domingo, março 30, 2025

O peso da guia cega

É sempre mais fácil dizer o que fazer quando a pele rasgada não é a sua.
Ser farol, quando os olhos perdidos não são os seus.
Mas guiar o outro, quando não se pode conduzir a si mesmo, é meramente angariar uma plateia de cegos rumo à perdição.


quinta-feira, março 27, 2025

Verbo e Alma

 A arte é minha morada, 
o mundo, meu interior. 
A escrita é meu fôlego,
a palavra, onde me faço coração.

Vira-lata Caramelo

Eis que ela corria no encalço de seu cão, que fugia em liberdade, só folia!
A vira-lata virava a esquina, euforia.
Orelhas ao vento, harmonia.
Nos olhos, pura alegria.
Em plena estripulia!
Latidos estridentes, só energia.
As patas no asfalto, sinergia.
Palpita o coração em melodia.
Caramelo, pura simpatia!

quarta-feira, março 26, 2025

Palavras

As palavras que nascem no pensamento podem morrer presas à garganta. 
As palavras lançadas ao vento podem brotar em narrativas ou se dissolver no espaço. 
As palavras escritas no papel tornam-se imortais, atinjam elas ou não o alvo.


Dicas de como se proteger de ataques gratuitos na internet:

Ao utilizar figuras de linguagem, como a ironia, faça seu comentário e, logo em seguida, adicione, entre parênteses ou colchetes, uma explicação de que se trata de uma ironia, esclarecendo sua real intenção ao empregá-la. Se possível, peça desculpas pelo incômodo de causar desgaste mental ao levar as pessoas a refletirem sobre o tema proposto.

Espero ter ajudado. Sigam-me para mais dicas de sobrevivência no ambiente virtual (isso foi uma ironia, pois me refiro a dar dicas sobre a falta de senso alheio na interpretação de texto; por isso, peço perdão).

Brincadeiras à parte, quero apenas trazer à baila uma reflexão sobre os tempos de tensão em que estamos vivendo. As pessoas estão tão reativas que não param mais para refletir sobre o real sentido do que se quer dizer. Elas não estão mais compreendendo sátiras e ironias, tomando tudo ao pé da letra. Isso reflete nosso imediatismo diante das coisas.

Estamos banindo as figuras de linguagem de nossa comunicação em nome desse afobamento em reagir de pronto, julgar de imediato, sem parar para refletir, interpretar e compreender o sentido das coisas. Falta clareza em meio a esse caos. Estamos constantemente armados, prontos para alvejar aqueles que ousam levantar questões.

O excesso de informação e o aceleramento do tempo têm nos acarretado crises de ansiedade, falta de senso e entendimento.

Pare, respire, inspire-se.

terça-feira, março 25, 2025

Terra dos inefáveis

Santa casa dos impossíveis 
Eu moro na rua dos invisíveis 
No bairro dos imprevisíveis 
Cidade dos indestrutíveis 
Nação dos intransponíveis 
Sob o céu dos infalíveis

Jornada interior

A pessoa mais difícil de convencer é a si mesma.
O trabalho mais difícil de realizar é o interno.
A fuga mais fácil de executar é a de si mesmo.
A libertação mais difícil de conquistar é a própria.
O maior desafio é trilhar a jornada interior.

segunda-feira, março 24, 2025

Mariposas

Estamos sempre em busca de luz, mas e se a única luz que desejamos for artificial?
Quantas vezes voamos em direção a brilhos que não aquecem, caminhos que nos atraem, mas não nos esclarecem de verdade?
Hipnotizados por uma falsa ideia de iluminação, por promessas vendáveis, tornamo-nos meros consumidores de luz.
Nem toda luz ilumina, e nem toda escuridão significa perda. Evitamos confrontar nossas sombras, presos a uma mentalidade pueril, mas esse movimento escapista nos torna ignorantes de nós mesmos.
As sombras estão associadas à luz. Depende dela para se projetar.
Que saibamos diferenciar o brilho que guia daquele que apenas cega.

domingo, março 23, 2025

Rumi

Rumi diz: "O amor faz a terra tremer", 
e Rumi faz a nossa alma tremer. 
Um milhão de rúpias por um pequeno rubi, 
mas nem cem milhões de rúpias têm o valor de um Rumi.

- Homenagem ao poeta Rumi. 

Diga que basta, pela caneta que escreve

A todos aqueles que já se arriscaram a escrever,
a extrair de si o fluido da vida e manchar, com lágrimas, o papel,
a cavar, do âmago do ser, palavras há muito calcificadas no fundo,
a expelir o ar comprimido nos pulmões que retêm o grito,
a bombear o sangue do coração que carrega o choro contido.

Quantas vezes, alvo de zombarias.
Por vezes, vítima de si mesmo.

Diga que basta, pela caneta que escreve.
Diga que chega, pela confissão de si mesmo.

 

sábado, março 22, 2025

Envio a mensagem ao invisível e indivisível de cada átomo meu, sem esperar resposta.
Escrevo apenas para não me afogar.

Navegando em devaneios

Minha mente é como uma folha em branco.
Nela, sopra um assovio baixinho, como uma brisa suave que toca o rosto devagar, sinto o frescor da chegada.
Percebo o movimento dos pensamentos se aproximando aos poucos, moldando a forma que irão tomar e compondo as palavras.
Pouco a pouco, emergem à consciência, emanados do mais profundo oceano abissal das emoções.
Deles brota um som inaudível que viaja ao lado da luz e penetra a camada das sensações, trazendo clareza e beleza ao meu entendimento.
Minha voz liberta a natureza efêmera desses devaneios na superfície das águas e os deixo vagar livres, leves e soltos, até encontrarem uma margem onde possam atracar.
Sigo navegando em devaneios.

sexta-feira, março 21, 2025

Ecos de mim

Chamei por Deus —
e a voz que ouvi foi a minha.
Mirei as sombras bruxuleantes —
e quem vi fui eu mesma.
Do vento, o assovio —
e o arrepio era meu.
Da chuva, a queda —
e o choro era meu.
Do sol, a luz —
e o calor era meu.
Do solo, a fertilidade —
e a vida era minha.

Movimento da criação

O que me move, definitivamente, é a criação:
Poesia que se desenha no caminho, estrada, trilho,
na imaginação – imagem e ação.
Me teletransporto livremente,
na mente, ilimitadamente.
A gravidade não exerce força.
Espírito.
Disperso.
Imerso.

quinta-feira, março 20, 2025

Poesia e melodia

Sou a caneta que escreve,
você é o lápis que desenha.

Sou poesia,
você é melodia.

Sou verbo,
você é ação.

Sou rio doce e tranquilo,
você é mar salgado e revolto.

quarta-feira, março 19, 2025

Contemporânea

A realidade virtual esboça uma vida projetada para fora.
Ela reflete, assim como os prédios espelhados de nosso tempo, uma imagem invertida, subvertida, por vezes pervertida.
O reflexo se limita aos espelhos, a um eu em busca de aprovação externa.
A reflexão, a auto-reflexão, reduz-se ao insuportável: um espaço vazio e desabitado.
Tempo contemporâneo.
Corações de titânio.
Terra plana.
Mundo insano.

terça-feira, março 18, 2025

O ciclo

De mim, restou a nostalgia dos vitrais coloridos de outrora.
Do real, sopra uma brisa quente do verão das sensações.
As imagens que se desenrolam na memória misturam-se a devaneios de um tempo que não aconteceu.
Lembro-me de ter tanto a dizer; hoje, predomina o silêncio diante do tempo passado, atual e vindouro.
A luminosidade do dia, que se altera com o movimento orbital da Terra, acompanha a rotação da consciência em torno do inconsciente, trazendo luz aos pensamentos e sentimentos que vêm à tona.
Tudo isso parece dizer do que sou feita: o alicerce sobre o qual se ergueu o castelo de cartas do que sou ou penso ser.
Estou eu fadada ao movimento cíclico a que todos os corpos celestes estão sujeitos, cujos padrões regulares de deslocamento no espaço seguem incessantes pela eternidade?
Por trás das “loucuras” de que acusam os livres, escondem-se as mais cruas verdades. Abrace o mistério e siga escrevendo.

segunda-feira, março 17, 2025

Ajuste sua bússola

Experimente desviar o olhar que busca lá fora um sentido para o que sente dentro de você e, simplesmente, abrir os olhos para enxergar a situação em si mesmo, a partir do seu espaço interior. Então, você começará a se questionar sobre a tendência "natural" de seus pensamentos ao pessimismo, à sensação de vazio diante das coisas que não dão certo.

Seguindo esse raciocínio, você ajustará sua bússola interna rumo ao verdadeiro sentido que o move: o espaço de si mesmo. Se as velas de sua nau forem posicionadas e impulsionadas pelo vento interno, o caminho se revelará em propósito. Isso não significa que tempestades não serão enfrentadas, pois, assim como o bom tempo, elas fazem parte da vida e do existir.

 

Raridade

Raridade é afeto genuíno, 
aquele que não se resume a palavras
e habita o coração. 


sexta-feira, março 14, 2025

O verbo

Desvia meus olhos da ilusão do olhar, mira-os na profundidade do verbo ver, para que eu possa enxergar.


quarta-feira, março 12, 2025

Travessia à espreita da morte e das sombras

Do alto de sua insignificância, ele caminha a passos largos,

eternamente ameaçado,
armado até os dentes,
infinitamente inseguro.

Acredita-se à frente,
como se soubesse o amanhã.

O ego.
A persona.
Espelho convexo, projetando para o exterior imagens virtuais e distorcidas.

Mente ácida, de efeito corrosivo sobre sua superfície, sobre sua realidade.

Sua rota bélica lhe impõe um destino inevitável:
o confronto com Ele, o desconhecido.

O ego, sob a sola do sapato que o esmaga contra o cimento da realidade, agoniza.

Sob o peso de sua miséria, tal qual um inseto pisado,
levanta em vão uma questão que parece espremê-lo ainda mais contra a dureza do chão que o suporta e o sufoca:

De quem são os pés que lhe impõem a verdade, que lhe extraem o sangue e o último suspiro de morte?

terça-feira, março 11, 2025

Legado

Tudo o que somos hoje foi construído em algum momento do espaço-tempo; suas raízes estão em nossos ancestrais e nos alcançam por meio de nossa linhagem.
Que a memória de meus antepassados seja honrada através dos tempos. Que todas as gerações sejam abençoadas, com gratidão, pela história que ajudaram a construir.

domingo, março 09, 2025

Raízes antes de Marés

Percorre tu mesmo o teu próprio chão, 
revolve a tua terra, 
passa o arado, 
planta a semente 
e só então deságua no oceano de outras almas.


sexta-feira, março 07, 2025

Esboço de mim

Eu sou um desenho, um traço inacabado.
O ego é isso: um esboço, uma ilusão.
Vou me dobrando para me adaptar.
Autotransformação dói.
Me rasgo, me curvo.
Me reconfiguro, me reconstruo.
Realizo mais um voo em direção a mim mesma. Expurgo demônios.  

segunda-feira, março 03, 2025

Escrever

Escrever não é um monólogo, mas um diálogo com todos aqueles que já abracei, de quem me despedi, com quem me reencontrei e por quem me encantei.

Eles e eu, que me afirmo sendo um, somos mais que uma unidade; somos um coletivo de meus próprios eus espalhados pelo tempo e espaço.

Travamos longas discussões sobre o que se foi, tecendo comentários parciais sobre o passado, prevendo cenários do futuro e entretendo-nos com curiosidades superficiais.

Nós, como infinitos personagens que somos, gargalhamos das histórias narradas diante do espelho da vida.

O mundo aqui dentro é vasto e rico, muito além do mundo exterior, que costumamos priorizar além da conta.

domingo, março 02, 2025

Nos bastidores: o desconhecido

A arquitetura reta, linear e estática do mundo material me parece um tanto opressora. A solidez das coisas me escapa a cada piscar de olhos, quando a escuridão do movimento ocular se sobrepõe à tela anterior, redesenhando-a ao abrir das pálpebras.

Eu, que concentrada ocupo um corpo denso, sinto-me deslocada e fora de contexto nesse plano tridimensional, vasto e, ao mesmo tempo, estreito. Em meu interior, percebo que algo se passa nos bastidores, oculto à minha consciência. Sua presença se faz notar por um movimento rápido — como o de uma sombra passando pelo canto do olho —, uma forma indefinível, além de um borrão escuro que me acompanha ao longo dos meus movimentos. Um fantasma de mim mesma, uma inteligência fora dos meus domínios.

sábado, março 01, 2025

Carnaval

O nosso carnaval tornou-se a beleza da alegria forjada, desfilando nas redes sociais. Ele é o samba da superficialidade das relações humanas, a busca incessante por uma plateia que aplauda nosso mergulho em uma piscina rasa de aparências. O que se faz e o que se permite ser não ultrapassa a régua dos olhares e opinião pública.

O carnaval, fantasiado e transfigurado, não questiona as máscaras sociais; ao contrário, convida ao seu uso: a satisfação simulada da exposição nas redes. Os papéis desempenhados pelas pessoas estão sempre à procura de uma audiência. O que se é quando ninguém vê perdeu a importância em um mundo regido pelo senso geral.

Do contentamento no sentimento coletivo dessa festa, restou apenas uma satisfação moldada pela exibição de retratos ilusórios.