Há algo de arcaico em mim que me faz dar voz ao não humano, como se o mundo fosse vivo e orgânico.
E ele é.
Tudo é vivo: animais, insetos, pensamentos, objetos, ambientes, sensações.
A ideia de que só os humanos falam morreu ou talvez nunca tenha existido.
A alma fala em muitas línguas e não encontra respostas apenas nos homens, mas no mundo inteiro.
Testemunho os silêncios que gritam aos ouvidos de quem vê.
Desde o bêbado que vomita verdades ao desconhecido, para descarregar a dor do mundo na promessa de expressão, até a presença do invisível, sentida de corpo inteiro. Nela posso suportar o vazio de um vaso sem o impulso de preenchê-lo.
Ouço o som que ecoa no espaço, seu lamento, seu choro.
Contenho a tempo a ânsia de correr em direção aos outros, para longe de mim.
Não a reprimo. Procuro compreender os bastidores dos meus passos involuntários.
E é nessa fenda entre o querer e o entender que encontro minha verdade inteira, outrora despedaçada nos tropeços da precipitação, quando chuvas intensas se descarregavam e me inundavam.