Lembro-me de cada casa que guardei no olhar
pelas caminhadas noturnas que fiz a sós, em silêncio.
Eu as contemplava à distância, como quem reconhece algo
sem saber o nome.
Eu não as via.
Eu as sentia.
De mim não emanava curiosidade pelo que as habitava.
Eu tinha certeza de que ali havia vida,
como um organismo que respira calmamente.
Não me sentia só quando as observava de longe,
nem desejava entrar para conhecer.
Eu as reconhecia.
Era um alívio silencioso saber que a vida
podia ser calma em algum lugar,
simplesmente existindo.
Caminhei na escuridão guiada por luzes
que não ofuscavam nem chamavam.
Elas apenas luziam, permaneciam.
Eu as chamava de paz e sossego,
sem ainda sabê-las.
Isso me mantinha naquele instante
da eternidade finita da vida.
Eu não queria alcançar, tocar ou ter.
Eu queria retornar para casa,
para minha casa,
aquela sem localização específica.
A casa que me aquietava
sempre esteve em construção aqui dentro,
com os materiais que eu tinha em mãos:
estrutura óssea, tinta sanguínea, argamassa cinzenta,
gerando forma, contendo espaços, margens, limites, cobertura.
O corpo sangrava quando não havia paredes.
A luz do mundo invadia o interior
vazio de janelas.
Escrevi erguendo contornos
para conteúdos ainda sem forma.
Eu caminhava à noite admirando as luzes
que escapavam das janelas no silêncio das ruas.
Eu estava a caminho de casa.
Agora me encontro a morar
onde sempre contemplei.
Onde o fogo não se apaga,
a mesa é posta sem pressa,
o silêncio não é vazio
e a vida não precisa se justificar.
A sensação de continuidade tranquila
e permanência que me tocava
numa casa vizinha, numa rua escura,
num país estrangeiro, numa janela iluminada,
era presença.
Há vida que não sangra para existir
e presença que não invade.
Em minha casa a luz está acesa,
não para chamar, nem para ser vista,
mas para existir.
Aqui sopra de leve uma brisa suave
que levanta a saia das cortinas
num movimento tranquilo,
como o vento que pincela as encostas
e desenha relevos.
Hoje, quando escrevo, acendo a luz de casa.
E quem sabe alguém, em outra noite, passe
e sinta a mesma paz que um dia senti.
Ou talvez seja eu mesma a passar,
reconhecendo o que sempre me buscou.