sexta-feira, maio 23, 2025

Band-Aid Afetivo

Um ser que cava no outro a terra que lhe falta para tapar o buraco vazio da alma segue engolindo tudo o que pode — como um sumidouro faminto.
O desespero pelo outro carrega, em si, o desprezo por si mesmo — espíritos aleijados à procura de muletas.
Não se busca afeto verdadeiro, mas apenas fantasias projetivas da carência de si.
Temos, então, o Band-Aid afetivo: um mero curativo descartável para feridas que nunca cicatrizam.

quinta-feira, maio 22, 2025

Epopeia cotidiana

O papel do escritor
é escrever para se elevar
acima do habitual,
eternizando a vivência comum.

Ao empunhar com firmeza a caneta,
ele abre caminhos pelas linhas escritas,
avançando em direção àquele que lê.
O corte e o aporte de suas ideias
tocam o leitor de inúmeras formas.

Dê-se a ele o cotidiano mediano,
e ele trará uma epopeia
de sabores e dessabores corriqueiros,
com o caráter de pequenos e breves atos heroicos.

Os acontecimentos vestem-se de palavras;
ao florear as situações ordinárias,
o escritor torna-as dignas de nota.

Colore-se o quadro da realidade
com tintas extraídas
da matéria bruta vital que corre nas veias.

No nascer e no morrer do dia,
faz-se a mágica do extraordinário,
expressa em versos.

quarta-feira, maio 21, 2025

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa e seu olhar de alma.
Esse olhar é um mergulho contínuo em diversas profundidades — ora na superfície, ora no abismo mais íntimo de si.
Olhares como o dele rasgam a capa aparente e penetram, feito feixe de luz na escuridão, a essência do nosso ser.
São como uma sonda, a explorar os mistérios de nossas galáxias interiores, captando vida no brilho das inúmeras estrelas que nos habitam.

terça-feira, maio 20, 2025

Colapso da viga mestra

Aos pés de quem, ou do quê, posso me ajoelhar e implorar para dar cabo à narrativa que não finalizo?
Ah! Sou mesmo incapaz de realizar tal proeza: derrotar a mim mesma, confrontar-me no espelho, despedir-me de mim, soltar minha mão, seguir brevemente a sós de mim, calar-me diante do que digo, romper comigo e negar-me o abraço que me prende.

E esses grilhões de elos duros? Falta-me o olhar que encontre ferramentas para removê-los. Onde se esconde o impulso do ato? Persiste a inutilidade das coisas que me açoitam a mente como vento em redemoinho, o cansaço do braço que se estende além dos limites e quase alcança — mas quase... — e então deixa cair, despedaçando aquilo que tanto se almeja.

Pudera eu deixar cair e despedaçar-me em rendição, simplesmente entregar-me, deixar-me levar, confiar, remover de uma vez a viga mestra — estaca cravada, firme na terra — e deixá-la mover-se como um bambu que verga no vento.

Ai, se eu me permitisse curvar ao chão para arrancar esta erva, extrair-lhe todo o corpo, do caule à raiz, e mastigar mais uma vez o amargo das folhas que por anos temperaram o chá.

O tempo permeia o traçado do relógio, gira ininterrupto, constante, no agora — e essa é a última hora antes do próximo badalar. Aproxima-se o último trem, que reduz vagarosamente sua marcha, aproximando-me do embarque. Temo deixá-lo passar. Os pés não se movem, nem os joelhos se dobram; estão fixos na estação, presos na fronteira. O corpo se congela na iminência.

O pedido de socorro não verbalizado, engolido na fraqueza da força, não irrompe feito trovão. Quão espessas são as paredes dessa represa? O colapso da estrutura imóvel é certo diante de uma força superior, que pousa sobre os ombros rijos suas mãos — leves e pesadas — empurrando-os para adiante, puxando-os para si, em um abraço de força desconhecida.

segunda-feira, maio 19, 2025

Escritor agiota

Escritor agiota.
Empresto riquezas convertidas em palavras.
Minha moeda? Poemas, contos, versos — breves ou profundos, conforme a sede de quem lê.
Cada leitor toma emprestado meu fôlego escrito, pagando juros em conhecimento.
Trocamos experiências como quem negocia ouro, na bolsa invisível da vida — onde a alma é a única commodity que importa.

domingo, maio 18, 2025

Oração da transmutação

A vida toda aprendi a me afastar,
virar as costas e me distanciar,
como a fumaça de um navio
que se vai mar adentro,
rasgando sozinho o horizonte
em busca de águas tranquilas.

Mas, nesse partir em busca de uma suposta paz,
descobri que a turbulência que eu evitava
morava dentro de mim.
Não importava o caminho:
ela insistia em me acompanhar,
como um mar em constante tempestade.

O caminho era sempre adiante,
e eu nunca alcançava a margem que desejava,
onde pudesse, enfim,
suspirar em paz.

A busca se tornou incessante.
Não importava o rumo —
a tormenta me encontrava.
E, em cada porto que ancorei,
parti mais uma vez,
em direção àquilo que buscava
e não encontrava dentro de mim.

Isso se tornou um padrão.
Uma herança.
Uma forma de viver.

Então me deparei com uma porta.
Sempre me parecera fechada,
mas dela escapou uma brisa suave,
que me chamava a olhar o abismo que eu evitava.
Ali, nas bordas do mundo que eu mesma ergui,
havia um aprendizado esperando por mim.

Agora sei:
preciso aprender a ficar,
em vez de partir.
Permanecer,
em vez de desvanecer.
Manter acesa a chama que me propus a acender.
Cozinhar o alimento d’alma
em fogo brando e contínuo.
Beber do vinho da vida.
Sorver a verdade das coisas.

Permaneço para transmutar.

sexta-feira, maio 16, 2025

Navegação com o I Ching

Nele encontro minha embarcação —
feita de signos
e intuições —
um meio de singrar minhas águas interiores,
rumo ao mistério de mim mesma,
num movimento que transcende
a busca imediata por respostas.

Estou em perpétua ressignificação
do meu eu eterno,
num entendimento da jornada
que ecoa além do tempo.

Aquela que pergunta
é também aquela que responde —
um fragmento meu
que se dispõe a encarar o espelho
que me reflete
tal como sou,
agora.

Estuário
entre a consciência e o inconsciente:
vasto,
profundo,
desconhecido.

Esforço silencioso, perseverante,
da mente que deseja
trazer luz
àquilo que se busca encontrar.

Conjunção sutil,
matéria bruta vital
em ebulição.

As águas
não estão a serviço da embarcação
que sobre elas flutua.
Elas são sustento,
fio condutor,
fluxo por onde se navega —
seja a favor
ou contra a correnteza natural
que serpenteia minhas margens.

quarta-feira, maio 14, 2025

Solo antigo

A semente brota do interior da terra,
na escuridão.
No silêncio que aprendeu a falar,
o embrião rompe o tegumento
e dele expele a escrita:
a luz que nasce do escuro.

Das profundezas, ela sobe.
No céu, se acumulam nuvens
que nutrem — não com o estrondo do trovão —
mas com a suavidade e a persistência.

Do húmus do não dito vem seu alimento.
Cada estágio:
um degrau em busca do firmamento.

terça-feira, maio 13, 2025

Quem de mim sou eu mesma?

Sou um constructo coletivo de mim,
mergulhada no todo de tudo.
As bases sobre as quais construí minha casa estão ruindo.
As paredes já não têm clareza;
os canos condutores de sentido estão obstruídos por crenças ultrapassadas;
as vidraças, manchadas de normas e regras inúteis, deixam a luz entrar de forma difusa.

Há poeira das massas nos móveis, já desgastados.
O ruído das multidões ecoa nos cômodos fechados.
O piso sob meus pés há muito perdeu o viço.
As emoções tornaram-se opacas,
o riso, borrado,
o olhar, distante — a mil léguas do espelho.

Os rostos enrijeceram.
Os passos rangem sobre a madeira sem vida.
Os quadros estão vazios de narrativas.
O tempo das coisas esfriou.
A solidez se impôs ao movimento alegre dos dias.
O coração palpita em sobressaltos de medo e receio.
O fogo das novidades arrefeceu, extinguiu-se.
Daqui, nada mais se espera. Nenhuma visita.
Ilusão infinita.

A teia que nos envolve é apenas a das aranhas,
que tecem, dia e noite, o abandono em torno das coisas.
Ergueram-se muros.
Trancaram-se portas.
Protegidos do mundo,
vulneráveis de si mesmos.

Nossos jardins oferecem um paisagismo alheio.
Parece-me que somente as árvores carregam a seiva da vida,
enquanto nós, apenas a distância —
num falar calado de verdades.

Lá no fundo, a água está limpa.
O poço é seguro.
Mas ninguém o acessa.