sábado, janeiro 24, 2026

Pássaro Preto voe por estas palavras

Estava eu absorta em pensamentos, tomada de repente por uma enxurrada que me levou para longe, alheia ao mundo, enquanto a mente avançava mais rápido que o coração.

Pedalava eu, concentrada na materialidade do corpo e do esforço físico, escapei do entorno até que a vida frágil cruzou meu caminho em um pássaro preto caído na estrada.

O coração ferroou em dor e pesar pela vida que passa, por mim que passei e não parei diante dele. Carreguei comigo uma pena. Uma pena preta de asas inertes, um luto silencioso que me acompanha até o fim do caminho.

Esse sentir pela natureza atropelada seguiu comigo e me visitou em sonho. Nele, o pássaro que deixei no chão me olhava do alto de uma árvore seca. Eu novamente passava de bicicleta e agora era meu olhar que se erguia. Perguntei-me que pássaro era aquele e ele então voou, cruzando o céu carregado de nuvens enquanto eu o acompanhava.

Na vida passei acima dele. No sonho, ele voou acima de mim. Encontramo-nos nesse cruzamento. Nosso adeus não foi um gesto externo, apenas a consciência de não reduzir a vida ao choque do chão.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Grito do silêncio

Há algo de arcaico em mim que me faz dar voz ao não humano, como se o mundo fosse vivo e orgânico.
E ele é.

Tudo é vivo: animais, insetos, pensamentos, objetos, ambientes, sensações.
A ideia de que só os humanos falam morreu ou talvez nunca tenha existido.

A alma fala em muitas línguas e não encontra respostas apenas nos homens, mas no mundo inteiro.
Testemunho os silêncios que gritam aos ouvidos de quem vê.

Desde o bêbado que vomita verdades ao desconhecido, para descarregar a dor do mundo na promessa de expressão, até a presença do invisível, sentida de corpo inteiro. Nela posso suportar o vazio de um vaso sem o impulso de preenchê-lo.

Ouço o som que ecoa no espaço, seu lamento, seu choro.

Contenho a tempo a ânsia de correr em direção aos outros, para longe de mim.
Não a reprimo. Procuro compreender os bastidores dos meus passos involuntários.

E é nessa fenda entre o querer e o entender que encontro minha verdade inteira, outrora despedaçada nos tropeços da precipitação, quando chuvas intensas se descarregavam e me inundavam.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Tráfego aéreo dos pensamentos soltos

Observo o tráfego aéreo intenso dos meus pensamentos.
Não intervenho, apenas os vejo chocando-se entre si.
Por ora, deixo inativa a torre de comando.

Muitos repicam o espaço como bolas de tênis,
rolam soltos pelo chão, levantam voos rasos e se espalham.
Alguns se dissolvem no ar, outros, parados pelo atrito,
permanecem deixados de lado.

São todos dotados de cor, forma e som,
com ou sem sentido.
Existem e se manifestam nessa terra de ninguém.

Contenho o desejo de segui-los.
Deixo-os passar livremente,
feito nuvens passageiras que não posso controlar.

Decido não me envolver,
apenas ver onde vão dar,
até onde irão voar ou pousar.

O movimento contínuo me entretém
e, nisso, me envolvo por inteiro,
dos pés à cabeça,
contemplando sua natureza incessante.

Como um rádio a sintonizar inúmeras estações,
ouço-as chiar à procura de frequências variadas,
até que tudo se condensa em um ruído branco:
um “shhhh” constante
que dissolve o barulho
e me estabiliza.

quarta-feira, janeiro 21, 2026

Som da existência

Entre os centros urbanos, inflados pela escala e pelos antagonismos entre poder e impotência, e as cidades do interior, ricas em familiaridade e identidade, imagino estas últimas como territórios dos pardais provincianos.

Os pardais vivem em disputa por pequenas coisas. Fixam-se, delimitam e defendem microterritórios. Migalhas viram patrimônio, galhos viram fronteiras, o espaço do outro vira assunto. Há sempre um pequeno drama em curso, um envolvimento imediatista.

Percorrem os arredores atentos a qualquer desvio do comum. Reagem, brigam por quase nada, repetem gestos grupais. Tudo é próximo, pessoal, sem distância possível.

Nesse sentido, encarnam o espírito provincial. Não como falha moral, mas como condição existencial. A vida acontece num raio curto, e qualquer variação ganha peso desproporcional.

Barulhentos, afirmam presença pelo som. Não ocupam o mundo pela extensão, mas pela insistência. O canto não é canto, é aviso, piado, comentário, falatório. Um ruído curto e repetido, quase ansioso, como se o silêncio os pudesse dissolver.

Sua existência depende do retorno imediato. O som chama resposta, vigia o entorno, mantém o bando coeso e, ao mesmo tempo, em constante atrito. Onde o anonimato cede espaço a exposição permanente de ser reconhecido a cada esquina.

Me parecem humanos em sua inquietação, ou talvez seja meu olhar inquieto que os humanize e neles projete nosso próprio desassossego. Essa dificuldade em suportar ser apenas plano de fundo de um panorama maior.

Combinam com o burburinho das pequenas cidades, onde tudo ganha relevo por falta de escala. Como se dissessem, a cada chilreio, “estou aqui”, não para o mundo inteiro, mas para o quarteirão.

Quando o horizonte é estreito, qualquer movimento se amplifica. O pequeno se engrandece e o ruído impede o vazio, mantendo tudo em circulação, mesmo quando a vida gira em círculos.

terça-feira, janeiro 20, 2026

Nativos de lugar nenhum

Os pombos são talvez a figura que melhor represente o cosmopolitismo mundano. Atravessam continentes, línguas, climas e arquiteturas com uma naturalidade quase indiferente às fronteiras humanas. Estão por toda parte, sempre com o mesmo ar de quem já conhece o lugar, carregando a normalidade das coisas.

Seres que comportam, em um mesmo corpo, o sagrado e o profano revelam menos uma contradição do que um limite do nosso olhar. Na imagem límpida da pomba branca, projetamos o Espírito Santo não tocado pelo mundo. No pombo cinza, sujo de realidade, misturado à cidade, submetido à repetição e à necessidade, enxergamos o incômodo do comum multiplicado.

Talvez o profano seja apenas o sagrado que pousou do céu. Quando se aproxima demais, quando se torna cotidiano, quando passa a dividir o chão conosco, deixa de ser reconhecido como tal.

Quanto mais o pombo se espalha, menos está em algum lugar. Torna-se anônimo pelo excesso. Não é exótico, nem raro, nada promete. Apenas persiste. Isso irrita o olhar viciado na exceção, incapaz de sustentar a continuidade. O comum vira ruído, objeto de desprezo.

No fundo, ele encarna uma forma de existência que a cidade produz e rejeita ao mesmo tempo. O habitante anônimo, cosmopolita por necessidade, invisível por abundância. Ele lembra aquilo que a cidade tenta apagar: a vida que não performa, que não pede atenção, que não se justifica esteticamente. Está ali sem narrativa, sem função simbólica elevada. Vive, multiplica-se, ocupa o chão. Alimenta-se do que encontra.

Sua cor repete o tom do concreto, do asfalto, das fachadas gastas, do céu poluído. Não contrasta, não chama. Mistura-se. É como se tivesse sido pintado pela própria cidade ao longo do tempo. Um corpo absorvido pelo cenário, cujo tom não é ausência, mas saturação.

Assim como tantos habitantes urbanos que existem sem marca, sem distinção, sem narrativa heroica, o pombo encontra no cinza um refúgio de anonimato e sobrevivência. Ele não embeleza a cidade. Ele revela a cidade.

O pombo urbano expõe uma verdade incômoda: o sagrado não vive apenas no alto, no branco ou no raro. Ele também insiste em existir no comum, no cinza, no excesso. Talvez o verdadeiro antagonismo não esteja na ave, mas no olhar humano, incapaz de sustentar o sagrado quando ele se torna cotidiano, incapaz de ver que o cinza é apenas o branco que atravessou o mundo.

segunda-feira, janeiro 19, 2026

Linha imaginária

Estar no coletivo e ouvi-lo me circundar, sem nele me dissolver, aprofunda-me no meu próprio silêncio. Pela presença, desenham-se contornos entre eles e eu, dentro e fora.

Vejo a linha imaginária entre a parte e o todo e a reconheço como algo familiar, quase um alívio por estar em meio a tudo isso.

Agradeço a oportunidade de ser única entre uma massa de indivíduos públicos como eu. Aproximamo-nos e nos afastamos conforme as circunstâncias da vida, seguindo a maré que nos move, avançando e recuando no mesmo oceano.

domingo, janeiro 18, 2026

Poética orbital

Minha escrita não é linear, mas orbital: reflete uma consciência que gira em torno de um eixo que não se pretende alcançar, apenas gravitar, sem se fixar. A queda, inerente a todos nós, é parte do movimento. Desde cedo, ao aprender a andar, caímos junto com o gesto.

Hoje caí na real: ainda não consigo habitar o ser humano comum que sou. Vivo em análise, como um experimento, e acabo me tornando aquilo que critico. Intérprete de mim, meu olhar não se desliga por decreto; faço da vida um tubo de ensaio. Escrevo não de um lugar resolvido, mas de um lugar honesto.

Não falo de fora, mas de dentro da armadilha, no instante em que reconheço o seu mecanismo. Não se trata de aprender a morar no corriqueiro, mas de uma desaprendizagem corporal. A consciência corre à frente, interpretando, enquanto o corpo permanece em suspensão, vivendo em “tese”, mesmo ao criticá-la. Não sou a tese: reconheço em mim o mesmo dispositivo que enxergo no mundo.

Perceber que ainda estou dentro do mecanismo, apesar de vê-lo, me revela algo simples e difícil: a verdade mora na presença. Neste ponto do voo, já enxergo o terreno onde devo pousar, embora ainda não o sinta sob os pés.

Ainda não sei viver a vida que defendo. Mas já posso vê-la. A defesa nasce da falta, do atrito, da dor de ainda não conseguir habitá-la. Se eu já soubesse vivê-la, talvez nem precisasse formulá-la em palavras.

Nomear não garante o pouso nem a firmeza do chão. É preciso aceitar o malfeito inicial: viver aos tropeços, em versões imperfeitas, contraditórias, às vezes caricatas. Permitir cenas pequenas, quase ridículas, gestos que não confirmam nada.

Venho narrando o que falha. Quando der certo, talvez não haja o que dizer. Quando for sincero, talvez não haja discurso.

Preciso me deixar errar até acertar de verdade. Talvez o acerto não seja um ponto de chegada, mas o momento em que me esqueço de que estava procurando. Ninguém anuncia. A vida simplesmente continua.

Constato onde estou.

Esse é o movimento orbital da consciência em torno do eixo. Escrevo de dentro da fratura e do movimento; quando o processo se completa, me calo. O valor do que digo está no silêncio que sucede.

As feridas permanecem como relevo no meu território: não doem, mas têm contorno, sentido e lugar. Como topografia, orientam-me.

A escrita costura meus fragmentos, unifica dispersões em um mesmo mapa, repatria minhas partes em uma só nação.

A verdade não é fim, é localização; apenas marca o ponto no mapa.
O resto vem quando vier, sem anúncio nem explicação.