segunda-feira, junho 21, 2010
Roda
As paredes são sólidas
Duras e até quando amplas são estreitas à medida em que se estreita o olhar para lê-las
As cores estão impressas só nas superfícies, não sei se em algum outro lugar posso encontrar cores tão cerradas
Um mundo de espelhos, tudo reflete, qualquer movimento reflete, até o pensamento reflete no espelho de tão carregado de tudo
Aqui você bate, aqui você leva, aqui você faz, aqui você paga, na frente de todos existe um imenso paredão concreto. Não há como passar através dele, somos concretos.
Você se joga contra ele, bate a carne dos braços, os ossos das pernas e volta moído. Ação e reação. Você grita, o som ressoa, bate e volta para você. Tudo o que vai volta. Ação e reação.
Na luz tudo o que é sólido, corpos, objetos, projetam atrás de si uma sombra, na proporção de um para um. Você desvia, ela desvia, você reage, ela reage, ação e reação.
Tudo gira numa roda, início, meio, fim e então mais uma vez início, meio e fim. A cada volta completa da roda ela se torna mais pesada, devido ao contínuo acumulo de início, meio, fim. Continua. Você continua e vai continuando mais uma vez, e de novo, e de novo. A roda vai girando cada vez mais densa, mais pesada, e vai prensando, comprimindo, esmagando, extraindo todo o suco que se acumula no fardo que foi se formando e vai ela se arrastando, estalando, girando, girando, girando, girando.
Bateu-levou, ação-reação, aqui se faz-aqui se paga, na roda se faz na roda se paga, e assim por diante, na roda do bateu-levou, ação-reação, a roda cresce e pesa ainda mais, mais sólida fica. Reação em cadeia.
A roda se repete, redunda, a roda é tudo até onde vai o paredão, ali bateu-levou, ação-reação, pergunta - resposta, verdade - mentira, certo - errado, preto - branco, tudo - nada, quente - frio, seco - molhado, vivo – morto, bem – mal, velho – novo, cheio – vazio, grande – pequeno, sujo – limpo, luz – escuro, tudo entre dois pólos opostos, positivo-negativo, que se misturam, que se repelem, teia complexa, teia que envolve e maçaroca, até não ter como escapar.
A gente se equilibra na corda, na corda bamba da vida e eis que as tentativas, movimentos sutis ou bruscos, irão todos repercutir nas extremidades, e então a corda irá vibrar, até ceder e recomeçar.
quarta-feira, maio 26, 2010
Uma luz
Tanto que te causo arrepios
Meu tormento é um mal estar em teu coração
Tento sempre falar-te sutilmente o que sinto
De um jeito que não te assuste nem te afaste
No escuro da noite, venho insistentemente te encontrar
Quando todos dormem, inclusive você, que parece descansar na paz do silêncio que jaz em teu quarto
Tento demonstra-te minha presença, chamo-te a atenção e acabo por tirar-te o sono
Então, você me diz que está tudo bem e relembra coisas agradáveis de seu passado para me confortar com o amor dele exalado
Me diz que estamos a bordo de uma espaço-nave dourada, que sai por ai a iluminar corações abertos a uma energia sutil
Cortesia benévola aliada a delicadeza de figura cósmica e então, um abraço, um sorriso, me espera no infinito desta vida.
segunda-feira, maio 17, 2010
Luzes de natal
E então fecho os olhos
E sinto que o ar que respiro é minha casa
Sinto as luzes se acenderem
As luzes que tanto esperei
Luzes de natal
Piscam no escuro
Se eu abrir os olhos
Não poderei evitar
O coração se desfazer
E perceber que sou toda emoção
Mais emoção que razão
Só assim posso viver
Porque tudo aqui é para se emocionar
Então não evito,
Acompanhar a dança das luzes
Não há lógica no que sinto
Nem ciência no que digo
Não há verdade no que vejo
Se eu quiser, a música irá tocar
E então será natal
terça-feira, maio 11, 2010
Última hora
Sou das coisas mal planejadas,
Dos feitos de ir embora, de última hora.
Do coração batendo à frente do tempo,
Pressa infantil.
Dos que não esperam,
Saem batendo às portas do tempo,
Abrigados num relógio,
Um coração tic-tac.
Hoje é o prazo final,
Hoje é o dia em que começa
E o dia em que termina.
É próximo o último grão de areia,
Que brinca, se cai ou se não cai,
Sobe e desce, numa gangorra de angústia.
Pende e toca o final, num chamado do tempo,
Medida arbitrária da duração das coisas.
Afinal, tudo acontece ao nascer e morrer do dia.
domingo, maio 02, 2010
Insetos
Ao fim da tarde, quando o céu em
brasas cede espaço ao azul-marinho que se apaga sob as luzes estelares —
vagalumes distantes no infinito —, vou até a janela. O ar queima, vapores
sulfurosos, CO₂, tragos e urros de ônibus e carros.
Os bueiros, bocas imundas,
arrotam insetos, hálito moderno da sujeira ordinária que, aos poucos, engole a
cidade. Fecho a vidraça e, de dentro, vejo os insetos — pequenas cruzes do
sacrifício humano — negros, brancos, amarelos, mistos, suspensos no ar, batendo
compulsivamente suas cabeças contra o vidro, em busca de luz, em busca de
sangue.
Um exército faminto de timbres,
zunindo numa só frequência — do instinto, da sede, da fome. Milhares deles
intentam invadir minha torre, meu observatório terrestre. Rufam os tambores à
espreita da minha fraqueza, da minha vontade de seguir para além do olhar
inocente, deliberado a agir, a envenenar-se de toda a peçonha que bate à minha
porta.