Estava eu absorta em pensamentos, tomada de repente por uma enxurrada que me levou para longe, alheia ao mundo, enquanto a mente avançava mais rápido que o coração.
Pedalava eu, concentrada na materialidade do corpo e do esforço físico, escapei do entorno até que a vida frágil cruzou meu caminho em um pássaro preto caído na estrada.
O coração ferroou em dor e pesar pela vida que passa, por mim que passei e não parei diante dele. Carreguei comigo uma pena. Uma pena preta de asas inertes, um luto silencioso que me acompanha até o fim do caminho.
Esse sentir pela natureza atropelada seguiu comigo e me visitou em sonho. Nele, o pássaro que deixei no chão me olhava do alto de uma árvore seca. Eu novamente passava de bicicleta e agora era meu olhar que se erguia. Perguntei-me que pássaro era aquele e ele então voou, cruzando o céu carregado de nuvens enquanto eu o acompanhava.
Na vida passei acima dele. No sonho, ele voou acima de mim. Encontramo-nos nesse cruzamento. Nosso adeus não foi um gesto externo, apenas a consciência de não reduzir a vida ao choque do chão.