segunda-feira, agosto 18, 2008

A dama do sono

Amado menino, ente querido,
Deite-se logo, venha dormir,
Feche os olhos e venha comigo.
Durma bem, durma em paz,
Que a nuvem do sono o traga para mim.

Venha, me siga,
Aproxime-se mais.
O portão está aberto! O que estás a esperar?
A noite o aguarda,
O bosque tão calmo o convida a entrar.

Seus passos vacilam? Não temas, meu anjo!
Entre e desvende,
Embrenhe-se nos matos,
Beba da fonte que, fresca, o presenteia,
Alimente-se dos frutos que, doces, se oferecem.

Deixe que as árvores o acolham,
Toque suas raízes e permita que o envolvam,
Abrace seus troncos e deixe que o enlacem,
Agarre seus galhos e permita que o elevem,
Aspire o perfume de suas flores e deixe-se envolver.
Entregue-se, perca-se, não procure voltar.

Puro e inocente, me encanta o seu olhar.
Acompanhe incessante o assovio que o chama.
Ouça, menino,
A natureza dos prados,
Harmoniosa música.

Toca...
Pio de coruja,
Coaxo de sapo,
Canto da cigarra e do grilo,
Em orquestra florestal.

Lua cheia, luz difusa.
Dançam, prateados, cintilantes reflexos.
O melódico vento move as ramagens.

Menino, apresse-se!
Chamam-no à frente.
Vacilantes, os passos deslizavam sobre a lama.

— Que queres? — pergunta o pobre menino.
Tremem as vestes do impaciente garoto.

— Corra, esconda-se! — dizia o soldado.

Ávido, o menino se esgueira por entre os arbustos.
Corre, mas logo cessa.
À sua frente, revela-se um rio.
Cercado, não há saída.

Senta-se à margem, o soldado, à espreita, hesita.

— Ó, que fazes aqui, tão belo garoto? — inquiriu o soldado.
— Estou à procura da Dama do Sono. — responde o menino.
— Ó, não! Deixe disso! Volte para casa. A Dama do Sono há muito se foi.
— Não posso, pois no sonho viajei e não sei como voltar.
— Deves te esconder o quanto antes. Tu corres perigo!
— Que perigo?
— Tolo garoto, não sabes onde estás?
— No reino do sono. Por Deus, estás a me assustar! Afinal, quem és tu?
— Sou alma errante, em eterna condenação!
— Como vieste para cá?
— Fui soldado em combate, na guerra. Muitos matei, decepei, lacerei. Meu corpo doía, minha alma rasgava. Rendi-me ao cansaço e deitei-me na relva. Fechei os olhos e nunca mais os abri. Afoguei-me na culpa e, cá estou, a pagar sentença.
— Pobre soldado! Como sofre teu coração! Diga-me a saída, preciso voltar!
— Garoto, tu deves tentar acordar. Preciso ir, meu tempo se esvai!
— Aonde vais?
— Afogar-me novamente em minha sentença. Nas águas do rio devo me afundar.
— Não vá! Tenho medo. Fica comigo!
— Se eu fico, o rio transborda e engole a nós dois. Menino, de tão bela alma, não mereces tal fim.

Foi-se o soldado. Ficou o garoto.

— Ó, meu anjo, não ouça atormentada alma. Os condenados nada sabem, estão presos a revoltas, vergonhas e tumultos. Vejo que encontraste algo muito precioso e, ao mesmo tempo, perigoso. Este rio à tua frente é a chave do meu reino.

O garoto, em confusão, deitou-se à margem, olhando para o sentido em que corriam as águas, tingidas de vermelho.
Estendeu a mão para beber... Mas que susto tomou ao perceber que o rio era de sangue!

Rio que se esconde no jardim das profecias...
Quando a lua está cheia, as almas se lhe escapam.
Águas sangrentas e pulsantes transbordam em lamúrias,
Arrastando de volta almas em penúria.

— Ó rio, virulento e turbulento! Dominaste-me em tuas águas! Maculaste-me com teu sangue!
Serpente líquida, lambes-me o corpo,
Cujo veneno sucumbe em minhas veias.

Ó menino, meu anjo sagrado,
Não deves provar de sua peçonha,
Nem ao menos cair em tal perversão.

Acorde, garoto! É hora de brincar.
A Dama se foi, sua inocência deixou.
O sonho... acabou.