quarta-feira, janeiro 21, 2026

Som da existência

Entre os centros urbanos, inflados pela escala e pelos antagonismos entre poder e impotência, e as cidades do interior, ricas em familiaridade e identidade, imagino estas últimas como territórios dos pardais provincianos.

Os pardais vivem em disputa por pequenas coisas. Fixam-se, delimitam e defendem microterritórios. Migalhas viram patrimônio, galhos viram fronteiras, o espaço do outro vira assunto. Há sempre um pequeno drama em curso, um envolvimento imediatista.

Percorrem os arredores atentos a qualquer desvio do comum. Reagem, brigam por quase nada, repetem gestos grupais. Tudo é próximo, pessoal, sem distância possível.

Nesse sentido, encarnam o espírito provincial. Não como falha moral, mas como condição existencial. A vida acontece num raio curto, e qualquer variação ganha peso desproporcional.

Barulhentos, afirmam presença pelo som. Não ocupam o mundo pela extensão, mas pela insistência. O canto não é canto, é aviso, piado, comentário, falatório. Um ruído curto e repetido, quase ansioso, como se o silêncio os pudesse dissolver.

Sua existência depende do retorno imediato. O som chama resposta, vigia o entorno, mantém o bando coeso e, ao mesmo tempo, em constante atrito. Onde o anonimato cede espaço a exposição permanente de ser reconhecido a cada esquina.

Me parecem humanos em sua inquietação, ou talvez seja meu olhar inquieto que os humanize e neles projete nosso próprio desassossego. Essa dificuldade em suportar ser apenas plano de fundo de um panorama maior.

Combinam com o burburinho das pequenas cidades, onde tudo ganha relevo por falta de escala. Como se dissessem, a cada chilreio, “estou aqui”, não para o mundo inteiro, mas para o quarteirão.

Quando o horizonte é estreito, qualquer movimento se amplifica. O pequeno se engrandece e o ruído impede o vazio, mantendo tudo em circulação, mesmo quando a vida gira em círculos.