domingo, setembro 14, 2008

Tripartida

Foi-se meu espírito a assoviar, levezinho a pairar pelo ar.
E minh'alma, que pena! Penada, foi-me impossível segui-la às revoadas.

Ambos livres, saltam tensões, alusões.
Dos dois, não sei qual sou mais eu, menos eu.
Detentos do corpo, pesado e selado,
sorrisos e choros só ele estampava.

Já eu, trilogia, tripé, tripartida.
Se alma, se corpo, se espírito, não sei qual mais sou.
Assim me levam, me enlouquecem, me tiram a razão, o senso.
Os três, como balas, traçam o espaço, perpassam o tempo.

Em mim os guardo todos.
De mim, me guardam toda.
Pois, no fim de mim, enfim, vão-se remover os pensamentos,
os princípios, a moral, a crença e a descrença,
as questões, o prazer e a dor, a memória e o saber.

De mim se alimentarão, até nada mais sobrar.
A luz se apagará, os olhos se abrirão.
Uma porta irão ver, por trás da qual avistarão
uma fresta iluminada por uma senda anil no céu.

A porta, aos poucos, se fechará, e nas trevas travar-se-á o fim.
Eterna condenação!
Essa força que me reduz a pó...

Poderia acreditar que, em cadeias sintomáticas,
retornarei como alguém,
por trás de um nome, de um rosto e de uma condição,
sempre com sofreguidão.

Só não sei o que é pior:
se sumir na imensidão ou existir na pequenez.