quarta-feira, março 30, 2011

Do que aprendi com os cães, do que não aprendi nos livros, na escola e na televisão.

Me sinto perdida. Acho que talvez seja a primeira vez que estou olhando realmente para o cão — digo, para um cão como ele é, e não como eu penso que seja. Às vezes erro nas minhas interpretações, racionalizo, baseio-me em emoções puramente humanas que não pertencem à realidade dos animais. É como caminhar em um campo desconhecido, um mundo novo, diferente. E, por vezes, tenho tanta dificuldade de andar por ele. Tenho muito a aprender com os cães, pois eles atravessam nosso mundo todos os dias. Muitas vezes ficam confusos, perdidos, incapazes de compreender — e não poderiam, porque o mundo humano se tornou tão complexo. Ainda assim, parecem sempre dispostos a aprender quando nos dispomos a ensiná-los.

Se soubéssemos como é maravilhoso aprender não apenas com a raça humana, mas com toda forma de vida existente, talvez nos comunicaríamos de verdade, sem o egoísmo e o isolamento em que nos aprisionamos. A vida no planeta não cabe somente a nós; cabe a todos os seres. Mas agimos como se somente nós tivéssemos o direito de decidir quem deve ou não permanecer. Estamos a criar “a morte do nascimento”.

É a angústia de uma sociedade desconectada de todas as coisas. A cada passo, distancia-se mais, fechando-se dentro de um casulo intrincado de ideias, crenças, relações financeiras, redes sociais… Estamos tão acima de tudo que quase não podemos enxergar, perceber o que há ao redor, sentir o que acontece.

É difícil compreender por si mesmo, observar algo sem ser guiado. O pensamento está preso às teorias construídas, às propagandas que nos invadem, ao que nos ensinaram a acreditar, às verdades de hoje e mentiras de amanhã, ao que nos dizem para crer.

Senhores, não somos roubados. Não, não somos violados.
Senhores, estamos entregues, rendidos, conquistados, arrebatados, arrebanhados. Caminhamos docilmente, pacificamente entorpecidos, rumo à destruição, rumo ao abismo.

Há uma mesa posta para o jantar. Convidados se levantam, cada qual amarra aos pés uma ponta da toalha, deslumbrados com tudo que construíram e destruíram. Caminham calmamente, puxam a toalha e, com ela, levam tudo que há. Taças se espatifam, pratos cheios de comida se quebram, mas não voltamos para arrumar a bagunça. Não podemos ouvir o som das coisas se quebrando às nossas costas. Não podemos sentir o cheiro da comida a se perder, nem perceber pelo tato a toalha atada aos nossos pés. Perdemos a conexão. Perdemos a capacidade de observar e aprender a partir do que não conhecemos, sem depender de crenças ou teorias.

Tudo em que acreditamos foi construído; é um castelo de cartas que se crê de concreto, porque é tangível. Mas é frágil, fútil, inútil. Não posso soprá-lo, pois tenho medo. Medo de perceber sua fragilidade, medo de encarar a minha própria, medo de me deparar com o nada, com o que não foi construído, com o que não conheço. Afasto-me dos pilares efêmeros do castelo, para perpetuar essa fraqueza. E assim nos movemos com cuidado, para não derrubar a estrutura que tanto nos esforçamos em manter, cegos para tudo que há além das paredes de papel.

quinta-feira, março 17, 2011

Cenário

Cenário
Manchado.
Cortina.
Névoa.

Maresia que pousa e repousa sobre as calçadas de Copacabana.
Brisa do mar, chicote de veludo no rosto, acalma-me a cruz.
O peso dos prédios, opostos ao mar, abaixo do céu.

Vai-se pondo o sol, vão-se acendendo os artifícios da noite.
Meus olhos distraídos, pousados sobre a maravilha das coisas,
reduzem o peso do fardo, da gravidade sobre os ombros, da seriedade da vida.
Alguns minutos de elasticidade, flexibilidade, irreverência.

Não...
Agora não é hora de dizer o que é nem o que deve ser feito.
Calem-se todos e ouçam o ruído de todas as coisas de agora.

Os acontecimentos se desenrolam eternamente, em repetição,
de veracidade impossível,
velocidade — um princípio absoluto.

O que não cala nos passeios dos entardeceres e amanheceres
é o desconforto que sinto diante deste mundo.
Estou delirando, com febre, doente, desconexa.

Assumo compromissos, me alimento com saúde,
por vezes deslizo, cuido das plantas, dos animais...
Ainda não há conforto.
Há confronto, de dentro para fora.

Não consigo me apegar, assim como quem salva uma vida.
Sinto-me solta, dispersa.
Por vezes, me agarro, sem forças para me fixar.

Que condição é essa?
Que cidade é essa que não me acolhe?
Que verdade é essa que não me convence?

Estou aqui, mas não pertenço a este lugar.
Luto uma guerra que não é minha,
partidos dos quais não faço parte.

Memórias do silêncio, do mar calmo e tranquilo,
de um céu de domingo,
de um beijo que o tempo apartou, que a vida levou.

Das noites de Natal,
uma luz se apagou,
outra se acendeu.

Então, me prove que ainda tenho a mim,
ao menos a mim,
que não me perdi,
e que já não é tarde.