, em linha tênue,
desprendem combinações ambivalentes, cadenciadas em versos que canto ao panteão
quimérico de deuses e demônios que em mim se manifestam — e me elevam ao ígneo
dragão.
segunda-feira, maio 05, 2008
Realidade
Expele verdades tal qual pus da ferida.
Descarada mentira estapeia-me a cara.
No correr do dia e ao cair da noite, se diz cumprir o segredo do sucesso!
Nada melhor que um jargão porcalhão!
A vida é uma festa, então pague o ingresso!
Todos a postos, meneia a multidão,
Contundida argamassa.
Certeza dos fatos, aprazível remédio.
Tecnologia em ascendência,
Miríade virtual.
Bem-vindos senhores e senhoras escancaram-se as portas,
Façam de vos nutritivo alimento,
Sinto cheiro de carne... Fareja o caçador.
Os ardis maquinários,
Ornam o espaço e a todos envolve em sutil perversão.
Tenazes sujeitos sujeitam-se ao fim,
O tempo urge em aguda distorção.
Homens formiga, débeis corpos cansados.
Desejos dragados,
Amálgama universal.
Colossal compressor,
Humanidade anônima.
Ardida chicotada.
Poderosa imagética, em esboço amador.