O questionamento sempre foi uma constante na minha vida.
Minha imagem, ou identidade, parece ter se formado a partir de perguntas,
transformando-me numa grande interrogação.
Sinto que a certeza das coisas sempre me escapa, como uma mão que tenta segurar
o ar entre os dedos, sem considerar que tal elemento se destina ao inspirar e
expirar da respiração que nos mantém vivos — de natureza livre e fluida —, e
não ao agarrar e reter.
Os olhos estão sempre à procura de respostas, mas a busca devolve ainda mais perguntas,
numa equação que nunca se resolve.
Posso até me esconder do olhar alheio e acreditar que estou livre, mas... e do
meu olhar que me vê através do olhar do outro? E do meu olhar que se dirige ao
outro, como uma flecha apontada? E do meu olhar que se volta a mim, como uma
arma carregada? Até que ponto estou, de fato, livre?
Se sou eu quem me quer, sou eu quem não me tenho. Estando em mim, mas não me
possuindo, sigo tateando os móveis da casa no escuro: guio-me pelo
posicionamento, mas a certeza de cada coisa em seu lugar me escapa, e me faz
tropeçar. Saio de casa e volto hesitante, como quem esquece as chaves.
O tempo todo me esqueço e me lembro de quem sou. O que vale a pena, em mim, é
somente aquilo que me habita.
O mistério das coisas — e de mim mesma — me atravessa de uma ponta a outra. As
certezas, tão distantes de me habitarem, parecem antes me desconstruir como
ser. Sigo me afirmando na não-afirmação, buscando moldar o que não tem forma,
entender o incompreensível, sondar o insondável. Coloco-me numa posição de
eterna viajante, em busca de...