Antes, o gesto acontecia
dissociado do sentido.
Agora, ele se sabe
como um olho que desperta e se vê.
O involuntário se compreende
e se reconhece, sem precisar se explicar.
Embarco novamente em minha nave,
máquina do tempo.
Viajo para o passado,
não para reparar,
consertar
ou salvar,
mas para não mentir sobre o que existiu.
Todas as coisas têm história.
Gosto de ver o que silencia,
vislumbrar o que jazia oculto.
O comum me é peculiar
pelas nuances que não notamos.
Quando a invisibilidade se revela,
sinto a mágica diante dos meus olhos:
ver aquilo que quase ninguém viu,
transmutar o ordinário,
o desprezado,
em algo único e especial
soa-me como um poder alquímico que poucos têm —
revelar a beleza do invisível.
É de delicadeza rara
o encanto por tais coisas a me embalar,
a me deixar abraçar pelo anonimato
que exala presença
genuína e rara de se encontrar.
A sutileza autêntica me detém.
Quem não disputa o olhar
é quem me convoca.
Me atrai o despercebido.
Gosto de olhar para aquilo
que não espera ser visto,
imaginando-me uma descobridora
de terras inexploradas,
garimpeira de tesouros
sob o chão que todos pisam.
Vestir-me do olhar absoluto,
registrar a realidade das coisas,
me empolga:
atravessar o imperceptível,
erguer o véu
do que sempre esteve lá.
Notar a gradação discreta do entorno,
surpreender-me com o de sempre:
o perfume suave
que se insinua no ar,
constante e fugidio.
Tudo isso me banha em calma e sossego,
num suspiro de alívio
frente ao peso das urgências e imposições.
Agrada-me a fala mansa
do que tem presença:
essa cor transparente
que se deixa atravessar.