terça-feira, maio 20, 2025

Colapso da viga mestra

Aos pés de quem, ou do quê, posso me ajoelhar e implorar para dar cabo à narrativa que não finalizo?
Ah! Sou mesmo incapaz de realizar tal proeza: derrotar a mim mesma, confrontar-me no espelho, despedir-me de mim, soltar minha mão, seguir brevemente a sós de mim, calar-me diante do que digo, romper comigo e negar-me o abraço que me prende.

E esses grilhões de elos duros? Falta-me o olhar que encontre ferramentas para removê-los. Onde se esconde o impulso do ato? Persiste a inutilidade das coisas que me açoitam a mente como vento em redemoinho, o cansaço do braço que se estende além dos limites e quase alcança — mas quase... — e então deixa cair, despedaçando aquilo que tanto se almeja.

Pudera eu deixar cair e despedaçar-me em rendição, simplesmente entregar-me, deixar-me levar, confiar, remover de uma vez a viga mestra — estaca cravada, firme na terra — e deixá-la mover-se como um bambu que verga no vento.

Ai, se eu me permitisse curvar ao chão para arrancar esta erva, extrair-lhe todo o corpo, do caule à raiz, e mastigar mais uma vez o amargo das folhas que por anos temperaram o chá.

O tempo permeia o traçado do relógio, gira ininterrupto, constante, no agora — e essa é a última hora antes do próximo badalar. Aproxima-se o último trem, que reduz vagarosamente sua marcha, aproximando-me do embarque. Temo deixá-lo passar. Os pés não se movem, nem os joelhos se dobram; estão fixos na estação, presos na fronteira. O corpo se congela na iminência.

O pedido de socorro não verbalizado, engolido na fraqueza da força, não irrompe feito trovão. Quão espessas são as paredes dessa represa? O colapso da estrutura imóvel é certo diante de uma força superior, que pousa sobre os ombros rijos suas mãos — leves e pesadas — empurrando-os para adiante, puxando-os para si, em um abraço de força desconhecida.