Quando me recolho ao escuro, no silêncio intrauterino da gestação de mim mesma, sinto-me abafada pela angústia — diante do mundo que, lá fora, me aguarda — não de braços abertos.
Prestes a me soterrar, a umidade e
o calor desse forno criatório me cozinham por dentro — somos todos almas
paridas nesta vida de lida, assadas lentamente no ventre da existência.
As vozes... de quem são as vozes
que ouço a tratar-me como mercadoria? Ora, se não são elas as mesmas que, de
mim, ouço emanar.
Entre assaltos e sobressaltos,
tropeço vida afora.
Entre saltos, bate o coração que banho no aço da espada.
Meu diafragma, desordenado,
perde-se no caos da respiração acelerada, entrecortada, rachada pelo machado do
medo.
Meus olhos, à procura da ameaça que espreita, olham atravessados — trespassados
pelas setas do ambiente.
Os nervos, rijos, vibram como fios
de alta tensão, à beira do curto.
Na iminência da eclosão, aquieto-me.
O falso só existe porque existe o
verdadeiro.
O desamor só existe porque existe o amor.
A escassez se opõe à abundância.
Cada estado revela a presença de seu oposto.
Posso, então, repousar em paz
diante do fato de que, para todo mal, há também o bem — sempre.
Portanto, a beleza não se perdeu, o amor não se acabou, a alma não se
desvaneceu — apenas se recolheu diante do horror que se alastrou.
Toda ruína provém de um reinado.