domingo, maio 02, 2010

Insetos

Ao fim da tarde, quando o céu em brasas cede espaço ao azul-marinho que se apaga sob as luzes estelares — vagalumes distantes no infinito —, vou até a janela. O ar queima, vapores sulfurosos, CO₂, tragos e urros de ônibus e carros.

Os bueiros, bocas imundas, arrotam insetos, hálito moderno da sujeira ordinária que, aos poucos, engole a cidade. Fecho a vidraça e, de dentro, vejo os insetos — pequenas cruzes do sacrifício humano — negros, brancos, amarelos, mistos, suspensos no ar, batendo compulsivamente suas cabeças contra o vidro, em busca de luz, em busca de sangue.

Um exército faminto de timbres, zunindo numa só frequência — do instinto, da sede, da fome. Milhares deles intentam invadir minha torre, meu observatório terrestre. Rufam os tambores à espreita da minha fraqueza, da minha vontade de seguir para além do olhar inocente, deliberado a agir, a envenenar-se de toda a peçonha que bate à minha porta.