terça-feira, outubro 07, 2008

Aproveite

Ahhh como adoro frases típicas de auto – ajuda que nos dizem coisas tais como:

A vida é uma só, aproveite-a bem!
Viva cada momento, cada segundo com intensidade com se este fosse o último, aproveite o tempo que tem para ser feliz!

Eu pergunto: Mas o que é isso? A vida é um produto, que deve ser consumido/ aproveitado antes que vença a data de validade? Será que é isso o que querem dizer?

E como será que devemos então aproveitar de maneira adequada cada segundo de nossas vidas? Sim, pois a vida esta sendo cronometrada detalhadamente na base dos segundos, devemos nos apressar o quanto antes para nos satisfazer, nos tornarmos felizes.
Deveriam mesmo é lançar um manual de como aproveitar bem o resto do tempo que ainda possuímos de vida.
Aproveitar o RESTO.
Não gastar atoa o tempo que ainda nos SOBRA.

Resto... Sobra...
A vida é o que? Resto de tempo? Sobra de tempo? A vida é o tempo? Ou o tempo é a vida?

Vamos aproveitar...
Vamos aproveitar essa coisa que nos move, porque com ela nada mais podemos fazer a não ser aproveitá-la, usá-la, consumi-la até o fim.

Conquiste seu espaço!
Eu diria: Ora, pois já o tenho! Tudo que ocupa lugar no espaço e tem massa é matéria – já nos dizia a Química. Sou matéria, portanto, ocupo o espaço seja ele conquistado ou não.

Conquiste seus ideais!
Eu diria: Ora já os conquistei na medida em que os tenho.

A felicidade, lamentavelmente, tornou-se mercadoria vendida como água. Ora pois, se para ser feliz, aproveitar a vida, viver momentos intensos e mágicos, para os quais já existem modelos pré – definidos, milhares de possibilidades ofertadas: boates, festas, bares, shoppings, parques de diversão, zoológicos... Faz com que a “felicidade” seja alcançada somente através destes modelos, pelo menos para alguns (alguns que são numerosos).
Milhares de festas que vendem suas entradas, seus ingressos para a “felicidade” e diversão, mesmo para a liberdade, noção muita das vezes reduzida a tais aspectos, criando pessoas entorpecidas pela “felicidade” extrema, contorcendo-se de tanto rir, sempre a procura de entretenimento, sedentas de tudo quase que por obrigação, perdidas num mundo onde tudo é possível, quando no fundo sabemos, que não o é.
Vendem-nos “felicidade” num pacote colorido e vistoso, de “felicidades” possíveis, organizadas e previsíveis dentro de nosso alegre e empolgado sistema capitalista.

Mas, por favor, aqueles que me lerem, não pensem ser eu uma militante socialista ou comunista, pois definitivamente não o sou. E nem que eu não me divirta e seja “feliz” inserida nestes padrões padronizantes (me perdoem a redundância), pois afinal, também faço parte do empolgado e frenético sistema, o que não me impede de criticá-lo e de aspirar por algo muito além do que ele me oferece já que as possibilidades por ele ofertadas são em minha opinião insuficientes.

Não se preocupem com isso, preocupem-se em se sentirem bem, encaixados na política do bem – estar, pois acima de tudo devemos ser “felizes”, assim mesmo, nestes termos. Porque está tudo bem, somos nós quem fazemos o mundo girar, muitas vezes ao nosso redor.
Nascemos para ser feliz! E o resto vem como que por encomenda pelo correio expresso. Só deveríamos ter cuidado porque no pacote pode se esconder uma bomba relógio, ah e aqui o tempo não tem parada, está disparado, não adianta correr nem tentar alcançá-lo.

E mais uma vez se impõe o tempo, aquele que nos resta e que não devemos perder, porque estamos sempre muito apressados, quase atrasados, para nos divertir, nos realizar, nos entreter, fazer acontecer, para sermos não se sabe o que.

Mas não há com que o que se preocupar afinal isso aqui é só um desabafo, uma chatice. Aproveitem a viajem, pessoal! Aproveitem a viajem...

segunda-feira, outubro 06, 2008

Tristeza

Se cada coisa soubesse falar,
e se a tristeza tivesse vida própria,
como se existisse além daqueles
que sabem reconhecê-la,
que sabem recebê-la,
quem sabe, detê-la,
que sabem dizê-la,
quem sabe, vivê-la...

E quando nos parece invisível,
ou mesmo uma luz,
uma estrela no céu,
mais distante que o próprio céu,
lá de cima a brilhar,
no escuro a chorar,
no escuro a calar,
no escuro, um alívio,
um ponto de fuga,
fixado no olhar.

Só...
Somente ela e sua luz,
a brilhar na imensidão,
no silêncio,
no vazio,
sem nada mais conhecer.

Só...
Somente ela no topo,
aqui embaixo a nos dizer
que está só,
que veio para ficar.

Somente ela e sua luz,
a brilhar na imensidão.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Na corrente deste jogo

Desapareço assim do nada
Reapareço assim como quem nada quer
Saio de fininho e me esquivo na multidão que me esbarra
Observo tudo de longe
Como se pudesse repousar no movimento do universo
Em silêncio a dançar sob o burburinho
Distante a evitar olhares indiscretos
Como se me pudesse esconder por trás de uma cortina invisível
Privando-me de alheia presença
Sem fazer-me notar, nada noto além de mim mesma
Envolta a estranhos íntimos e semelhantes
Impessoais e acelerados, personagens de si mesmos
Eu ponto fixo num sossego desbotado
Calado e sufocado assentado na plateia
É a estreia do espetáculo a cada dia em que me jogo na corrente deste jogo.

terça-feira, setembro 23, 2008

O filme

Dos olhos, jorra um mar salgado,
debatendo-se em convulsões chorosas.
Anuviados pela dor alheia,
chovem cumplicidade.

Fixos no horizonte azulado da tela da TV,
embebidos em dramaturgia cinematográfica,
histórias atuadas, por vezes tão próximas
de nossa história vivida,
de nossa história de vida,
de nossa história sofrida,
de nossa história querida.

No final, para além dos créditos finais,
sobram-nos grossas listras coloridas,
acompanhadas de um som em linha reta:
Tuuuuuu.....

No final, para além de nossos créditos totais,
resta-nos um tênue fio de vida,
acompanhado de um som em linha reta:
Tuuuuuu.....

E, na extensão da imensidão,
pela última vez rolam os dados.
O filme acaba, mas seu fim é só o começo...


domingo, setembro 14, 2008

Tripartida

Foi-se meu espírito a assoviar, levezinho a pairar pelo ar.
E minh'alma, que pena! Penada, foi-me impossível segui-la às revoadas.

Ambos livres, saltam tensões, alusões.
Dos dois, não sei qual sou mais eu, menos eu.
Detentos do corpo, pesado e selado,
sorrisos e choros só ele estampava.

Já eu, trilogia, tripé, tripartida.
Se alma, se corpo, se espírito, não sei qual mais sou.
Assim me levam, me enlouquecem, me tiram a razão, o senso.
Os três, como balas, traçam o espaço, perpassam o tempo.

Em mim os guardo todos.
De mim, me guardam toda.
Pois, no fim de mim, enfim, vão-se remover os pensamentos,
os princípios, a moral, a crença e a descrença,
as questões, o prazer e a dor, a memória e o saber.

De mim se alimentarão, até nada mais sobrar.
A luz se apagará, os olhos se abrirão.
Uma porta irão ver, por trás da qual avistarão
uma fresta iluminada por uma senda anil no céu.

A porta, aos poucos, se fechará, e nas trevas travar-se-á o fim.
Eterna condenação!
Essa força que me reduz a pó...

Poderia acreditar que, em cadeias sintomáticas,
retornarei como alguém,
por trás de um nome, de um rosto e de uma condição,
sempre com sofreguidão.

Só não sei o que é pior:
se sumir na imensidão ou existir na pequenez.


quinta-feira, setembro 11, 2008

Quem de mim

Quem de mim carrega o som, o silêncio,
a solidão dos passos na calçada,
da fragata apagada, rebocada
na calada da velada madrugada?

Sou só eu e minha alma desbocada,
destampada na maré desalentada.
Um suspiro desse nada
nessa noite estrelada.

Um arrepio dessa pele
já gelada e desgastada.

terça-feira, setembro 09, 2008

Roça alma, alma torta

Lá na roça eu dormia mais profundo que a cutia
Lá de longe se ouvia melodia caipira

A chuva
A mata virgem
Me embalavam no sossego

Era longe
Era perto
Infinita escuridão

Vaga – lume
Vaga estrela
Brilha o olho da coruja

Pingo d’água
Pingo prata
Que goteja no cerrado

Na minh’alma corre um rio mais escuro que argila
Quanto mais nela mergulho mais profunda vou ficando

Dentro dela eu carrego a tristeza dos cavalos açoitados no trabalho
E o receio das galinhas assoladas no poleiro

Toda torta
Bicho torto
Do pé torto enlameado

Não tem jeito
É recalcada
E já se foi pro atoleiro