Ouço o chamado sem sabê-lo
e me movo em sua direção, dando-lhe forma.
Faço conforme minha natureza.
Por vezes me perco nos ruídos,
mas mesmo no erro realizo a travessia.
O vento que açoita
também conduz.
Sempre amei as tempestades.
Raios, trovões,
o estalo no chão,
o clarão que anuncia o estrondo.
A força invisível
tornando-se visível.
Na juventude, sonhei
o nada,
o céu escuro,
os raios.
Uma voz:
Você quer conhecer Deus?
Respondi sem palavras.
E caí.
Caí entre raios,
pura eletricidade,
até despertar
no céu escuro de Deus.
O trovão rasga o silêncio primordial.
A tempestade libera o que estava acumulado.
Antes, o ar pesa.
Depois, o impacto.
Quem ama tempestades
suporta o campo elétrico.
O conhecimento verdadeiro
não é conforto,
é impacto.
Deus não me abriga.
Atravessa-me
como um raio.
Escrevo
para aterrar o raio.
Torná-lo
linguagem.
quarta-feira, janeiro 14, 2026
terça-feira, janeiro 13, 2026
Pontes
Quando me permito uma visão desromantizada da vida, vejo com mais nitidez a realidade dos fatos.
Sem a necessidade de criar tantas narrativas.
Divaguei, viajei e pousei em diversos conteúdos, lugares, histórias, elementos e pessoas. Foram pontos de apoio, abrigos temporários para o símbolo vivo que ainda não havia encontrado linguagem nem morada. Tocaram-me e me transformaram por ressonância, não necessariamente por destino. Fizeram parte do que sou, mas não me definem, não me pertencem, nem eu a eles.
Símbolos e sentidos não são missões. São caminhos, estados e estágios de uma travessia em território interno desconhecido. Não encerram uma identidade; abrem portas, comportas, clareiam o percurso. Cumprem função, não missão.
Quando não transformamos afinidade em pacto, nem ressonância em compromisso narrativo, a memória passa a servir à consciência, e não ao enredo. São pontes provisórias, até que a própria linguagem possa nascer, até que eu possa ser morada de mim e não visitante de mitos alheios.
Assim que passei a me habitar, não precisei de tantas narrativas para me explicar.
Nem de um destino para me guiar.
segunda-feira, janeiro 12, 2026
Pés descalços no Chão
O amor não precisa de palco.
Precisa de chão.
O amor idealizado brilha,
mas não é ouro.
É ouro de tolo.
Apresenta-se, representa,
mas não vive.
Fica suspenso.
Restrito às palavras,
às imagens,
às promessas.
As paixões pertencem ao teatro.
O amor mora na vida.
O encanto não atravessa a segunda-feira.
As juras não resistem ao silêncio.
O grandioso não sobrevive ao cotidiano.
Ideais seduzem e cobram sacrifício.
Fantasias pedem espera infinita
para um futuro que não chega.
O brilho sobe rápido
e desaparece
quando o chão aparece.
Promessas sem lastro.
Vazias de sentido.
Aprendo a amar
com os pés no chão,
com o tempo,
com a verdade possível.
Cultivo o amor que fica
quando o entusiasmo passa.
Que não grita.
Que não promete o mundo,
porque habita o real.
Volto para casa.
Ocupo meu lugar.
Não busco.
Me encontro.
Não quero intensidades vazias.
Abro espaço.
No vazio,
continuidade.
Não sou escolhida.
Sou a própria escolha.
Este é o meu não.
E nele,
há espaço
para um sim verdadeiro.
O amor que combina comigo,
que sempre gostei de andar descalça.
domingo, janeiro 11, 2026
A Morada do símbolo
Todos nós, em algum ponto da vida, somos tocados por paixões e fascínios que nos chamam em silêncio. Eles nos atraem para certos conteúdos que, quando acolhidos, passam a nos conduzir discretamente pela existência, como um fio invisível que leva, sempre, ao mesmo destino: o encontro consigo. Comigo não foi diferente. Ainda jovem, algo sussurrou aos meus ouvidos e esse sussurro tinha a forma viva do Antigo Egito.
O Antigo Egito tornou-se para mim um território hospitaleiro, capaz de acolher o simbolismo ainda velado do meu inconsciente, então impedido de se expressar por uma consciência dormente e oprimida pela conjuntura. Ali, esse conteúdo sem forma encontrou um vaso sagrado onde pôde repousar, sustentar-se e suportar, emanado de uma fonte interna que buscava, por si mesma, caminhos de permanência.
O universo simbólico da palavra não dita, da expressão pré-verbal, assentou-se na imagem que lhe era mais próxima por afinidade. Meu instrumento psíquico entrou em ressonância com uma era no tempo cuja vibração atravessa séculos e continua a reverberar.
Assim, meu inconsciente não me conduziu a um mero objeto de admiração, mas a um espelho estrutural de mim mesma, para além do tempo e do espaço.
sábado, janeiro 10, 2026
Afinidade em notas silenciosas
Grandes esperanças se dobram à memória
à infância inteira,
às quedas que ninguém vê,
ao silêncio dos intervalos.
O humano mora aqui,
onde nada grita ou se explica
mas tudo alcança.
Como a música, como a vida,
e como a afinidade:
uma linha fina
que leva
de volta à própria essência.
sexta-feira, janeiro 09, 2026
Silêncio do intervalo
Em paisagens turísticas, cujas imagens instagramáveis se congelam em massa, vejo pessoas dispersas a sorrir para as câmeras, na expectativa de serem notadas através de momentos eternizados em narrativas lidas pelo olhar alheio. Vejo-me entre elas, compartilhando do mesmo fogo de palha que nos move de um destino a outro, sempre em busca.
Ainda assim, sopra em mim um desejo aspirado do fundo à superfície, que me conduz ao momento mais esperado da caminhada em meio ao burburinho: o intervalo silencioso entre um grupo e outro. Ele me envolve como um abraço suave da paisagem aberta, que se oferece naturalmente. Admiro a brisa refrescante da fresta por onde algo verdadeiro respira entre nós.
Sorvo-a em pequenos goles pelos olhos, a mirar sua imensidão; ouço, ao longe, as vozes excitadas das pessoas que se vão e que chegam novamente em levas, através do tempo.
Aquece-me o coração tê-las por perto como plano de fundo de um panorama maior. Mesmo só, junto-me a elas de certa forma e, acompanhando-as com o olhar, permaneço nesse misto de pertencer e descaber.
quinta-feira, janeiro 08, 2026
Luzes acesas
Trago comigo
o que vibra em afinidade,
afinando os instrumentos.
O que me acompanha
não é o conflito,
mas o que ainda é vivo
e possível.
Abrigo
o que faz sentido preservar.
O restante fica.
Sem ataque.
Sem acerto de contas.
Atravesso o rio
e agora vejo a margem
a partir deste novo ângulo,
à distância.
Apenas observo,
sem precisar agir sobre.
Não é preciso interferir
para não ferir,
apenas seguir.
O mapa está iluminado,
posso enxergar
o arranjo musical
e ouvir
a orquestra tocar.
Cada personagem
tem seu instrumento,
cada som
tem sua função.
Acendo as luzes de casa,
deixo-as acesas
para que àqueles
que caminham lá fora
possam ver
e sentir o conforto
que um dia senti
ao vê-las de longe,
na escuridão
e no silêncio da noite.
O silêncio de fundo
acolhe a música
que segue a tocar.
Mantenho as luzes acesas,
iluminando
a orquestra
que se apresenta.
O propósito é o mesmo
para todos;
o que muda
para cada um
é a forma
de chegar a ele.
o que vibra em afinidade,
afinando os instrumentos.
O que me acompanha
não é o conflito,
mas o que ainda é vivo
e possível.
Abrigo
o que faz sentido preservar.
O restante fica.
Sem ataque.
Sem acerto de contas.
Atravesso o rio
e agora vejo a margem
a partir deste novo ângulo,
à distância.
Apenas observo,
sem precisar agir sobre.
Não é preciso interferir
para não ferir,
apenas seguir.
O mapa está iluminado,
posso enxergar
o arranjo musical
e ouvir
a orquestra tocar.
Cada personagem
tem seu instrumento,
cada som
tem sua função.
Acendo as luzes de casa,
deixo-as acesas
para que àqueles
que caminham lá fora
possam ver
e sentir o conforto
que um dia senti
ao vê-las de longe,
na escuridão
e no silêncio da noite.
O silêncio de fundo
acolhe a música
que segue a tocar.
Mantenho as luzes acesas,
iluminando
a orquestra
que se apresenta.
O propósito é o mesmo
para todos;
o que muda
para cada um
é a forma
de chegar a ele.
Assinar:
Postagens (Atom)