quinta-feira, maio 29, 2025

Diante do inevitável

Não há meios de expor minha essência.
Se o fizer, o que será desse corpo que me reveste?
A imagem forjada para proteger e sustentar os ossos e vísceras sob minha pele irá desaparecer.
Para me mover em meio às dissonâncias, minhas e alheias, foi preciso um exército de carne e osso.
A essência foi revestida pela matéria bruta e isso, sem dúvida, a endureceu; os muros erguidos oprimem.
Toda e qualquer falha e disparidade entre o que há fora e o que há dentro se converte em trincas, rachaduras, buracos, feridas por onde escapa o sangue vital.
O rei de um reinado falido gestou um exército corrompido.
Do alto da torre, nada se enxerga além de grande confusão; aos poucos, o caos se instaurou.
A mão que move as peças sobre o tabuleiro de xadrez congelou em xeque-mate.
O rei, em seu desprezo pelas coisas mundanas, é ele mesmo o objeto de seu desprezo.
A torre de onde busca visão ampliada, numa posição privilegiada, está ruindo,
lentamente se dissolvendo em partículas inquietas que dançam no ar; seus olhos marejados observam como quem nada pode fazer diante do inevitável. 

quarta-feira, maio 28, 2025

Saberes à Prova de Fogo

Livros banidos pelo fogo lamentam sob o trepidar das chamas da ignorância.
Saberes servidos à mesa errada podem desandar.
Paladares imaturos não apreciam sabores exóticos.

Resistências que nos impuseram bloqueios
minaram o acesso a fontes autênticas
e nos deixaram à míngua,
conduzindo-nos à fome.

Aos pequenos que queimaram obras grandes: pobres almas, jogadas à miséria.
Volta e meia, cessa a combustão de um homem que se verga ao chão das ilusões.

Atear fogo sobre palavras impressas não apaga o sopro criador.

As ideias sobem do solo ao céu,
em uma fumaça espessa que se dissipa no tempo, através das eras,
com odor carregado de matéria orgânica, bruta, vital.

Cedo ou tarde, o saber renasce das cinzas.

terça-feira, maio 27, 2025

A mordida do transcendente

O transcendente me habita como quem morde,
quebrando com firmeza o que me paralisa.
Rasga véus, desfaz nós,
rompe bloqueios
que, silenciosos, me impedem de seguir.
 
Sussurra:
— Cuidado com o excesso,
não te firas ao tentar ferir o que te prende.
A mordida precisa ser precisa, justa, necessária.
 
E então, após o estalo do que se quebra,
vem o alívio, e a fome revelada.
 
— Do que te alimentas agora?
— O que te nutre, após romper as cascas e os elos?
 
Aprendo que a força não é apenas a de romper,
mas, sobretudo, a de ensinar a escolher o alimento certo,
a nutrir minha essência com aquilo que me sustenta e me faz crescer.
 
O transcendente me move:
da ruptura ao cuidado,
da dureza à suavidade,
da fome à sabedoria.
 
Me sacio na oferta de luz à consciência.
 

segunda-feira, maio 26, 2025

Dom da quietude

Nasci com o dom do silêncio,
de ouvir o mundo calar.
À volta, tudo rui em pressa,
em mim, o sopro em suspensão.

Meus olhos veem por dentro,
meus passos sabem parar.
No lombo, quietude;
no coração, mansidão.

Mas não te enganes com minha calma,
que carrega o dente da precisão
para mover montanhas —
calar padrões.

Mordo para cortar o nó,
desfazer laços invisíveis.
Minha voz é lâmina:
seu corte não fere,
liberta.

Sou a pausa antes do salto,
a pedra precisa do rio.
Meu silêncio não se omite —
emite fala autêntica,
livre de artifícios.

Meu dom é ver a verdade,
mesmo que ninguém queira ver.
E com firmeza e ternura,
abrir caminho pra alma passar.

O poço

A poesia me atravessa como quem volta para casa.
Entendo: a mágica das palavras não é me levar para longe,
mas me devolver ao centro, ao calor do pertencimento,
ao lugar onde todos os sonhos se assentam; neles, e deles, faço parte.
E, ao emergir do poço, com o balde cheio,
volto à rua, ao dia,
sabendo que a poesia me ensinou a não negar o vazio,
mas a habitá-lo, com ternura e espanto.

domingo, maio 25, 2025

Máscaras

Quanto de mim sou eu mesma, senão as mil máscaras com as quais me apresento?

Silêncio Intrauterino

Quando me recolho ao escuro, no silêncio intrauterino da gestação de mim mesma, sinto-me abafada pela angústia — diante do mundo que, lá fora, me aguarda — não de braços abertos.

Prestes a me soterrar, a umidade e o calor desse forno criatório me cozinham por dentro — somos todos almas paridas nesta vida de lida, assadas lentamente no ventre da existência.

As vozes... de quem são as vozes que ouço a tratar-me como mercadoria? Ora, se não são elas as mesmas que, de mim, ouço emanar.

Entre assaltos e sobressaltos, tropeço vida afora.
Entre saltos, bate o coração que banho no aço da espada.

Meu diafragma, desordenado, perde-se no caos da respiração acelerada, entrecortada, rachada pelo machado do medo.
Meus olhos, à procura da ameaça que espreita, olham atravessados — trespassados pelas setas do ambiente.

Os nervos, rijos, vibram como fios de alta tensão, à beira do curto.
Na iminência da eclosão, aquieto-me.

O falso só existe porque existe o verdadeiro.
O desamor só existe porque existe o amor.
A escassez se opõe à abundância.
Cada estado revela a presença de seu oposto.

Posso, então, repousar em paz diante do fato de que, para todo mal, há também o bem — sempre.
Portanto, a beleza não se perdeu, o amor não se acabou, a alma não se desvaneceu — apenas se recolheu diante do horror que se alastrou.
Toda ruína provém de um reinado.