Não há meios de expor minha essência.
Se o fizer, o que será desse corpo que me reveste?
A imagem forjada para proteger e sustentar os ossos e vísceras sob minha pele
irá desaparecer.
Para me mover em meio às dissonâncias, minhas e alheias, foi preciso um
exército de carne e osso.
A essência foi revestida pela matéria bruta e isso, sem dúvida, a endureceu; os
muros erguidos oprimem.
Toda e qualquer falha e disparidade entre o que há fora e o que há dentro se
converte em trincas, rachaduras, buracos, feridas por onde escapa o sangue
vital.
O rei de um reinado falido gestou um exército corrompido.
Do alto da torre, nada se enxerga além de grande confusão; aos poucos, o caos
se instaurou.
A mão que move as peças sobre o tabuleiro de xadrez congelou em xeque-mate.
O rei, em seu desprezo pelas coisas mundanas, é ele mesmo o objeto de seu
desprezo.
A torre de onde busca visão ampliada, numa posição privilegiada, está ruindo,
lentamente se dissolvendo em partículas inquietas que dançam no ar; seus olhos
marejados observam como quem nada pode fazer diante do inevitável.