sábado, janeiro 17, 2026

Experimento in vitro

Vivemos em um mundo assombrado pela idealização, pelo sonho de acolhimento, reconhecimento e pertencimento. Esquecemos a presença real. Esquecemos o brilho simples das coisas comuns.

O coração sente, mas não digere. Regurgita o sentir em reflexos automáticos de autodefesa.

O sentimento passou a ser tratado como invasão. O que é humano virou ameaça, motivo de medo, distância e fuga.

A autenticidade rareou. Em seu lugar, instalou-se a performance. As relações empobreceram, os vínculos tornaram-se frágeis, e a vida virou palco.

Sentir foi reduzido a um frasco bonito que exala perfume. Encanta, seduz, vende. Mas em nada disso há vida.

Figuras vendáveis.
Vitrines cheias.
Conteúdos vazios.

O encanto que promete libertação aprisiona. Não se toca o próprio desejo por medo de senti-lo.

O que impera é o medo.
O medo de não ser o bastante.

Experimenta-se no ideal aquilo que não se sustenta no real. Confetes lançados.

Plantam sementes em estufas e abandonam a colheita. Permanecem inférteis, como experimentos in vitro.

Talvez consigam amar seus iguais. Mas eu, que já carreguei pesos arbitrários, falsas imagens e visões deturpadas, como alma encarnada em um corpo, assumo-me humana.

Transito entre erros e acertos. Eles não me definem. Não sou isso nem aquilo. Estou aqui.

Não sou prova nem missão. Sou vida em experiência. Meus vínculos não são meios nem fins. São presença partilhada.

Com a essência não se negocia.
Com a essência se posiciona.

Não busco ascensão. Busco aterrisagem.
Não prometo transcendência. Ofereço presença.

Não sou arquétipo. Sou corpo vivo.
Não reivindico elevação. Reivindico o direito à vida comum.

Passo por narrativas alheias sem morar nelas. Vivo o que é justo agora.

Aprendo mais a remover do que a acrescentar.

Não quero príncipes, guias, heróis, carrascos, semideuses ou fantasmas idealizados.

Quero humanos inteiros.
Com os pés no chão.
Reais.

O espírito que rejeita o corpo vira abstração.
O corpo que aceita o espírito se torna vida.

sexta-feira, janeiro 16, 2026

O espírito da consciência

Antes, tudo aqui era mata virgem, mato alto, emaranhado. Certo dia, o pensamento que vagava feito fantasma na floresta resolveu olhar-se no espelho de um rio e foi pego de surpresa pela própria imagem.

— Ora, vejam só! O fantasma existe e tem forma! — exclamou uma voz.

— Quem está aí? Quem fala, aqui de onde estou? — perguntou, confuso, ao notar sua própria voz questionando-se.

— Antes, só havia a mim; agora falo e ouço, como se fossem dois: aquele que fala e aquele que ouve e nota! — ainda perdido, olhou ao redor.

Ouviu o som metálico de uma lâmina afiada cortando o ar. Sua espada configurou-se no discernimento recém-adquirido.

— Por Deus! Estou armado de um novo poder! — concluiu, sobressaltado.

A excitação do momento o impulsionou em movimentos circulares, como alguém que testa o corte da espada. Passou a dar nome aos bois, a dar forma ao invisível — o fantasma que era, enfim, existiu. Todo o emaranhado que o rodeava, de repente, parecia implorar por ordenação e significação.

As palavras assumiram seus postos em meio à confusão, e o caos tornou-se terreno fértil para o trabalho que se insinuava necessário. Finalmente, o fantasma havia sido convocado a elaborar a si mesmo.

Quem, afinal, teria invocado o espírito que vagava disperso pela floresta de si?
Não importa, pois agora ele estava presente, materializado e armado de sua espada outrora embainhada.

O fantasma abriu clareiras mentais onde antes só havia mata fechada. Criou trilhas de pensamentos, construiu estruturas de análise, chegou a conclusões, derrubou certezas, duvidou, avançou e recuou. Havia muito o que fazer: pensar, nomear, dizer.

Antes alheio a tudo isso que agora lhe passava, não poderia mais ignorar nem retornar ao antigo estado despercebido. Mas não sabia ao certo se estava certo — era essa sua condição atual.

— Conseguirei eu continuar existindo até o fim da vida? — perguntou o fantasma, que agora tinha corpo, alma e pensamento.

Continuar existindo… estar presente, se expressar, deixar marca, sentir, perceber, criar… Eis o novo território do fantasma desperto para si.

Um espírito confrontado pela consciência, que dormia profundamente no âmago de suas origens, veio à superfície das águas daquele rio, no qual se viu refletido pela primeira vez.

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Para onde não preciso mais voltar?

Quando a Torre de ilusões desmorona, não há mais onde se esconder. O que surge é a exposição: estar desabrigado das certezas, diante de um espaço vazio.

O impulso imediato é preenchê-lo. Mas com o quê?
Com o já conhecido, que agora parece inadequado e antigo?
Ou com algo além, cuja forma ainda não sabemos nomear?

Raramente cogitamos habitar o vazio. Preenchê-lo de nós mesmos. Preferimos a busca constante, o movimento contínuo. Aprendemos a conquistar, mas não a sustentar.

Sustentar é mais difícil do que conquistar. A ilusão não suporta permanência. A mão que persegue o que foge mantém o corpo sempre fora de eixo.

Giramos, retornamos aos mesmos lugares, até que o cansaço impõe a pergunta:
para onde não preciso mais voltar?

A partir daí, algo se organiza: clareza sem dureza, sentimento sem perda de eixo, ação sem impulso cego. Termina o tempo de agradar e provar. Começa o tempo de nomear, escolher, sustentar e silenciar.

Aqui não o convidei para caminhar, mas para parar.

O corpo diz: não me empurre para o que não sou mais. Sê fiel, mesmo que doa.

quarta-feira, janeiro 14, 2026

O céu escuro de Deus, sua voz é trovão

Ouço o chamado sem sabê-lo
e me movo em sua direção, dando-lhe forma.
Faço conforme minha natureza.

Por vezes me perco nos ruídos,
mas mesmo no erro realizo a travessia.
O vento que açoita
também conduz.

Sempre amei as tempestades.
Raios, trovões,
o estalo no chão,
o clarão que anuncia o estrondo.
A força invisível
tornando-se visível.

Na juventude, sonhei
o nada,
o céu escuro,
os raios.

Uma voz:
Você quer conhecer Deus?

Respondi sem palavras.
E caí.

Caí entre raios,
pura eletricidade,
até despertar
no céu escuro de Deus.

O trovão rasga o silêncio primordial.
A tempestade libera o que estava acumulado.
Antes, o ar pesa.
Depois, o impacto.

Quem ama tempestades
suporta o campo elétrico.

O conhecimento verdadeiro
não é conforto,
é impacto.

Deus não me abriga.
Atravessa-me
como um raio.

Escrevo
para aterrar o raio.
Torná-lo
linguagem.

terça-feira, janeiro 13, 2026

Pontes

Quando me permito uma visão desromantizada da vida, vejo com mais nitidez a realidade dos fatos.

Sem a necessidade de criar tantas narrativas.

Divaguei, viajei e pousei em diversos conteúdos, lugares, histórias, elementos e pessoas. Foram pontos de apoio, abrigos temporários para o símbolo vivo que ainda não havia encontrado linguagem nem morada. Tocaram-me e me transformaram por ressonância, não necessariamente por destino. Fizeram parte do que sou, mas não me definem, não me pertencem, nem eu a eles.

Símbolos e sentidos não são missões. São caminhos, estados e estágios de uma travessia em território interno desconhecido. Não encerram uma identidade; abrem portas, comportas, clareiam o percurso. Cumprem função, não missão.

Quando não transformamos afinidade em pacto, nem ressonância em compromisso narrativo, a memória passa a servir à consciência, e não ao enredo. São pontes provisórias, até que a própria linguagem possa nascer, até que eu possa ser morada de mim e não visitante de mitos alheios.

Assim que passei a me habitar, não precisei de tantas narrativas para me explicar.
Nem de um destino para me guiar.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Pés descalços no Chão

O amor não precisa de palco.
Precisa de chão.

O amor idealizado brilha,
mas não é ouro.
É ouro de tolo.
Apresenta-se, representa,
mas não vive.
Fica suspenso.

Restrito às palavras,
às imagens,
às promessas.

As paixões pertencem ao teatro.
O amor mora na vida.

O encanto não atravessa a segunda-feira.
As juras não resistem ao silêncio.
O grandioso não sobrevive ao cotidiano.

Ideais seduzem e cobram sacrifício.
Fantasias pedem espera infinita
para um futuro que não chega.

O brilho sobe rápido
e desaparece
quando o chão aparece.

Promessas sem lastro.
Vazias de sentido.

Aprendo a amar
com os pés no chão,
com o tempo,
com a verdade possível.

Cultivo o amor que fica
quando o entusiasmo passa.
Que não grita.
Que não promete o mundo,
porque habita o real.

Volto para casa.
Ocupo meu lugar.

Não busco.
Me encontro.

Não quero intensidades vazias.
Abro espaço.
No vazio,
continuidade.

Não sou escolhida.
Sou a própria escolha.

Este é o meu não.
E nele,
há espaço
para um sim verdadeiro.

O amor que combina comigo,
que sempre gostei de andar descalça.

domingo, janeiro 11, 2026

A Morada do símbolo

Todos nós, em algum ponto da vida, somos tocados por paixões e fascínios que nos chamam em silêncio. Eles nos atraem para certos conteúdos que, quando acolhidos, passam a nos conduzir discretamente pela existência, como um fio invisível que leva, sempre, ao mesmo destino: o encontro consigo. Comigo não foi diferente. Ainda jovem, algo sussurrou aos meus ouvidos e esse sussurro tinha a forma viva do Antigo Egito.

O Antigo Egito tornou-se para mim um território hospitaleiro, capaz de acolher o simbolismo ainda velado do meu inconsciente, então impedido de se expressar por uma consciência dormente e oprimida pela conjuntura. Ali, esse conteúdo sem forma encontrou um vaso sagrado onde pôde repousar, sustentar-se e suportar, emanado de uma fonte interna que buscava, por si mesma, caminhos de permanência.

O universo simbólico da palavra não dita, da expressão pré-verbal, assentou-se na imagem que lhe era mais próxima por afinidade. Meu instrumento psíquico entrou em ressonância com uma era no tempo cuja vibração atravessa séculos e continua a reverberar.

Assim, meu inconsciente não me conduziu a um mero objeto de admiração, mas a um espelho estrutural de mim mesma, para além do tempo e do espaço.