domingo, maio 25, 2025

Silêncio Intrauterino

Quando me recolho ao escuro, no silêncio intrauterino da gestação de mim mesma, sinto-me abafada pela angústia — diante do mundo que, lá fora, me aguarda — não de braços abertos.

Prestes a me soterrar, a umidade e o calor desse forno criatório me cozinham por dentro — somos todos almas paridas nesta vida de lida, assadas lentamente no ventre da existência.

As vozes... de quem são as vozes que ouço a tratar-me como mercadoria? Ora, se não são elas as mesmas que, de mim, ouço emanar.

Entre assaltos e sobressaltos, tropeço vida afora.
Entre saltos, bate o coração que banho no aço da espada.

Meu diafragma, desordenado, perde-se no caos da respiração acelerada, entrecortada, rachada pelo machado do medo.
Meus olhos, à procura da ameaça que espreita, olham atravessados — trespassados pelas setas do ambiente.

Os nervos, rijos, vibram como fios de alta tensão, à beira do curto.
Na iminência da eclosão, aquieto-me.

O falso só existe porque existe o verdadeiro.
O desamor só existe porque existe o amor.
A escassez se opõe à abundância.
Cada estado revela a presença de seu oposto.

Posso, então, repousar em paz diante do fato de que, para todo mal, há também o bem — sempre.
Portanto, a beleza não se perdeu, o amor não se acabou, a alma não se desvaneceu — apenas se recolheu diante do horror que se alastrou.
Toda ruína provém de um reinado.

sábado, maio 24, 2025

Ler e Ser Lida

Os olhos correm por sobre as linhas desenhadas em palavras.
Detenho-me sobre um trecho que me toca o coração.
Desvio-me para o além.
Pouso brevemente o livro sobre o peito.
Fecho os olhos,
trazendo o sentimento do fundo à superfície.
Num suspiro profundo,
esboço um leve sorriso, acolhendo a sensação
de ler e ser lida nas páginas de alguém
que, como eu, pisou os pés sobre areias movediças.
Eu sou ele, e ele sou eu: um espelho, portal de conjunção,
encontro atemporal.

Trigo d’alma

Estrondos de trovões, abruptos, fazem a terra tremer, açoites dos ventos, céu carregado em mil megatons: forma-se a tempestade que varre os campos. Chuva de verão, ruidosa, se destaca, porém passageira — logo, dissipam-se as nuvens.

Chuva calma e tranquila serenamente cai sobre o solo fértil, verdadeiro alimento a fazer brotar o trigo d’alma — silenciosa e discreta, mas permanente e de efeito duradouro.

Assim seguem-se os ciclos sazonais: a natureza revela várias faces e nuances, mas nunca se detém sobre um só viés; segue o fluxo do eterno movimento: transmutação. As águas que nascem na fonte seguem a correnteza, de rumo desconhecido, desenhando a paisagem das planícies e montanhas.

Assim são a terra, o céu e o homem. Mais vale perseverar diante daquilo que é duradouro, para quem deseja trilhar o caminho que leva à estabilidade e à força interior, do que se deter sobre fantasias efêmeras, às quais, dedicamos uma vida inteira. Para aqueles que se voltam para si, há sempre um vasto território a desbravar. Permaneço fiel a mim.

sexta-feira, maio 23, 2025

Tudo Só Ei de Ser Eu

Venho caminhando em silêncio.
Nos pés — desconforto.
Sinto meu peso.
Meu corpo, desajeitado,
parece não caber na própria marcha.

Minha sombra cresce —
ao meio-dia da consciência.
O sol toca o zênite,
e tudo o que sou se projeta no chão.

Dos poros, vaza um suor frio.
Premonição
da aproximação.
Incerteza.

É chegada a hora:
diante dela, não recuar.
Permanecer.

Onde apoiar os pés para atravessar?
Confiarei.
Há de se sustentar
o meu peso,
até que se cumpra o tempo de ir.

E o que de mim surgir adiante,
que venha.
Não temerei a forma do que serei.

Tudo só ei de ser eu.

Band-Aid Afetivo

Um ser que cava no outro a terra que lhe falta para tapar o buraco vazio da alma segue engolindo tudo o que pode — como um sumidouro faminto.
O desespero pelo outro carrega, em si, o desprezo por si mesmo — espíritos aleijados à procura de muletas.
Não se busca afeto verdadeiro, mas apenas fantasias projetivas da carência de si.
Temos, então, o Band-Aid afetivo: um mero curativo descartável para feridas que nunca cicatrizam.

quinta-feira, maio 22, 2025

Epopeia cotidiana

O papel do escritor
é escrever para se elevar
acima do habitual,
eternizando a vivência comum.

Ao empunhar com firmeza a caneta,
ele abre caminhos pelas linhas escritas,
avançando em direção àquele que lê.
O corte e o aporte de suas ideias
tocam o leitor de inúmeras formas.

Dê-se a ele o cotidiano mediano,
e ele trará uma epopeia
de sabores e dessabores corriqueiros,
com o caráter de pequenos e breves atos heroicos.

Os acontecimentos vestem-se de palavras;
ao florear as situações ordinárias,
o escritor torna-as dignas de nota.

Colore-se o quadro da realidade
com tintas extraídas
da matéria bruta vital que corre nas veias.

No nascer e no morrer do dia,
faz-se a mágica do extraordinário,
expressa em versos.

quarta-feira, maio 21, 2025

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa e seu olhar de alma.
Esse olhar é um mergulho contínuo em diversas profundidades — ora na superfície, ora no abismo mais íntimo de si.
Olhares como o dele rasgam a capa aparente e penetram, feito feixe de luz na escuridão, a essência do nosso ser.
São como uma sonda, a explorar os mistérios de nossas galáxias interiores, captando vida no brilho das inúmeras estrelas que nos habitam.