No videogame da vida, nada se move porque você não se move.
Temendo mover-se e errar, erra-se na estagnação.
Se olhar para o outro como parceiro de jogo, e não como mero adversário, por
meio das narrativas impostas aos players, começamos a nos mover adiante — e não
em círculos.
Seguindo fielmente o script do jogo, tornamo-nos NPCs: jogadores não jogáveis,
sem protagonismo sobre a própria vida.
Sim, fomos programados, somos programáveis, bonecos coadjuvantes; mas, diante
disso, não pare de jogar.
Jogue, permaneça no jogo, mas aprimore-se e mova-se em direção a novas fases.
O simulacro é inevitável, mas crie, neste jogo criado, suas próprias
experiências e aprendizados.
O que puder ser de si, seja. Solte, o quanto puder, o espelho coletivo de ações
e reações.
Não é se isolar do todo, mas se unir a ele a partir de si mesmo.
O coletivo que se dispõe à união genuína — e não à mera massa de manobra — é
poderoso, e quem detém o poder está ciente disso, programando o sistema a fim
de manter o jogo sob controle.
A identidade é um muro invisível de controle sobre aquilo que não tem forma nem
se pode moldar.
Tire os dedos dos botões que te definem e conduza a si mesmo neste jogo.
sexta-feira, maio 30, 2025
Vídeo game da vida
quinta-feira, maio 29, 2025
Diante do inevitável
Não há meios de expor minha essência.
Se o fizer, o que será desse corpo que me reveste?
A imagem forjada para proteger e sustentar os ossos e vísceras sob minha pele
irá desaparecer.
Para me mover em meio às dissonâncias, minhas e alheias, foi preciso um
exército de carne e osso.
A essência foi revestida pela matéria bruta e isso, sem dúvida, a endureceu; os
muros erguidos oprimem.
Toda e qualquer falha e disparidade entre o que há fora e o que há dentro se
converte em trincas, rachaduras, buracos, feridas por onde escapa o sangue
vital.
O rei de um reinado falido gestou um exército corrompido.
Do alto da torre, nada se enxerga além de grande confusão; aos poucos, o caos
se instaurou.
A mão que move as peças sobre o tabuleiro de xadrez congelou em xeque-mate.
O rei, em seu desprezo pelas coisas mundanas, é ele mesmo o objeto de seu
desprezo.
A torre de onde busca visão ampliada, numa posição privilegiada, está ruindo,
lentamente se dissolvendo em partículas inquietas que dançam no ar; seus olhos
marejados observam como quem nada pode fazer diante do inevitável.
quarta-feira, maio 28, 2025
Saberes à Prova de Fogo
Livros banidos pelo fogo lamentam sob o trepidar das chamas da ignorância.
Saberes servidos à mesa errada podem desandar.
Paladares imaturos não apreciam sabores exóticos.
Resistências que nos impuseram bloqueios
minaram o acesso a fontes autênticas
e nos deixaram à míngua,
conduzindo-nos à fome.
Aos pequenos que queimaram obras grandes: pobres almas, jogadas à miséria.
Volta e meia, cessa a combustão de um homem que se verga ao chão das ilusões.
Atear fogo sobre palavras impressas não apaga o sopro criador.
As ideias sobem do solo ao céu,
em uma fumaça espessa que se dissipa no tempo, através das eras,
com odor carregado de matéria orgânica, bruta, vital.
Cedo ou tarde, o saber renasce das cinzas.
terça-feira, maio 27, 2025
A mordida do transcendente
O transcendente me habita como quem
morde,
quebrando com firmeza o que me paralisa.
Rasga véus, desfaz nós,
rompe bloqueios
que, silenciosos, me impedem de seguir.
Sussurra:
— Cuidado com o excesso,
não te firas ao tentar ferir o que te
prende.
A mordida precisa ser precisa, justa,
necessária.
E então, após o estalo do que se quebra,
vem o alívio, e a fome revelada.
— Do que te alimentas agora?
— O que te nutre, após romper as cascas
e os elos?
Aprendo que a força não é apenas a de
romper,
mas, sobretudo, a de ensinar a escolher
o alimento certo,
a nutrir minha essência com aquilo que
me sustenta e me faz crescer.
O transcendente me move:
da ruptura ao cuidado,
da dureza à suavidade,
da fome à sabedoria.
Me sacio na oferta de luz à consciência.
segunda-feira, maio 26, 2025
Dom da quietude
Nasci com o dom do silêncio,
de ouvir o mundo calar.
À volta, tudo rui em pressa,
em mim, o sopro em suspensão.
Meus olhos veem por dentro,
meus passos sabem parar.
No lombo, quietude;
no coração, mansidão.
Mas não te enganes com minha
calma,
que carrega o dente da precisão
para mover montanhas —
calar padrões.
Mordo para cortar o nó,
desfazer laços invisíveis.
Minha voz é lâmina:
seu corte não fere,
liberta.
Sou a pausa antes do salto,
a pedra precisa do rio.
Meu silêncio não se omite —
emite fala autêntica,
livre de artifícios.
Meu dom é ver a verdade,
mesmo que ninguém queira ver.
E com firmeza e ternura,
abrir caminho pra alma passar.
O poço
A poesia me atravessa como quem volta
para casa.
Entendo: a mágica das palavras não é me
levar para longe,
mas me devolver ao centro, ao calor do
pertencimento,
ao lugar onde todos os sonhos se
assentam; neles, e deles, faço parte.
E, ao emergir do poço, com o balde
cheio,
volto à rua, ao dia,
sabendo que a poesia me ensinou a não
negar o vazio,
mas a habitá-lo, com ternura e espanto.
domingo, maio 25, 2025
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