domingo, junho 01, 2025

O Que Me Habita

O questionamento sempre foi uma constante na minha vida. Minha imagem, ou identidade, parece ter se formado a partir de perguntas, transformando-me numa grande interrogação.
Sinto que a certeza das coisas sempre me escapa, como uma mão que tenta segurar o ar entre os dedos, sem considerar que tal elemento se destina ao inspirar e expirar da respiração que nos mantém vivos — de natureza livre e fluida —, e não ao agarrar e reter.
Os olhos estão sempre à procura de respostas, mas a busca devolve ainda mais perguntas, numa equação que nunca se resolve.
Posso até me esconder do olhar alheio e acreditar que estou livre, mas... e do meu olhar que me vê através do olhar do outro? E do meu olhar que se dirige ao outro, como uma flecha apontada? E do meu olhar que se volta a mim, como uma arma carregada? Até que ponto estou, de fato, livre?
Se sou eu quem me quer, sou eu quem não me tenho. Estando em mim, mas não me possuindo, sigo tateando os móveis da casa no escuro: guio-me pelo posicionamento, mas a certeza de cada coisa em seu lugar me escapa, e me faz tropeçar. Saio de casa e volto hesitante, como quem esquece as chaves.
O tempo todo me esqueço e me lembro de quem sou. O que vale a pena, em mim, é somente aquilo que me habita. 
O mistério das coisas — e de mim mesma — me atravessa de uma ponta a outra. As certezas, tão distantes de me habitarem, parecem antes me desconstruir como ser. Sigo me afirmando na não-afirmação, buscando moldar o que não tem forma, entender o incompreensível, sondar o insondável. Coloco-me numa posição de eterna viajante, em busca de...

sábado, maio 31, 2025

Banquete das Forças Ocultas

Minha alma é como as águas de um rio subterrâneo, que passa sem que alguém possa ver.
O de baixo nutre o de cima. O interior sustenta a superfície.
Aqui, as sombras também podem falar; elas têm seu lugar à mesa.
De uma ponta a outra, todos se sentam reunidos: uns tão alheios, outros compenetrados; alguns são etéreos, outros, densos, feito matéria.
Eletricidade e magnetismo compartilham uma só refeição.

sexta-feira, maio 30, 2025

Vídeo game da vida

No videogame da vida, nada se move porque você não se move.
Temendo mover-se e errar, erra-se na estagnação.
Se olhar para o outro como parceiro de jogo, e não como mero adversário, por meio das narrativas impostas aos players, começamos a nos mover adiante — e não em círculos.
Seguindo fielmente o script do jogo, tornamo-nos NPCs: jogadores não jogáveis, sem protagonismo sobre a própria vida.
Sim, fomos programados, somos programáveis, bonecos coadjuvantes; mas, diante disso, não pare de jogar.
Jogue, permaneça no jogo, mas aprimore-se e mova-se em direção a novas fases.
O simulacro é inevitável, mas crie, neste jogo criado, suas próprias experiências e aprendizados.
O que puder ser de si, seja. Solte, o quanto puder, o espelho coletivo de ações e reações.
Não é se isolar do todo, mas se unir a ele a partir de si mesmo.
O coletivo que se dispõe à união genuína — e não à mera massa de manobra — é poderoso, e quem detém o poder está ciente disso, programando o sistema a fim de manter o jogo sob controle.
A identidade é um muro invisível de controle sobre aquilo que não tem forma nem se pode moldar.
Tire os dedos dos botões que te definem e conduza a si mesmo neste jogo.

quinta-feira, maio 29, 2025

Diante do inevitável

Não há meios de expor minha essência.
Se o fizer, o que será desse corpo que me reveste?
A imagem forjada para proteger e sustentar os ossos e vísceras sob minha pele irá desaparecer.
Para me mover em meio às dissonâncias, minhas e alheias, foi preciso um exército de carne e osso.
A essência foi revestida pela matéria bruta e isso, sem dúvida, a endureceu; os muros erguidos oprimem.
Toda e qualquer falha e disparidade entre o que há fora e o que há dentro se converte em trincas, rachaduras, buracos, feridas por onde escapa o sangue vital.
O rei de um reinado falido gestou um exército corrompido.
Do alto da torre, nada se enxerga além de grande confusão; aos poucos, o caos se instaurou.
A mão que move as peças sobre o tabuleiro de xadrez congelou em xeque-mate.
O rei, em seu desprezo pelas coisas mundanas, é ele mesmo o objeto de seu desprezo.
A torre de onde busca visão ampliada, numa posição privilegiada, está ruindo,
lentamente se dissolvendo em partículas inquietas que dançam no ar; seus olhos marejados observam como quem nada pode fazer diante do inevitável. 

quarta-feira, maio 28, 2025

Saberes à Prova de Fogo

Livros banidos pelo fogo lamentam sob o trepidar das chamas da ignorância.
Saberes servidos à mesa errada podem desandar.
Paladares imaturos não apreciam sabores exóticos.

Resistências que nos impuseram bloqueios
minaram o acesso a fontes autênticas
e nos deixaram à míngua,
conduzindo-nos à fome.

Aos pequenos que queimaram obras grandes: pobres almas, jogadas à miséria.
Volta e meia, cessa a combustão de um homem que se verga ao chão das ilusões.

Atear fogo sobre palavras impressas não apaga o sopro criador.

As ideias sobem do solo ao céu,
em uma fumaça espessa que se dissipa no tempo, através das eras,
com odor carregado de matéria orgânica, bruta, vital.

Cedo ou tarde, o saber renasce das cinzas.

terça-feira, maio 27, 2025

A mordida do transcendente

O transcendente me habita como quem morde,
quebrando com firmeza o que me paralisa.
Rasga véus, desfaz nós,
rompe bloqueios
que, silenciosos, me impedem de seguir.
 
Sussurra:
— Cuidado com o excesso,
não te firas ao tentar ferir o que te prende.
A mordida precisa ser precisa, justa, necessária.
 
E então, após o estalo do que se quebra,
vem o alívio, e a fome revelada.
 
— Do que te alimentas agora?
— O que te nutre, após romper as cascas e os elos?
 
Aprendo que a força não é apenas a de romper,
mas, sobretudo, a de ensinar a escolher o alimento certo,
a nutrir minha essência com aquilo que me sustenta e me faz crescer.
 
O transcendente me move:
da ruptura ao cuidado,
da dureza à suavidade,
da fome à sabedoria.
 
Me sacio na oferta de luz à consciência.
 

segunda-feira, maio 26, 2025

Dom da quietude

Nasci com o dom do silêncio,
de ouvir o mundo calar.
À volta, tudo rui em pressa,
em mim, o sopro em suspensão.

Meus olhos veem por dentro,
meus passos sabem parar.
No lombo, quietude;
no coração, mansidão.

Mas não te enganes com minha calma,
que carrega o dente da precisão
para mover montanhas —
calar padrões.

Mordo para cortar o nó,
desfazer laços invisíveis.
Minha voz é lâmina:
seu corte não fere,
liberta.

Sou a pausa antes do salto,
a pedra precisa do rio.
Meu silêncio não se omite —
emite fala autêntica,
livre de artifícios.

Meu dom é ver a verdade,
mesmo que ninguém queira ver.
E com firmeza e ternura,
abrir caminho pra alma passar.