terça-feira, março 20, 2007

Tiros no escuro

Atiraram em mim, e caí escada abaixo.
Atiraram e acertaram.
Atingiram-me nas vísceras.
Atingiram-me no coração e o explodiram em pedaços.
Atiraram-me na cabeça e fizeram do meu cérebro fragmentos.
Atingiram-me nos membros e privaram-me dos movimentos.
Atingiram-me nos olhos e os arrancaram de suas órbitas.
Atingiram-me nos ouvidos e desfizeram meus tímpanos.
Atingiram-me na boca e tiraram-me a palavra, tiraram-me o sorriso...

Eu atirei...
O som do projétil disparado no ar ecoou.
Atirei na escuridão e acertei.
Atingi a matéria estática.
Atingi nada mais que o espaço, mas no espaço havia algo...
Atingi o tempo, mas no tempo havia algo...
Atingi o que me atingiu e, juntos, agonizamos, esvaímo-nos em sangue imundo, que inundou tudo ao redor.

Ambos atingidos, estancamos o fluxo, costuramos os furos...
Glóbulos brancos e vermelhos espalhados, perdidos, enfraquecendo-nos aos poucos pela perda incessante.
Desfiz-me, descontrolei-me e atirei para todos os lados.
Atirei e acertei o alvo errado.
Dei as costas e acertaram-me, até que nada mais pudesse ser feito.