quinta-feira, agosto 24, 2006

O reflexo das flores

Acordei e senti que nada havia mudado; tudo se repetia. Todos pareciam ser os mesmos, de horas e milênios atrás.

Eu queria gritar. Minhas mãos tremiam, meu corpo estava cansado — talvez não apenas ele.

Vi-me caminhando em um imenso jardim, repleto de flores, todas elas cheias de vida e, por sua vez, de alma. A imagem foi se dissipando; as cores misturavam-se, e eu já não conseguia distinguir uma da outra.

As flores se uniram, gerando uma só flor, que continha todas as outras em seu ser. Ela brilhava como o sol no zênite. Então percebi que possuía milhares de pétalas e que, em cada pétala, havia um espelho refletindo centenas de imagens iguais à sua. A unidade continha em si a multiplicidade.

Pareciam idênticas, mas, se me aproximasse um pouco mais, veria que eram únicas.

Arranquei-a da terra e contemplei sua beleza. Pude senti-la. Acreditei poder tê-la comigo para sempre, mas logo percebi que algo nela escapava ao meu controle. Seu bem mais precioso era sua vida, que se esvaía em minhas mãos.

Isso, eu não poderia deter. Ela estava partindo para além do meu ser.

És minha, pois, do contrário, não desabrocharia.
És minha, mas foge ao meu entendimento.
És minha, mas não me pertence.
És minha, mas ultrapassa meus limites.
És minha, mas ascende a um posto que não poderei tomar.
És minha, mas caminha onde meus pés jamais poderão tocar.

Afirmo-te seres minha, mas não o és.
És alma, e a ninguém pertencerás.