Observo o tráfego aéreo intenso dos meus pensamentos.
Não intervenho, apenas os vejo chocando-se entre si.
Por ora, deixo inativa a torre de comando.
Muitos repicam o espaço como bolas de tênis,
rolam soltos pelo chão, levantam voos rasos e se espalham.
Alguns se dissolvem no ar, outros, parados pelo atrito,
permanecem deixados de lado.
São todos dotados de cor, forma e som,
com ou sem sentido.
Existem e se manifestam nessa terra de ninguém.
Contenho o desejo de segui-los.
Deixo-os passar livremente,
feito nuvens passageiras que não posso controlar.
Decido não me envolver,
apenas ver onde vão dar,
até onde irão voar ou pousar.
O movimento contínuo me entretém
e, nisso, me envolvo por inteiro,
dos pés à cabeça,
contemplando sua natureza incessante.
Como um rádio a sintonizar inúmeras estações,
ouço-as chiar à procura de frequências variadas,
até que tudo se condensa em um ruído branco:
um “shhhh” constante
que dissolve o barulho
e me estabiliza.