terça-feira, dezembro 23, 2025

Manifesto íntimo do olhar

Antes, o gesto acontecia
dissociado do sentido.

Agora, ele se sabe
como um olho que desperta e se vê.

O involuntário se compreende
e se reconhece, sem precisar se explicar.

Embarco novamente em minha nave,
máquina do tempo.
Viajo para o passado,
não para reparar,
consertar
ou salvar,
mas para não mentir sobre o que existiu.

Todas as coisas têm história.

Gosto de ver o que silencia,
vislumbrar o que jazia oculto.
O comum me é peculiar
pelas nuances que não notamos.

Quando a invisibilidade se revela,
sinto a mágica diante dos meus olhos:
ver aquilo que quase ninguém viu,
transmutar o ordinário,
o desprezado,
em algo único e especial
soa-me como um poder alquímico que poucos têm —
revelar a beleza do invisível.

É de delicadeza rara
o encanto por tais coisas a me embalar,
a me deixar abraçar pelo anonimato
que exala presença
genuína e rara de se encontrar.

A sutileza autêntica me detém.
Quem não disputa o olhar
é quem me convoca.

Me atrai o despercebido.

Gosto de olhar para aquilo
que não espera ser visto,
imaginando-me uma descobridora
de terras inexploradas,
garimpeira de tesouros
sob o chão que todos pisam.

Vestir-me do olhar absoluto,
registrar a realidade das coisas,
me empolga:
atravessar o imperceptível,
erguer o véu
do que sempre esteve lá.

Notar a gradação discreta do entorno,
surpreender-me com o de sempre:
o perfume suave
que se insinua no ar,
constante e fugidio.

Tudo isso me banha em calma e sossego,
num suspiro de alívio
frente ao peso das urgências e imposições.

Agrada-me a fala mansa
do que tem presença:
essa cor transparente
que se deixa atravessar.