Nasci com o dom do silêncio,
de ouvir o mundo calar.
À volta, tudo rui em pressa,
em mim, o sopro em suspensão.
Meus olhos veem por dentro,
meus passos sabem parar.
No lombo, quietude;
no coração, mansidão.
Mas não te enganes com minha
calma,
que carrega o dente da precisão
para mover montanhas —
calar padrões.
Mordo para cortar o nó,
desfazer laços invisíveis.
Minha voz é lâmina:
seu corte não fere,
liberta.
Sou a pausa antes do salto,
a pedra precisa do rio.
Meu silêncio não se omite —
emite fala autêntica,
livre de artifícios.
Meu dom é ver a verdade,
mesmo que ninguém queira ver.
E com firmeza e ternura,
abrir caminho pra alma passar.