terça-feira, junho 10, 2025

Pilar invisível

Escrever é meu trabalho interno, silencioso e invisível ao mundo exterior.
O trabalho externo tem fala alta e parâmetro no outro,
sempre em busca do olhar alheio para autenticação.
A ele estamos habituados.

O labor interno tem natureza árdua,
porque nos acostumamos a buscar algo material,
além de nós mesmos,
para preencher um vazio que, de vazio, nada tem.
Nesse lugar de si mesmo, há escuridão, evitações e desprezos
presos ao padrão de repetição,
até que sejam vistos e alterados.

Ajustar o olhar para dentro é tarefa difícil,
demanda força — não bruta —
mas resistência e determinação.
Resistir ao desejo de fugir,
evitar e permanecer no giro até o cerne,
sem deixar escapar o movimento que puxa para fora,
que se verga à pressão externa
e cede vida a fora.

Procuro o silêncio,
e nele questiono insistentemente:
o que você quer?
A resposta procura respaldo no coletivo,
na narrativa imposta, no papel vendido e absorvido, aceitável.
Novamente, ela quer escapar pela tangente.
Então, mais uma vez, é preciso manter-se firme ao centro.

Quanto do que digo me pertence, me reflete, me diz respeito?
O que falo para outrem está imune ao desejo de pertencer e querer parecer?
Querer dizer, se afirmar, defender,
pedir para dar a cara a tapa,
serve como forma de demonstrar coragem de se expor,
ou meramente ter uma cara para bater ou oferecer?
Para toda cara calçada, uma alma desnuda.

É mais fácil derrubar e ferir algo de carne e osso
do que a uma ideia que não se pode tocar,
imune à materialidade de que sou feita,
me deixando vulnerável a ela.

Meu eu, mensurado pelas métricas estrangeiras a mim,
me imputa ânimo para agir diante do quê, afinal?
Esse olhar, enviesado,
partido em dois pelos limites da dualidade,
define o cenário que posso enxergar.

Me permito adentrar a porta estreita do desconhecido de si mesmo,
universo do desconforto,
solitário,
desprovido de garantias,
fluido ao nível do insuportável,
sem mapas e manuais de orientação.
Me pergunto: como confiar?

Aqui estamos completamente perdidos,
sem esteio que nos apoie.
Afinal, o pilar interno é invisível.