sábado, junho 14, 2025

Olhares que se encontram

Acostumados a olhar em volta, ao redor, com o olhar fragmentado em quantidade: de pessoas, coisas ou de pessoas coisificadas. Um olhar distante, perdido, esvaziado na multidão. Oculto por trás das telas, sem o desconforto de ser olhado, por medo de que se perceba o desejo de ser notado. Ambiguidade que nos fragmenta na ânsia de atrair o olhar do qual tanto nos esquivamos. Jogo de gato e rato.

Mas há o olhar que mira nos olhos de uma só pessoa, mergulha fundo e parece invadir os limites que erguemos contra o outro. Esse olhar incomoda, porque não apenas olha, ele enxerga. Vê o que tentamos esconder e maquiar. Ele desarma e atinge a alma.

Olhos que devoram um ser por inteiro e se mantêm no nível dos olhos que os sustentam, num ato misto de coragem e entrega. Estou olhando para a sua verdade, e é ela que o torna ainda mais bonito.

O meu sentir olha para o seu, e, ao ser compartilhado, atrai-nos mutuamente como ímãs que se arrastam para perto. Este é o movimento de aproximação de dois universos que se orbitam.

sexta-feira, junho 13, 2025

Você que em mim habita

A parceria mais honesta que podemos firmar é com nós mesmos. Não é a única, mas é a principal e nela reside a base da expansão da consciência.

Esse movimento não é uma fuga para fora, mas um retorno para dentro. Ao abrir espaços internos antes ignorados, deixamos de ser cegos de nós para, então, enxergar o outro sem projetar nossas carências.

Partimos de nós em direção ao mundo, moldados pela teia coletiva. Mas à medida que vivemos e refletimos, iniciamos o caminho de volta — árduo, mas inevitável para quem desperta como autor e ator no palco da vida.

Na busca, que é já o encontro, misturamos olhares, nos reconhecemos no outro e permitimos que ele habite os espaços que abrimos em nós. Atravessamos juntos as camadas que nos formam.

O outro entra como um eco da nossa consciência, trazendo à tona o que estava submerso. Meu olhar encontra o seu no espelho da humanidade e juntos, seguimos, lado a lado.

Podemos habitar, por instantes, as histórias uns dos outros, sem nos perder nelas, apenas fluindo no rio da vida, em comunhão entre consciências. Compreendemos, então, que toda realidade nasce do olhar que a observa e que nenhuma visão é definitiva.

A percepção se expande como eco interior, revelando o invisível. São lentes, espelhos, amplificadores da consciência.

Eu sou você que em mim habita. E me reconheço quando experimento você. Caminhamos juntos: você, ao se revelar; eu, ao responder.
Você é você, mesmo sendo eu.

quarta-feira, junho 11, 2025

Onde moro

Vestir-se de si é a indumentária certeira,
mas tornou-se a mais desconfortável,
pois nosso olhar se volta apenas para fora,
sempre além do que sou,
e se perde no querer ser.
Talvez o que eu verdadeiramente queira
seja ter-me como morada — e não o exílio de mim.

terça-feira, junho 10, 2025

Pilar invisível

Escrever é meu trabalho interno, silencioso e invisível ao mundo exterior.
O trabalho externo tem fala alta e parâmetro no outro,
sempre em busca do olhar alheio para autenticação.
A ele estamos habituados.

O labor interno tem natureza árdua,
porque nos acostumamos a buscar algo material,
além de nós mesmos,
para preencher um vazio que, de vazio, nada tem.
Nesse lugar de si mesmo, há escuridão, evitações e desprezos
presos ao padrão de repetição,
até que sejam vistos e alterados.

Ajustar o olhar para dentro é tarefa difícil,
demanda força — não bruta —
mas resistência e determinação.
Resistir ao desejo de fugir,
evitar e permanecer no giro até o cerne,
sem deixar escapar o movimento que puxa para fora,
que se verga à pressão externa
e cede vida a fora.

Procuro o silêncio,
e nele questiono insistentemente:
o que você quer?
A resposta procura respaldo no coletivo,
na narrativa imposta, no papel vendido e absorvido, aceitável.
Novamente, ela quer escapar pela tangente.
Então, mais uma vez, é preciso manter-se firme ao centro.

Quanto do que digo me pertence, me reflete, me diz respeito?
O que falo para outrem está imune ao desejo de pertencer e querer parecer?
Querer dizer, se afirmar, defender,
pedir para dar a cara a tapa,
serve como forma de demonstrar coragem de se expor,
ou meramente ter uma cara para bater ou oferecer?
Para toda cara calçada, uma alma desnuda.

É mais fácil derrubar e ferir algo de carne e osso
do que a uma ideia que não se pode tocar,
imune à materialidade de que sou feita,
me deixando vulnerável a ela.

Meu eu, mensurado pelas métricas estrangeiras a mim,
me imputa ânimo para agir diante do quê, afinal?
Esse olhar, enviesado,
partido em dois pelos limites da dualidade,
define o cenário que posso enxergar.

Me permito adentrar a porta estreita do desconhecido de si mesmo,
universo do desconforto,
solitário,
desprovido de garantias,
fluido ao nível do insuportável,
sem mapas e manuais de orientação.
Me pergunto: como confiar?

Aqui estamos completamente perdidos,
sem esteio que nos apoie.
Afinal, o pilar interno é invisível.

segunda-feira, junho 09, 2025

Espírito da língua

Toda e qualquer fala que eu traga em meu peito,
gestada no calor da minha alma,
virá à superfície carregada de minha própria história,
permeada pela herança linguística
que comungo através da língua portuguesa.

Minha língua é um rio fecundo,
que verte palavras e expressões
repletas de narrativas ancestrais,
navegando pelo tempo,
desenhando o contorno da minha realidade
e do meu olhar.

Minhas palavras brotam no solo fértil da língua portuguesa,
rica em nuances que se mesclam de um continente a outro,
traduzindo em som e ritmo
as dores e as alegrias de povos
que partilham de uma mesma melodia
e musicalidade ao se expressar.

São ondas sonoras
que unem almas distintas
e, ao mesmo tempo, similares,
cúmplices do inefável espírito que comunica.

Como o pescador que lança sua rede ao mar
na captura de peixes para nutrição e sustento,
envolve-nos a todos uma mesma música:
o português.

E, caso minha canção chegue aos teus ouvidos,
saiba que nela está o meu sentir,
condensado em palavras
pela língua que carrego como mãe.

Minha língua é a carruagem que transporta o espírito,
em estado de suspensão,
à ação traduzida em símbolo de identidade.

domingo, junho 08, 2025

Irrompe o inesperado

Acima, o céu: o éter.
Abaixo, o movimento: o trovão que irrompe em lampejo.
Quem segue o fluxo natural torna-se autêntico, sincero.
A sinceridade mora no agir, não apenas na ideia.

Ele surge — súbito —, vestido do inesperado,
carregando a inocência que nos devolve ao estado original.
A batida primordial do coração anuncia: boa fortuna.

O movimento criativo tem valor em si,
não no olhar que calcula resultados.
A realidade imposta, viciada em métricas,
corre contrária ao fluxo natural.

O plantio, a rega, o cuidado paciente
são soterrados pelo ímpeto e pelos artifícios apressados.
Tudo se mede em relação ao que está fora:
pura ilusão de controle.

A via se estreita, perdendo-se em becos de possibilidades vazias,
falsas promessas.

Dos bueiros sobem gases tóxicos;
vê-se gente zonza, inebriada — recipientes vazios.

As sementes tornaram-se estéreis.
O trabalho, infértil.
O peso dos corpos rachou ao meio
o espírito que anima.

sábado, junho 07, 2025

Jazz da alma

A noite é o cenário onde vagam meus olhos.

Meus passos sós ecoam pensamentos compassados.

Caminho sob o ritmo da batida seca do sapato sobre o asfalto, de onde emana o brilho artificial das luzes dos postes e faróis dos carros, contraste com o negro noturno: cor sobre a pálida solidão.

De longe, sopra uma brisa suave em meu rosto, trazendo consigo uma melodia distante, introdução à partitura, do trompete chorando no vazio da noite.

O toque intimista me chama a encontrá-lo na próxima esquina.

O homem e seu instrumento — um só ser.

Do objeto içado ao toque dos lábios brota a harmonia do fôlego humano: sopro criativo, improviso sobre essa realidade forjada que sufoca.

Sigo o som harmônico e rítmico da liberdade inventiva, desligando-me dos grilhões coletivos, conectando-me à melodia íntima da improvisação: espontânea, única e irrepetível — própria de um homem humano.

Deixo ir e tocar o jazz da alma que performa na noite, na solitude.

Conduzo e me deixo conduzir pelo fluxo musical deste ato da vida.