quarta-feira, agosto 20, 2008

Paciência

Rei no topo.
Base do baralho.
Dama no rei.
Valete na dama.
Figuras em jogo.
Cartadas futuras.
Sorte em apostas.

O jogo, com o tempo, deslancha — ou se estagna.

Vitória prevista: impulso para uma nova rodada.
Perda prostrada: ânimo para recomeçar.

O jogo é pra valer, um desafio entre naipes.

Espadas se cruzam, paus em posição, copas prestes a agir, ouros no desfecho.

Cartas na mesa.
Reserva no canto à direita.
Tablado disposto.

Solto as cartas, me entrego ao jogo.

Nesta corrente, me embaralho, me desmantelo, me despedaço.

O coringa não entra. Não neste jogo.

O bobo da corte está nulo.

Paciência, paciência — distraio-me do medo, da angústia e da dor.

Porque o jogo nunca acaba — não sou eu quem o joga, mas ele quem me joga.

Me move da esquerda para a direita, da direita para a esquerda,
de cima para baixo, de baixo para cima, num vai e vem, num zigue-zague.

Me substitui, me posiciona, me aproveita, me descarta.

Vitórias atrás de vitórias, derrotas atrás de derrotas, e estou desgastada, como uma carta velha, apagada.

Mas isso o jogo não entende.

Não entende.

Segue o jogo, até que escolho me posicionar e me torno carta fora do baralho.