Sou um constructo coletivo de mim,
mergulhada no todo de tudo.
As bases sobre as quais construí minha casa estão ruindo.
As paredes já não têm clareza;
os canos condutores de sentido estão obstruídos por crenças ultrapassadas;
as vidraças, manchadas de normas e regras inúteis, deixam a luz entrar de forma
difusa.
Há poeira das massas nos móveis, já desgastados.
O ruído das multidões ecoa nos cômodos fechados.
O piso sob meus pés há muito perdeu o viço.
As emoções tornaram-se opacas,
o riso, borrado,
o olhar, distante — a mil léguas do espelho.
Os rostos enrijeceram.
Os passos rangem sobre a madeira sem vida.
Os quadros estão vazios de narrativas.
O tempo das coisas esfriou.
A solidez se impôs ao movimento alegre dos dias.
O coração palpita em sobressaltos de medo e receio.
O fogo das novidades arrefeceu, extinguiu-se.
Daqui, nada mais se espera. Nenhuma visita.
Ilusão infinita.
A teia que nos envolve é apenas a das aranhas,
que tecem, dia e noite, o abandono em torno das coisas.
Ergueram-se muros.
Trancaram-se portas.
Protegidos do mundo,
vulneráveis de si mesmos.
Nossos jardins oferecem um paisagismo alheio.
Parece-me que somente as árvores carregam a seiva da vida,
enquanto nós, apenas a distância —
num falar calado de verdades.
Lá no fundo, a água está limpa.
O poço é seguro.
Mas ninguém o acessa.