segunda-feira, maio 26, 2025

O poço

A poesia me atravessa como quem volta para casa.
Entendo: a mágica das palavras não é me levar para longe,
mas me devolver ao centro, ao calor do pertencimento,
ao lugar onde todos os sonhos se assentam; neles, e deles, faço parte.
E, ao emergir do poço, com o balde cheio,
volto à rua, ao dia,
sabendo que a poesia me ensinou a não negar o vazio,
mas a habitá-lo, com ternura e espanto.

domingo, maio 25, 2025

Máscaras

Quanto de mim sou eu mesma, senão as mil máscaras com as quais me apresento?

Silêncio Intrauterino

Quando me recolho ao escuro, no silêncio intrauterino da gestação de mim mesma, sinto-me abafada pela angústia — diante do mundo que, lá fora, me aguarda — não de braços abertos.

Prestes a me soterrar, a umidade e o calor desse forno criatório me cozinham por dentro — somos todos almas paridas nesta vida de lida, assadas lentamente no ventre da existência.

As vozes... de quem são as vozes que ouço a tratar-me como mercadoria? Ora, se não são elas as mesmas que, de mim, ouço emanar.

Entre assaltos e sobressaltos, tropeço vida afora.
Entre saltos, bate o coração que banho no aço da espada.

Meu diafragma, desordenado, perde-se no caos da respiração acelerada, entrecortada, rachada pelo machado do medo.
Meus olhos, à procura da ameaça que espreita, olham atravessados — trespassados pelas setas do ambiente.

Os nervos, rijos, vibram como fios de alta tensão, à beira do curto.
Na iminência da eclosão, aquieto-me.

O falso só existe porque existe o verdadeiro.
O desamor só existe porque existe o amor.
A escassez se opõe à abundância.
Cada estado revela a presença de seu oposto.

Posso, então, repousar em paz diante do fato de que, para todo mal, há também o bem — sempre.
Portanto, a beleza não se perdeu, o amor não se acabou, a alma não se desvaneceu — apenas se recolheu diante do horror que se alastrou.
Toda ruína provém de um reinado.

sábado, maio 24, 2025

Ler e Ser Lida

Os olhos correm por sobre as linhas desenhadas em palavras.
Detenho-me sobre um trecho que me toca o coração.
Desvio-me para o além.
Pouso brevemente o livro sobre o peito.
Fecho os olhos,
trazendo o sentimento do fundo à superfície.
Num suspiro profundo,
esboço um leve sorriso, acolhendo a sensação
de ler e ser lida nas páginas de alguém
que, como eu, pisou os pés sobre areias movediças.
Eu sou ele, e ele sou eu: um espelho, portal de conjunção,
encontro atemporal.

Trigo d’alma

Estrondos de trovões, abruptos, fazem a terra tremer, açoites dos ventos, céu carregado em mil megatons: forma-se a tempestade que varre os campos. Chuva de verão, ruidosa, se destaca, porém passageira — logo, dissipam-se as nuvens.

Chuva calma e tranquila serenamente cai sobre o solo fértil, verdadeiro alimento a fazer brotar o trigo d’alma — silenciosa e discreta, mas permanente e de efeito duradouro.

Assim seguem-se os ciclos sazonais: a natureza revela várias faces e nuances, mas nunca se detém sobre um só viés; segue o fluxo do eterno movimento: transmutação. As águas que nascem na fonte seguem a correnteza, de rumo desconhecido, desenhando a paisagem das planícies e montanhas.

Assim são a terra, o céu e o homem. Mais vale perseverar diante daquilo que é duradouro, para quem deseja trilhar o caminho que leva à estabilidade e à força interior, do que se deter sobre fantasias efêmeras, às quais, dedicamos uma vida inteira. Para aqueles que se voltam para si, há sempre um vasto território a desbravar. Permaneço fiel a mim.

sexta-feira, maio 23, 2025

Tudo Só Ei de Ser Eu

Venho caminhando em silêncio.
Nos pés — desconforto.
Sinto meu peso.
Meu corpo, desajeitado,
parece não caber na própria marcha.

Minha sombra cresce —
ao meio-dia da consciência.
O sol toca o zênite,
e tudo o que sou se projeta no chão.

Dos poros, vaza um suor frio.
Premonição
da aproximação.
Incerteza.

É chegada a hora:
diante dela, não recuar.
Permanecer.

Onde apoiar os pés para atravessar?
Confiarei.
Há de se sustentar
o meu peso,
até que se cumpra o tempo de ir.

E o que de mim surgir adiante,
que venha.
Não temerei a forma do que serei.

Tudo só ei de ser eu.

Band-Aid Afetivo

Um ser que cava no outro a terra que lhe falta para tapar o buraco vazio da alma segue engolindo tudo o que pode — como um sumidouro faminto.
O desespero pelo outro carrega, em si, o desprezo por si mesmo — espíritos aleijados à procura de muletas.
Não se busca afeto verdadeiro, mas apenas fantasias projetivas da carência de si.
Temos, então, o Band-Aid afetivo: um mero curativo descartável para feridas que nunca cicatrizam.