domingo, maio 18, 2025

Oração da transmutação

A vida toda aprendi a me afastar,
virar as costas e me distanciar,
como a fumaça de um navio
que se vai mar adentro,
rasgando sozinho o horizonte
em busca de águas tranquilas.

Mas, nesse partir em busca de uma suposta paz,
descobri que a turbulência que eu evitava
morava dentro de mim.
Não importava o caminho:
ela insistia em me acompanhar,
como um mar em constante tempestade.

O caminho era sempre adiante,
e eu nunca alcançava a margem que desejava,
onde pudesse, enfim,
suspirar em paz.

A busca se tornou incessante.
Não importava o rumo —
a tormenta me encontrava.
E, em cada porto que ancorei,
parti mais uma vez,
em direção àquilo que buscava
e não encontrava dentro de mim.

Isso se tornou um padrão.
Uma herança.
Uma forma de viver.

Então me deparei com uma porta.
Sempre me parecera fechada,
mas dela escapou uma brisa suave,
que me chamava a olhar o abismo que eu evitava.
Ali, nas bordas do mundo que eu mesma ergui,
havia um aprendizado esperando por mim.

Agora sei:
preciso aprender a ficar,
em vez de partir.
Permanecer,
em vez de desvanecer.
Manter acesa a chama que me propus a acender.
Cozinhar o alimento d’alma
em fogo brando e contínuo.
Beber do vinho da vida.
Sorver a verdade das coisas.

Permaneço para transmutar.