quarta-feira, março 28, 2007
Liberdade
terça-feira, março 20, 2007
Tiros no escuro
Atiraram em mim, e caí escada abaixo.
Atiraram e acertaram.
Atingiram-me nas vísceras.
Atingiram-me no coração e o explodiram em pedaços.
Atiraram-me na cabeça e fizeram do meu cérebro fragmentos.
Atingiram-me nos membros e privaram-me dos movimentos.
Atingiram-me nos olhos e os arrancaram de suas órbitas.
Atingiram-me nos ouvidos e desfizeram meus tímpanos.
Atingiram-me na boca e tiraram-me a palavra, tiraram-me o sorriso...
Eu atirei...
O som do projétil disparado no ar ecoou.
Atirei na escuridão e acertei.
Atingi a matéria estática.
Atingi nada mais que o espaço, mas no espaço havia algo...
Atingi o tempo, mas no tempo havia algo...
Atingi o que me atingiu e, juntos, agonizamos, esvaímo-nos em sangue imundo, que inundou tudo ao redor.
Ambos atingidos, estancamos o fluxo, costuramos os furos...
Glóbulos brancos e vermelhos espalhados, perdidos, enfraquecendo-nos aos poucos pela perda incessante.
Desfiz-me, descontrolei-me e atirei para todos os lados.
Atirei e acertei o alvo errado.
Dei as costas e acertaram-me, até que nada mais pudesse ser feito.
quarta-feira, março 14, 2007
Nada além
terça-feira, novembro 21, 2006
O Bêbado e a platéia
terça-feira, novembro 07, 2006
Mumúrios
quinta-feira, setembro 21, 2006
Do lado de cá
quinta-feira, agosto 24, 2006
O reflexo das flores
Acordei e senti que nada havia mudado; tudo se repetia. Todos pareciam ser os mesmos, de horas e milênios atrás.
Eu queria gritar. Minhas mãos tremiam, meu corpo estava cansado — talvez não apenas ele.
Vi-me caminhando em um imenso jardim, repleto de flores, todas elas cheias de vida e, por sua vez, de alma. A imagem foi se dissipando; as cores misturavam-se, e eu já não conseguia distinguir uma da outra.
As flores se uniram, gerando uma só flor, que continha todas as outras em seu ser. Ela brilhava como o sol no zênite. Então percebi que possuía milhares de pétalas e que, em cada pétala, havia um espelho refletindo centenas de imagens iguais à sua. A unidade continha em si a multiplicidade.
Pareciam idênticas, mas, se me aproximasse um pouco mais, veria que eram únicas.
Arranquei-a da terra e contemplei sua beleza. Pude senti-la. Acreditei poder tê-la comigo para sempre, mas logo percebi que algo nela escapava ao meu controle. Seu bem mais precioso era sua vida, que se esvaía em minhas mãos.
Isso, eu não poderia deter. Ela estava partindo para além do meu ser.
És minha, pois, do contrário, não desabrocharia.
És minha, mas foge ao meu entendimento.
És minha, mas não me pertence.
És minha, mas ultrapassa meus limites.
És minha, mas ascende a um posto que não poderei tomar.
És minha, mas caminha onde meus pés jamais poderão tocar.
Afirmo-te seres minha, mas não o és.
És alma, e a ninguém pertencerás.