terça-feira, janeiro 20, 2026

Nativos de lugar nenhum

Os pombos são talvez a figura que melhor represente o cosmopolitismo mundano. Atravessam continentes, línguas, climas e arquiteturas com uma naturalidade quase indiferente às fronteiras humanas. Estão por toda parte, sempre com o mesmo ar de quem já conhece o lugar, carregando a normalidade das coisas.

Seres que comportam, em um mesmo corpo, o sagrado e o profano revelam menos uma contradição do que um limite do nosso olhar. Na imagem límpida da pomba branca, projetamos o Espírito Santo não tocado pelo mundo. No pombo cinza, sujo de realidade, misturado à cidade, submetido à repetição e à necessidade, enxergamos o incômodo do comum multiplicado.

Talvez o profano seja apenas o sagrado que pousou do céu. Quando se aproxima demais, quando se torna cotidiano, quando passa a dividir o chão conosco, deixa de ser reconhecido como tal.

Quanto mais o pombo se espalha, menos está em algum lugar. Torna-se anônimo pelo excesso. Não é exótico, nem raro, nada promete. Apenas persiste. Isso irrita o olhar viciado na exceção, incapaz de sustentar a continuidade. O comum vira ruído, objeto de desprezo.

No fundo, ele encarna uma forma de existência que a cidade produz e rejeita ao mesmo tempo. O habitante anônimo, cosmopolita por necessidade, invisível por abundância. Ele lembra aquilo que a cidade tenta apagar: a vida que não performa, que não pede atenção, que não se justifica esteticamente. Está ali sem narrativa, sem função simbólica elevada. Vive, multiplica-se, ocupa o chão. Alimenta-se do que encontra.

Sua cor repete o tom do concreto, do asfalto, das fachadas gastas, do céu poluído. Não contrasta, não chama. Mistura-se. É como se tivesse sido pintado pela própria cidade ao longo do tempo. Um corpo absorvido pelo cenário, cujo tom não é ausência, mas saturação.

Assim como tantos habitantes urbanos que existem sem marca, sem distinção, sem narrativa heroica, o pombo encontra no cinza um refúgio de anonimato e sobrevivência. Ele não embeleza a cidade. Ele revela a cidade.

O pombo urbano expõe uma verdade incômoda: o sagrado não vive apenas no alto, no branco ou no raro. Ele também insiste em existir no comum, no cinza, no excesso. Talvez o verdadeiro antagonismo não esteja na ave, mas no olhar humano, incapaz de sustentar o sagrado quando ele se torna cotidiano, incapaz de ver que o cinza é apenas o branco que atravessou o mundo.